O PS e António Costa não têm com quem dividir as culpas do nosso atraso

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Governar uma nação é sempre uma obra colectiva e, sendo verdade que habitualmente existe alguém que é visto como determinante pela opinião pública, a verdade é que a qualidade dos resultados resulta da qualidade humana, técnica e, porventura política, de meia dúzia de pessoas. Este é o actual dilema português, porque os três governos socialistas, depois de Cavaco Silva, nunca tiveram essa meia dúzia de pessoas de qualidade. O Governo de Passos Coelho teve algumas pessoas com qualidade técnica, mas insuficiente nível político, além de se ter concentrado apenas na missão de resolver o problema das finanças nacionais. Talvez que um segundo mandato tenha sido uma oportunidade perdida para Portugal.

Os governos de António Costa são os que estão mais longe do ideal do primeiro-ministro se rodear da tal meia dúzia de pessoas de qualidade. De facto, a mediocridade é a marca mais distintiva dos governos de António Costa, tanto no plano técnico, como nos planos humano e político. Sendo que, pelo menos, dois primeiros-ministros socialistas, José Sócrates e António Costa, são autocratas potenciais e personalizam o princípio atribuído a Cavaco Silva de que nunca se enganam e nunca têm dúvidas. Com a nota negativa de que a tal meia dúzia de pessoas que rodeiam António Costa acredita nisso.

É esta a situação que está na base das presentes dificuldades do ministro da Economia António Costa Silva, que é uma carta fora do baralho socialista. Sendo um sonhador, com uma certa cultura tecnológica e alguma experiência de gestão, que poderia ser útil a um Governo que não possui essas qualificações, de facto é previsível que seja uma oportunidade perdida, porque a mediocridade geral infecta a governação de António Costa de forma irreversível.

Neste ponto, devo dizer que em todos os governos existe sempre alguém com qualidade e os governos de António Costa não são excepção, a questão é que a qualidade da governação depende muito do colectivo. Cavaco Silva não era um homem com o conhecimento dos potenciais governantes de qualidade, mas soube seguir a opinião, entre outras, de Valente de Oliveira, razão para a embaixada do Norte nos seus governos. Ou seja, Cavaco Silva cumpriu o princípio da meia dúzia de pessoas de qualidade. Por exemplo, Mira Amaral sempre foi um “outsider” do núcleo duro de Cavaco, mas teve a arte de influenciar a governação de forma insubstituível, rodeando-se, ele próprio, de pessoas de qualidade.

Presentemente, já bastantes comentadores da actividade governativa se estão a dar conta das consequências da ausência de qualidade do Governo, começando a ver o óbvio: as contradições existentes em algumas das decisões, apesar de acharem que isso se deve a uma ausência de coordenação, quando de facto é o resultado, desde o início, da mediocridade geral da maioria dos governantes. O ex-ministro Eduardo Cabrita era um caso extremo, mas o facto é que o problema é geral e muito mais vasto.

Existe um debate, em Portugal como noutras latitudes, sobre a questão de saber se o atraso dos povos é culpa dos governos ou do povo. Sendo para mim óbvio que normalmente é de ambos, com a nota de que no nosso caso nenhum povo, no seu pleno juízo, deveria ter dado a maioria absoluta ao PS nas últimas eleições, mas isso também depende das regras eleitorais não serem plenamente democráticas e conduzirem a uma elevada abstenção, sendo que não sabemos o que pensam os que não votaram. Todavia, neste debate, deveremos também avaliar a qualidade pedagógica da liderança, ou seja, o tal exemplo que vem de cima e que pode influenciar enormemente a orientação do voto do povo. Ou seja, no caso do PS essa pedagogia é de sinal negativo, a propaganda é feita com dados ausentes ou viciados e através de verdades relativas, quando não através da mentira pura e dura. Ora a inverdade leva tempo a ser descoberta, o que estará na raiz da existência de grandes erros dos eleitores e na natureza dos ciclos políticos.

Em qualquer caso, o envolvimento de tantos membros das hierarquias socialistas em casos de corrupção, sem que o primeiro-ministro se tenha sentido minimamente incomodado, deveria ter alertado mais portugueses. Esta semana as investigações da Procuradoria Geral da República e da Polícia Judiciária chegaram mesmo à Presidência do Concelho de Ministros, envolvendo o Secretário Geral num caso de participação em negócio e falsificação de documento. Como habitualmente, nada que incomode António Costa, na base de que se trata de um problema da Justiça e não de ética e de decência na vida pública, conceito estranho porque toda a corrupção existente envolve o primeiro-ministro que escolhe as pessoas com quem trabalha. Como diz o povo, diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. 

Mas não é só a corrupção que deveria ter alertado os eleitores portugueses, bastaria estarem atentos às práticas generalizadas de contractos por ajuste directo, ou às tentativas de controlo da Justiça, ou ao clima de propaganda organizada, ou a ausência de transparência na governação, para, pelo menos, desconfiar.

Acresce que desde o início, há sete anos, a governação socialista, por táctica eleitoral ou por genuína vontade de acudir aos sectores mais desfavorecidos da sociedade, não sei julgar este ponto, luta com um problema insolúvel, que são as políticas que não promovem o crescimento económico. Ou seja, na ausência de capacidade de promover o investimento nacional e internacional, nomeadamente na indústria, o Governo de António Costa tem gasto o que tem e não tem na tentativa de minimizar o mal-estar social através de cada vez mais impostos, o que por sua vez limita ou anula a possibilidade desse mesmo investimento. Neste ponto António Costa, talvez devido à sua anterior participação televisiva, criou uma verdadeira quadratura do círculo, a que todos estamos presos.

Mais quatro anos desta telenovela, sem grande curiosidade sobre o seu desfecho que já está anunciado, conduzirão Portugal à cauda de todas as nações da União Europeia, sendo que em alguns indicadores já lá estamos. Culpa dos governos socialistas de António Costa ou do povo que o permite? Quem souber que responda, pela minha parte levo em consideração que as leis eleitorais favorecem os partidos no poder através da escolha dos deputados pelo partido e não pelos eleitores, o que conduz a uma Assembleia da República largamente domesticada, o que, em conjunto com uma máquina de propaganda bem oleada a euros do erário público, permite enganar no tempo os cidadãos eleitores. Ou seja, neste caso o PS e António Costa não têm, por muito que tentem, com quem dividir as culpas do nosso atraso. ■