Crise, a quanto obrigas! O triunfo dos douradinhos

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Com o cinto a apertar cada vez mais, muitos portugueses têm vindo a alterar (para pior) os seus hábitos alimentares. Nos supermercados das grandes superfícies, onde se regista um maior volume de compras, as barras congeladas à base de peixe subiram ao pódio do consumo. Aproveitando a onda, a maior parte das cadeias comerciais aumentou já o preço de venda ao público.

Os chamados “douradinhos” tiveram origem em Inglaterra no início do século XX, onde começaram por ser tiras de verdadeiro peixe conservadas em sal. Durante a II Guerra Mundial, contudo, os populares “fishfingers” (ou ‘dedos de peixe’) começaram a ser produzidos industrialmente com apenas uma pequena quantidade de peixe (geralmente, arenque), devido à escassez de pescado. Os norte-americanos farejaram o negócio e em 1953 a empresa Gorton-Pew Fisheries iniciou a comercialização massiva de “fishfingers” congelados. São hoje um produto de consumo mundial.

Em Portugal, onde são vendidos sob a designação “douradinhos”, devido à cor com que ficam depois de fritos, são fabricados com cerca de 55% de peixe branco (em média). Na composição entram ainda farinha de trigo, amido de batata, água, óleo de colza, levedura, sal, “especiarias” e (para a cobertura) pão ralado. A sua riqueza nutricional é questionada por dietistas, bem como os níveis de sal e intensificadores de sabor, mas o preço imbatível fez deles presença habitual nos lares pobres, remediados e até em alguns mais abastados.

Fritos, levados ou forno ou cozinhados no microondas, rápidos de confeccionar e de servir, os douradinhos são comercializados em embalagens a partir de 10 unidades, custando cada douradinho entre 0,20 e 0,50 euros, conforme a marca, oscilando o preço do quilo entre 5 e 11 euros.

O douradinho de peixe foi, precisamente, o produto alimentar cujo preço mais aumentou na última semana nas grandes superfícies comerciais (mais 16% do que na semana anterior). A aferição foi feita pela Deco, que desde há meses acompanha a evolução dos preços de um cabaz de 63 produtos alimentares essenciais. Entre Fevereiro e Novembro, o custo desse cabaz já sofreu um agravamento de 14%, cifrando-se agora em 209,98 euros.

Na última semana, foram estes os produtos cujos preços mais subiram: douradinhos de peixe (mais 16%), cereais (mais 13%), medalhões de pescada (mais 11%), atum posta em óleo vegetal (mais 11%), couve-coração (mais 7%), perna de peru (mais 5%), café torrado moído (mais 5%), iogurte líquido (mais 4%), leite UHT meio-gordo (mais 4%) e ovos (mais 4%).

Desde o início da guerra na Ucrânia, os dez produtos que mais viram o seu preço aumentar foram: açúcar branco (mais 51%), polpa de tomate (mais 51%), laranja (mais 47%), pescada fresca (mais 45%), leite UHT meio-gordo (mais 38%), bife de peru (mais 33%), couve-coração (mais 33%), cenoura (mais 32%), frango inteiro (mais 30%) e ovos (mais 30%).

Natal mais caro

A um mês do Natal, o aumento de 17,84% do preço do cabaz alimentar para a ceia vai levar muitas famílias a terem de optar por uma consoada mais simples.

Diz a tradição que a consoada pede bacalhau cozido com couves e batatas, peru assado no forno com um bom vinho a acompanhar e uma mesa repleta de rabanadas, filhoses ou outros doces tradicionais. Mas o preço dos alimentos não pára de subir e, a apenas algumas semanas da noite de Natal, alguns dos produtos essenciais na mesa de muitas famílias estão significativamente mais caros.

Do cabaz de bens analisados pela Deco (16 produtos tipicamente usados na confeção da consoada – açúcar branco; farinha para bolos; batata vermelha; leite UHT meio-gordo; seis ovos; couve; óleo alimentar 100% vegetal; carcaça tradicional; perna de peru; bacalhau graúdo; arroz carolino; azeite virgem extra; tablete de chocolate para culinária; abacaxi; vinho branco DOC Alentejo; vinho tinto DOC Douro) – todos os produtos estão mais caros.

Para avaliar esta evolução de preços, a DECO PROTESTE calculou o preço médio por produto em todas as lojas online do seu simulador em que se encontra disponível, com acesso livre para todos os consumidores. Posteriormente, foi somado o preço médio de todos os produtos e obtido o custo total do cabaz.

Da análise foi possível concluir que, entre 5 de janeiro e 9 de novembro, o preço deste cabaz já aumentou 17,84%, ou seja, mais de 6,50 euros, custando agora 44,81 euros. No entanto, este valor pode subir bastante para quem precisar de quantidades maiores, uma vez que só foram considerados neste cabaz uma unidade de cada produto ou um quilo, no caso dos produtos vendidos a peso.

Dos 16 artigos, aquele que registou uma maior subida de preço foi o açúcar branco. A subida foi de 51%, sendo que um pacote de um quilo de açúcar está a custar, em média, 1,67 euros. Ao açúcar branco, seguem-se a farinha para bolos e a batata vermelha.

Ana Guerreiro, porta-voz da DECO PROTESTE, refere: “É possível poupar nas idas ao supermercado. Os consumidores devem preparar a lista de compras com base no número de pessoas que vão ter à mesa na ceia de Natal. A comparação dos preços por litro, quilo ou unidade entre os produtos de várias marcas é fundamental para manter o orçamento sob controlo”.