Os ministros faz de conta!

O Reino Unido tem quase 68 milhões de habitantes e um governo composto por 22 ministros, o mesmo exacto número que tem Espanha, para cerca de 47,5 milhões de habitantes. Já a Alemanha tem 16 ministros para uma população de mais de 83 milhões, exactamente o mesmo número de governantes que os Estados Unidos consideraram necessários e suficientes, num país que ultrapassa os 330 milhões. Não consta que nenhum desses países funcione pior por escassez de mão-de-obra executiva. Por cá, com muito menos população, menos relações internacionais, com uma economia muito mais débil, precisamos de 17 Ministros e mais 36 Secretários de Estado, num total de 53! A isto acresce um sem número de Direcções-Gerais, de Agências, de Institutos Públicos e toda uma panóplia de organismos com siglas e anagramas muito criativos e de competências muito duvidosas, naquilo a que os socialistas tanto gostam de chamar de desconcentração de poderes. Não é, bem pelo contrário: quanto mais os poderes estiverem dispersos por vários decisores, sem que qualquer deles tenha, de facto, o poder de, per se, decidir, tanto melhor! Estão criadas as três condições que os socialistas tanto gostam: uma rede de favores e lugares suficientemente extensa que lhes permita colocar os amigos e os titulares de cartão rosa; uma teia tão imbrincada e complicada que justifique as não decisões e a necessidade de pareceres pagos a peso de ouro; o garante de potenciais culpados, num nível intermédio, que sirvam de escudo à classe dirigente que os tutela. Em caso de contestação ou de asneira da grossa, as cabeças que rolam não são as dos generais, mas de um ou outro coronel, que rapidamente é substituído pela máquina socialista. Estes dão-se à morte com agrado porque sabem que ressuscitam com mais facilidade que Cristo e, geralmente, em melhor posição. É uma espécie de ressuscitação com “upgrade”!

No entanto, para lá desta plêiade decisória, Costa opera mais uma inovação no processo executivo, criando a figura de CEO do Serviço Nacional de Saúde, cargo para o qual convidou Fernando Araújo. Não duvidando das qualidades de gestão do imuno-hemoterapeuta e ex-secretário de Estado da Saúde (também no Governo de Costa), contesta-se o cargo. A primeira pergunta prende-se com a necessidade de um CEO, num executivo e com a própria contradição terminológica: então o CEO de qualquer pasta de um Executivo não é o próprio ministro? A segunda questão relaciona-se com a necessidade operacional propriamente dita: é apenas no SNS que faz falta um CEO? Não deveriam existir tantos outros quanto a especificidade situacional e o risco de colapso das políticas para determinado sector ou do grau de exposição do ministro tutelar? Dito de outra maneira: Costa parece ter inaugurado uma nova forma de fazer política, na qual os ministros e os secretários de Estado passam a instrumentais para cortar fitas e comparecer a actos públicos a comer rissóis e bebericar espumante – a política de charme – e os CEOs gerem pastas e ministérios, sempre com a cabeça a prémio e sujeitos à sindicância da popularidade – a política de sacrifício! De alguma forma, ainda que sem o cunho formal, o ensaio foi feito com Gouveia e Melo no processo de vacinação: um ministro, dois secretários de Estado, uma Directora-Geral da Saúde e quem detinha total poder e autonomia era um militar indigitado para funções muito específicas… Caso corresse mal a demissão era certa; caso corresse bem, celebrar-se-ia o acerto da decisão, capitalizando os louros! 

Percebe-se, assim, a nomeação de Pizarro, com fraca apetência ministerial e capacidade duvidosa, mas leal ao Primeiro e com peso político que cumpre assegurar, já que as decisões estarão a cargo de quem, efectivamente, conhece o terreno, tem provas dadas e, ao que parece, não se importa de por a cabeça no cepo…

Escancarada a porta, o Largo do Rato começará a produzir massivamente essa nova estirpe, a dos CEOs em cargos de “governância”, já que ninguém contesta o absurdo da medida e as possibilidades parecem infindáveis, do CEO da Protecção Civil ao CEO das bolas de Berlim na Praia das Maçãs, tudo parece possível. Aliás, não andou o Adão e Silva a ganhar uns cobres a gerir os bolinhos de bacalhau das comemorações do 25 de Abril?

A justificação de Costa não é quanto ao cargo, sua utilidade, competências, responsabilidades ou cabimento constitucional. A sua justificação é quanto ao nome por si escolhido, rematando com um acesso de populismo barato onde refere que Lisboa tem muito a aprender com o Porto. O mesmo Costa que jurou a pés juntos que o Infarmed viria para a Invicta e que se mantem pela capital volvidos mais de quatro anos…

Lisboa não tem nada a aprender com o Porto ou com quer que seja! Aliás, a expressão, mais do que infeliz, é o reflexo da confusão geográfica que paira em quem governa, em que cidade e poder são uma e a mesma coisa! Já São Bento e o Largo do Rato muito teriam a aprender com o Portugal real, aquele que vive do seu esforço, do seu suor, do seu trabalho. O que paga as contas com o seu dinheiro e o que se deita a rezar pelo milagre de que o dia seguinte seja melhor, se não for para si, que seja para os seus.

A querer começar pelo Porto, Costa poderia seguir o exemplo das contas certas, do respeito pelos seus cidadãos e pela pluralidade de opiniões como pilares de uma democracia de facto. Poderia tentar perceber que a segunda maior cidade do país é governada por um movimento independente e que os socialistas “não tocam na borracha” há mais de duas décadas, porque os tripeiros não vão em promessas vãs ou em manobras de popularidade. Acreditam no mérito do seu trabalho, valorizam o seu esforço, quem sua a camisola com eles e poucos são os que trocam a honra pela subserviência…    

E até que Costa nomeie um CEO para o ordenamento territorial e outro para a censura, seguramente que assim se manterá: invicta, mui nobre e sempre leal! ■

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