Reformados são “verbos de encher”

“À boa maneira socialista criam-se comissões, serviços, pretensos estudos, replicam-se modelos de um hospital para o outro e atiram-se mais uns tantos milhões no orçamento, mas nunca se olha para o elefante na sala”

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Um dos grandes problemas de se estar maluco é não se saber que se está maluco! O mesmo se passa com os idiotas. Não sabem que são idiotas. Com o Governo a coisa não corre de forma muito diferente – não existe a mínima noção dos problemas do país, nem a sua manifesta falta de capacidade para os resolver.

Estamos em finais de Novembro e as temperaturas estão tão amenas quanto no meio da época primaveril, próximas dos 15, 20 graus. Não fosse a copiosa chuva dos últimos dias e teríamos as explanadas a bombar enquanto o sol raiasse. Mesmo pela noitinha e no interior profundo as temperaturas têm andado acima de zero. Em sentido inverso, as urgências estão à pinha, perto da ruptura, segundo os meios de comunicação social, à conta de vírus respiratórios. A explicação parece tão dúbia quanto as justificativas de Costa no BIC, já que as urgências que estão pelas costuras são as dos grandes centros urbanos, onde a variação térmica tem sido muito pouco acentuada. A existir um surto de vírus respiratórios nas grandes cidades, seria de procurar outras explicações que não as baixas temperaturas, talvez mapeando os utentes, percebendo os seus hábitos e condições de vida.

Não sendo médico, nem tendo as equivalências de Sócrates, aponto uma série de motivos que me parecem determinantes, a começar pelo número de portugueses que não têm médico de família e, como tal, não têm um rastreio atempado e sério dos seus problemas e dos cuidados que devem ter para os minorar. De igual forma, aqueles que já sofriam de problemas viram-nos agravar durante o período pandémico, não obrigatoriamente por causa do vírus, mas pela não realização de exames complementares e de diagnóstico. Hoje, com os salários e pensões que se praticam, é assustador o número de pessoas que tem que escolher qual a medicação que pode pagar, prescindindo, sem critério, de outra e sem que veja, da parte do Governo, sequer um estudo que permita saber quantos são, quais os medicamentos mais que são preteridos nessa escolha e um plano para combater essa precaridade. Nada! Zero! Contribui, também, o aumento brutal do custo de vida e o roubo das latas de atum nos supermercados que Marcelo desvalorizou. Entre outras coisas, aquilo que estes comportamentos (de forma massiva e num grupo etário muito específico) nos dizem é que, para além das escolhas nos medicamentos, estes idosos têm que se expor ao risco e à vergonha de terem que roubar para comer. Como é óbvio, com estas carências alimentares, encontram-se muito mais débeis e sujeitos a infecções e outras doenças. Uma outra realidade, para a qual ninguém parece olhar, é a quantidade de sem abrigos e de pessoas que vivem da caridade de terceiros, constituindo, também eles, grupos de risco. A agravar, pelo panorama de aumento geral das rendas e empréstimos à habitação, que levam a que grande parte das pessoas aceite viver em condições muito mais degradadas e, muitas vezes, quase desumanas, sobretudo nos grandes centros urbanos. Este é o retrato geral, muito mais abrangente e preocupante na saúde dos portugueses, ao invés de culpar as emissões de carbono, a poluição urbana ou as alterações climáticas pelo aumento de doenças respiratórias. Centrar as causas aqui é só ser-se idiota ou não ter a mínima ideia do problema. Aliás, estas servem, hoje, de fiel para tudo. E, por isso, convém que o problema seja este, que é de agenda, da moda e dá direito a tempo de antena, e não outro, estrutural e muito mais grave, o qual, para além de muito dinheiro implica uma reforma profunda na forma como pensamos a nossa sociedade.

Não querendo ser mesquinho e levantar falsas suposições, certo é que os idosos só são prioridades nos discursos eleitorais da esquerda. Primeiro, são pensionistas e não contribuintes, pelo que na balança do Estado representam um duplo custo. Segundo, são aqueles que mais usam e dependem da (tendencial) gratuitidade dos serviços públicos, aumentando, novamente, a despesa do Estado. Terceiro, pouco ou nada são considerados, seja para o que for e a sua vida útil é medida em função dos ciclos eleitorais. Por muito que o discurso seja outro, por muito que o politicamente correcto e as agendas ideológicas vociferem o contrário, o certo é que, para os políticos em geral (e os de esquerda em particular), os idosos são apenas verbos de encher, não beneficiando de qualquer medida efectiva e de monta durante os exercícios governativos.

À boa maneira socialista criam-se comissões, serviços, pretensos estudos, replicam-se os modelos de um hospital para o outro e atiram-se mais uns tantos milhões no orçamento, num aparente esforço de resolução, sendo certo que nunca se olha para o elefante na sala. O problema na Saúde, muito para lá do de gestão e orçamentação, é um problema de saúde pública, de hábitos alimentares e das condições de vida. Centralizar serviços, descurando os cuidados primários, maltratar médicos e enfermeiros, não pagar horas extra a bombeiros e ao INEM, acabar com SAPs e SASUs e com as parcerias público privadas que ditavam rácios de referência, apenas por motivos ideológicos, tem consequências desastrosas para o povo português.

Bom exemplo disso são as ambulâncias que têm que aguardar à porta dos hospitais três e mais horas porque estes não têm macas, privando-as, durante esse período, de socorrerem situações urgentes. É só a mais pura das incompetências. Pergunto: quantas macas se comprariam com o dinheiro do pavilhão de Caminha, das comemorações do cinquentenário do 25 de Abril ou da comitiva que vai ao Qatar ver o jogo inaugural da selecção?

Em Portugal morre-se estúpido e devagarinho, empunhando uma rosa e culpando um passado que há muito deveria estar enterrado…