PEDRO A. SANTOS

Na última quadra natalícia antes das eleições autárquicas de 2017, o que não podia faltar era festa e muitas prendas. Entre animação, canhões de neve, cabazes de Natal e “smartphones” oferecidos ao desbarato, os autarcas portugueses já gastaram cinco milhões de euros, e ainda as contas não estão fechadas.

O clima do Portugal que virou a “página da austeridade” é de festa, e as autarquias entraram com facilidade no novo espírito desta quadra natalícia, nem que seja por ser o último Natal antes das eleições autárquicas.

Lisboa, por exemplo, gastou este ano algo como 700 mil euros em iluminações de Natal, após só ter gasto 100 mil euros em 2011, e 320 mil euros o ano passado. Mas não é só na capital da Nação que se celebra o nascimento de Jesus Cristo com uma ampla rega de despesa pública.

Segundo os números que chegaram à análise d’O DIABO, o Natal autárquico até agora já nos custou cerca de cinco milhões de euros, a que falta acrescentar o IVA. Como muitas vezes as autarquias só disponibilizam a informação das suas compras após a quadra natalícia, estes números não podem ser considerados totais e definitivos, mas já nos indicam a extensão das “despesas políticas” com o Natal deste ano.

As iluminações são, em primeira linha, das maiores parcelas da factura, ainda que das mais toleráveis, atendendo ao seu papel de chamariz de clientes para o comércio local. Em tempos, a iluminação e embelezamento das ruas era uma actividade realizada em muitos casos em conjunto pelos comerciantes locais com algum apoio do Estado. O decréscimo da actividade comercial a nível local em detrimento das grandes superfícies (que registam nesta época o seu pico de vendas, com os centros comerciais a abarrotar), deixou os comerciantes com menos fundos e as autarquias com o encargo da despesa.

Em Albufeira, por exemplo, vão-se gastar mais de 100 mil euros a iluminar as ruas, no Porto vão ser despendidos por uma das empresas municipais cerca de 90 mil euros, enquanto em Amarante as iluminações de Natal custarão 80 mil euros. Mas em todos estes casos a despesa foi feita mediante concurso público, algo que não é comum neste tipo de contratos.

Na Câmara Municipal da Calheta, município com 11 mil habitantes, por exemplo, decidiu-se gastar mais de 90 mil euros em iluminações mediante ajuste directo. No total, e não contando com Lisboa (cujos números ainda não se encontram oficializados), até agora quase 2 milhões do dinheiro dos contribuintes foi investido somente em luzes de Natal para a quadra. Até ao fecho conclusivo das contas, o valor deverá subir ainda substancialmente.

Mas neste Natal os autarcas decidiram que a festa deveria ser ainda mais animada, havendo pois necessidade de ir além das iluminações. Percebe-se bem porquê: com eleições autárquicas no horizonte, os vários partidos capricham em “dar festa” aos potenciais votantes.

Assim, os restantes 3 milhões de euros em despesas natalícias autárquicas que O DIABO analisou até agora estão a ser gastos numa variedade de outras rubricas, como jantares de Natal para os funcionários. Os municípios de Santa Maria da Feira e de Lagoa vão, por exemplo, gastar 14 mil euros num único jantar, enquanto Albufeira tenciona despender 32 mil euros em “catering” para a sua festa de Natal.

E que não faltem umas prendinhas para levar para casa! O “mimo” favorito dos autarcas são os “cabazes de Natal” oferecidos aos funcionários. Só em bolos-rei para colocar nesses cabazes a Câmara Municipal de Cascais vai gastar 26 mil euros. Oeiras, por sua vez, vai gastar 16 mil euros na compra de 2.950 bolos-rei, e em Vila Real de Santo António os 850 cabazes de Natal que os funcionários vão levar para casa custarão ao erário público cerca de 20 mil euros, em Tavira cerca de 50 mil euros, em Vila Nova de Famalicão cerca de 60 mil euros.

O recheio dos “cabazes de Natal”, pelos vistos, varia em substância: em Oeiras, 2.775 cabazes vão custar-nos quase 70 mil euros, mas em Albufeira os mesmos 70 mil euros apenas compram 1.370 cabazes, o que demonstra que o valor médio que cada autarca decide gastar com os seus funcionários varia consideravelmente, sendo que nestes dois exemplos o valor da prenda média oscila entre 25 e 50 euros. Considerando que Portugal tem um total de 308 municípios e 3.092 freguesias, é possível que até ao fecho total das contas a despesa com prendas alcance um valor bastante considerável.

Mas não é só em prendas e jantaradas para os funcionários que se fecha a quadra autárquica, havendo também necessidade de animação para os munícipes e fregueses. É para tal que existem as numerosas “aldeias de Natal”, “terras do Polo Norte” ou “reinos do Pai Natal”, entre outros nomes verdadeiramente ‘originais’.

Em muitos casos, estas animadas festas incluem comboios para passear os alegres eleitores, como no município de Leiria, que contratou um destes aparelhos por 11 mil euros mediante ajuste directo.

Pais Natais gigantes e presépios “vivos” (ou seja, com actores em vez de bonecos) também fazem parte da experiência. No município de Palmela, por exemplo, o Presépio vai custar 25 mil euros, enquanto em Vila do Conde o mesmo se ficará pelos 10 mil euros.

E enquanto os nossos amigos europeus amaldiçoam o frio, a neve e o gelo que têm de enfrentar todos os dias, os autarcas portugueses estão a fazer o seu melhor para que Portugal fique um bocadinho mais parecido com o Natal que se vê nos filmes americanos. E nesses filmes, Natal é equacionado com patinar no gelo.

Assim, num país onde (felizmente) o clima é ameno todo o ano, muitas autarquias, como Anadia, Vila do Conde e Almodôvar, instalaram pistas de gelo para os munícipes. Custo: 70 mil euros para Anadia, 60 mil euros para Vila do Conde, 15 mil para Almodôvar. E havendo gelo, não podia faltar neve, logo para tornar Portugal ainda mais parecido com esse mítico Norte europeu.

Há autarquias por todo o País a alugar canhões de neve, dispositivos que “fabricam” neve e a disparam para o ar. O município de Valongo vai gastar 10 mil euros a alugar um destes dispositivos, e também 20 mil euros a alugar outra novidade vinda do estrangeiro: rampas de “snow tubing”, nome chique para bóias que deslizam abaixo de pistas de gelo a grande velocidade.

Mas é talvez em Almada que o “espírito da época” melhor se exprime, visto o município ter gasto mais de sete mil euros para dar ‘smartphones’ de prenda durante uma festa de Natal. Ninguém diria que Portugal é um país em crise. Um verdadeiro “milagre de Natal”, tornado possível com o nosso dinheiro.

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