Em Debate: Portugal e o mundial de futebol

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O ópio do povo por Diogo Gil Gagean

Portugal já há muito que deixou de ser o país dos três “F”, mas houve um que atravessou a ditadura e se manteve entre nós até hoje, o “F” de futebol.

Claro que a forma como encaramos o desporto rei é individual e única, podemos encarar como Passos Coelho, que se sentava entre a populaça no estádio da Luz sem pedir favores a ninguém, podemos encarar como Mário Centeno e pedinchar bilhetes para o mesmo estádio da Luz, podemos ser magistrados e adorar o cheirinho a poder e aparente importância que dá estarmos na zona V.I.P. de um estádio, ou podemos aceitar que uma petrolífera nos ofereça a viagem.

Todas as formas descritas são legítimas, excepto se formos titulares de cargos públicos.

O futebol tornou-se no novo ópio do povo, aburguesou-se e toda a gente quer participar nele. Todos nos lembramos de Catarina Martins, em Belém, de cachecol da selecção nacional no pescoço a celebrar a vitória no Euro 2016, engolindo um sapo do tamanho do mundo só para aparecer na fotografia num evento burguês que enaltece heróis que Trotsky desprezaria.

É esta a magia do futebol e a pequenez dos nossos dirigentes que se “vendem” por três tostões. Antes de Luís Filipe Vieira ser detido faziam fila para aparecer ao lado deste, agora fogem dele como o diabo da cruz.

Este intróito vem a propósito da deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa ao Qatar para ir acompanhar a selecção nacional de futebol e, para o desfile da parolice estar completo, também irão António Costa e Augusto Santos Silva.

Estes dirigentes, que nos dizem que devemos ser cada vez mais parcos na utilização do automóvel por causa do ambiente, fazem questão de apoiar a selecção “in loco”. Ao contrário de milhões de portugueses que, fustigados pelos impostos e por uma galopante inflação, nem podem despender parte do seu parco rendimento para ir ao restaurante ver um jogo.

Marcelo Rebelo de Sousa, autorizado pelo Parlamento a viajar com os votos contra da IL, BE, PAN, Livre e dos deputados socialistas Isabel Moreira, Alexandra Leitão, Carla Miranda e Pedro Delgado Alves, já nos elucidou que é completamente diferente apoiar lá a selecção do que apoiar daqui, de terras lusas.

Pois claro que é Sr. Presidente, a primeira diferença é óbvia; se não fosse o erário público não tinha de suportar essa despesa, se não fosse estaria a contribuir para o meio ambiente e se não fosse seguramente que nos iria poupar a algum embaraço que já sabemos que vai acontecer.

Diz-nos ainda o nosso Presidente que é muito mais importante falar sobre a questão dos direitos humanos lá do que cá, e garantiu que iria falar sobre esta questão na conferência sobre o “Futuro da Educação de Qualidade”, onde irá participar juntamente com outros chefes de Estado. O que o Sr. Presidente se esqueceu de referir é que a conferência, embora se realize no Médio Oriente, não é no Qatar, é no Cairo, capital do Egipto. Alguém que ofereça um atlas a Fernando Frutuoso de Melo.

Evidentemente que o Estado português nada tem a ver com a escolha do Qatar para organizar este mundial e que as críticas apenas pecam por tardias. Desde o início que se sabia que a atribuição da organização estava envolta num nevoeiro de corrupção, desde o início que se sabia também que havia exploração dos trabalhadores e da perseguição aos homossexuais.

Mas, sobretudo, sabia-se qual o papel da mulher na sociedade árabe e muçulmana e não foi apenas a FIFA que silenciou este assunto. Por cá, tanto o Bloco de Esquerda como o PCP apenas falam nas violações dos direitos dos trabalhadores e esqueceram-se dos direitos das mulheres e dos homossexuais.

É esta hipocrisia da extrema-esquerda que me amofina eternamente. O activismo selectivo é um dos maiores cancros da actualidade. Tratar de forma desigual duas coisas iguais, dependendo do emissor ou malfeitor, tem de ser desmascarado e quem ama a liberdade não pode compactuar com esta dua-
lidade de critérios.

A realidade é que o Mundial já se está a realizar e só me resta apoiar e esperar o maior sucesso da nossa selecção.

Força, Portugal!!!!!


“Catar ou não Catar, eis a questão” por José Guilherme Oliveira

Vamos lá ver, deviam ou não os maiores representantes da nação, PM e Presidente da República deslocar-se ao Catar no apoio à selecção de futebol? A minha resposta é que é absolutamente indiferente, pois a questão é um não assunto.

Ir ver uns jogos de Portugal no campeonato de mundo que decorre no Catar, país onde os direitos humanos de um modo abrangente não são respeitados e em alguns casos arrasados, (penso na criminalização das práticas homossexuais, na ausência de direito das mulheres, na desprotecção absoluta nos direitos dos trabalhadores) não significa que se apoie o país, nem sequer que se desvalorize a situação. Fazê-lo é um exagero.

Por cá, os mais furiosos foram aqueles que se extremam mais à esquerda, que zurziram com alguma violência na dupla Marcelo e Costa. Não tenho memória de que os mesmos se tenham manifestado aquando dos Jogos Olímpicos de Beijing, em 2022 (é certo que não temos atletas de Inverno e por isso ninguém se lá deslocou, mas ainda assim…), e não me consta que na China os direitos humanos tenham cuidado muito diferente daquele que existe no Catar. Também não ouvi tal chinfrim quando o Marcelo viajou até à Rússia ver jogos de Portugal e, ao que se sabe, não é a Rússia um exemplo a seguir no que aos direitos humanos diz respeito.

As reacções são para parecer bem, mas resultam hipócritas e até certo ponto oportunistas.

O erro é evidente, está na escolha do local do evento e não no apoio à nossa selecção, que o disputa.

Não temos de ser todos meninos da “António Arroio”, activistas inconsequentes. Não esperamos, nem queremos ver o Presidente da República colar as mãos à porta de um estádio gritando que só sai de lá quando o regime cair.

É claro que o Marcelo, famoso pela sua prodigalidade verbal, que não pode ver um microfone no horizonte, tinha de se espalhar ao cumprido, mais uma vez (começa a ser quase um hábito, pela recorrência).

“Bem, mas vamos lá esquecer isso (a violação dos direitos humanos) por agora e vamos lá apoiar”. Terá sido uma formulação semelhante a esta que o principal da nação deixou dita. Toda a gente entendeu, mas não havia necessidade, bolas.

Se é verdade que não temos de estar sempre em modo activista, tipo Dr.ª Isabel Moreira, que não se cansa de tanta militância activa, também o é que o silencio é de ouro, como diz com ciência o adágio, e podíamos começar a exercê-lo, não acha Professor Marcelo?

P.S. – Força Portugal. Dá-lhes, Cristiano (a forma como o português de maior sucesso tem sido tratado, sem qualquer contemplação, é vergonhosa).