“O governador”

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O caso desta semana não foi a corrupção, mas a publicação de um livro, “O Governador”, do jornalista Luís Rosa, que veio levantar algumas moscas que estavam a dormir. Uma das moscas foi o próprio primeiro-ministro, que ficou zangado por o livro revelar que em 2016 ele terá intercedido junto do Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, a favor de Isabel dos Santos, filha do poderoso ex-Presidente de Angola.

Claro que nada justificava tanto burburinho por algo que não é propriamente uma novidade, todos assistimos a Isabel dos Santos a passear-se pelos corredor do poder político e económico de Lisboa e todos os negócios feitos não seriam possíveis sem a boa vontade do primeiro-ministro. O problema é que a senhora deixou de ser bem vista e tornou-se um activo tóxico para muita gente e o livro veio recordar essa e outras questões, a meu ver bem mais importantes, e que deveriam preocupar mais o primeiro-ministro, o seu Governo e o seu partido, se os portugueses estivessem mais atentos ao que se passa no país.

De facto, trata-se de um bom livro que, no contexto da concentração do poder político no PS e no Governo, revela coragem, quer da parte de Luís Rosa, quer da parte do Ex-Governador do Banco de Portugal Carlos Costa, e não por aquilo que irritou o primeiro-ministro, mas por todos os outros crimes cometidos sob a governação do Partido Socialista e que são profusamente revelados com todos os pormenores, nomes a datas. Aliás, já o livro da também jornalista Helena Garrido, “Quem Meteu a Mão na Caixa “, mostrou muito do que agora é confirmado.

De facto, aquilo de que António Costa não gosta é que lhe recordem que durante muitos anos, não meses, foi amigo, ministro e companheiro de viagem de José Sócrates e de tudo o que aconteceu durante esse período negro do nosso regime político, o que não teria sido possível sem a sua concordância. Aliás, terá também de um dia explicar algumas das suas próprias intervenções posteriores, como os casos do SIRESP e dos aviões “Kamov”.

António Costa ameaçou Carlos Costa com um processo judicial de que provavelmente já estará arrependido. Pessoal-
mente, não acredito que tal processo venha alguma vez a ver a luz do dia, ou o primeiro-ministro voltará a meter uma cunha para que não avance. Será apenas mais um processo a morrer nas masmorras da justiça portuguesa. Por outro lado, a sensibilidade ética e política do primeiro-ministro já foi testada inúmeras vezes, sem que a sua reacção tenha sido mais do que a sábia prudência. É que na relação com a justiça sabe-se sempre como começa a investigação, mas nunca se sabe verdadeiramente como acaba.

É também o que acontece com a leitura deste livro, “O Governador”. Começa com a descrição da vida pessoal, escolar e profissional de Carlos Costa, em Portugal e no estrangeiro, onde desempenhou com sucesso os mais elevados cargos ao serviço de Portugal, para avançar para a descrição de muitos dos acontecimentos que marcaram a vida política, económica e financeira do país durante trinta anos e que estão na base da estagnação económica que estamos a viver e do continuado empobrecimento dos portugueses. O livro não foge a todos esses relatos e ainda que para os portugueses mais bem informados se trate de questões conhecidas, são agora contadas por quem as viveu de um ponto de vista privilegiado e trás à coacção muitos pormenores e situações que ajudam a explicar os desastres provocados pelos vários Governos socialistas.

O livro trata questões como a situação crítica do país que deu lugar ao pedido de ajuda externa e as acções do Governador no sentido de informar o Presidente Cavaco Silva e o próprio José Sócrates, bem como diversos Conselheiros de Estado, da grave situação financeira que se vivia, tal como a venda do “Banif” ao Santander em condições desastrosas para o interesse nacional, ou a desgraça que foi a gestão da Caixa Geral de Depósitos de Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, como o assalto ao Millennium BCP realizado pelos mesmos dois protagonistas a mando de José Sócrates, como o desastre da PT, porventura a que foi a mais importante empresa portuguesa, o caso “BES” e, finalmente, a muito controversa e não esclarecida venda do Novo Banco. Este livro constitui assim mais um valioso contributo para o conhecimento deste período negro da nossa história recente.

António Costa acusa o livro de estar repleto de mentiras, o que é uma boa oportunidade para que seja ele próprio a clarificar tudo aquilo que considera mentira ou apenas desconhecimento do autor, detalhando o que verdadeiramente se passou em todos os casos. O que não penso seja uma tarefa fácil, porque o livro baseia as afirmações feitas em documentos fáceis de consultar e em entrevistas a pessoas idóneas que viveram muitos dos acontecimentos relatados. O que, mesmo sabendo-se que os portugueses não gostam de contrariar o poder, qualquer poder, não deixará de ser clarificador. Pelo que, exactamente por isso, António Costa refugir-se-á, como sempre faz, nas grandes generalidades e acusações.

Há um capítulo do livro que considero particularmente esclarecedor. Trata-se do capítulo os “três problemas de António Costa com Carlos Costa”, a saber: (1) “A recondução de Carlos Costa, sobre a qual se queixava de ter sido informado em cima da hora; (2) O facto de não ter sido considerado Mário Centeno para director do Departamento de Estudos Económicos do Banco de Portugal; (3) A existência de um alegado preconceito quanto a nomear pessoas próximas ou militantes do PS que eram quadros do Banco de Portugal”.

Reparem os leitores que as preocupações de António Costa não passaram por nenhum erro concreto cometido por Carlos Costa, ou por uma qualquer proposta alternativa às decisões do Governador do Banco de Portugal, todas as preocupações do primeiro-ministro têm a ver com empregos, lugares para filiados ou pessoas próximas do PS. Nada de novo, portanto, trata-se do que o primeiro-ministro sabe fazer bem desde que assumiu o cargo há sete anos: tratar da vida da grande família socialista.

Muitas pessoas, algumas porventura bem intencionadas, acusam o livro de estar a mexer em coisas que deveriam ficar no segredo de instituições que urge proteger, ou que o livro é um ajuste de contas de Carlos Costa. E se for apenas um mero serviço público ao informar os portugueses sobre a verdade, repito, de um período negro da nossa história? Ou seja, para além do julgamento das intenções de Carlos Costa que ninguém conhece, sobra o serviço público, sendo que esse resistirá ao tempo e às diatribes do primeiro-ministro.

Finalmente, posso estar enganado, mas este livro “O Governador” vai ficar para a história deste tempo como o livro “Portugal e o Futuro” de António Spínola, como um livro a antecipar o início do fim de um ciclo, neste caso o inicio do fim de António Costa, independentemente do tempo em que ele se possa ainda manter no poder. António Costa pode enganar muita gente durante algum tempo, mas não pode enganar toda a gente durante todo o tempo.