A política e a gestão não deveriam ser actividades em conflito o que, infelizmente, acontece com demasiada frequência no caso português. Quando em 1995 fui assentar praça como deputado na Assembleia da República já sabia que os empresários não eram ali muito populares, mas nunca tinha imaginado o abismo que me esperava. Verifiquei, por exemplo, que o cumprimento dos horários, o hábito de escrever e de documentar o que se faz, ou a avaliação do trabalho realizado, coisas normais na gestão das empresas, eram hábitos não apenas estranhos, mas frequentemente hostilizados. Compreendi, então, que o rigor, a disciplina e o método eram condições ali desconhecidas, a favor da oralidade e do combate político/partidário.
Quando voltei de uma visita ao Japão, impressionado com as sínteses estratégicas japonesas de 1946 e de 1956 e procurei explicar aos colegas a vantagem de haver no partido e no Governo uma definição estratégica, bati numa parede. Infelizmente, não apenas a ideia foi repetidamente recusada como tive de ler e comentar como relator, durante três anos seguidos, as Grandes Opções do Plano, um volume enorme, publicado a cada ano, e que ninguém lia. Uma total inutilidade. Sobre esta questão da estratégia, recordo com saudade os dois únicos colegas deputados que me compreenderam, o Álvaro Barreto do PSD, porque era empresário, e o Marques Júnior do PS, porque era militar.
Depois, durante os quatro anos que permaneci como deputado não foram poucas as vezes que a minha condição de empresário entrou em choque com colegas ou com a direcção da bancada a que, estranhamente, também pertencia. Aliás, na direcção da bancada participavam uns dez vice-presidentes, número que retirava, desde logo, toda a eficácia possível às decisões, que dependiam para quase tudo do líder, que normalmente seguia as instruções do Secretário-Geral. No livro “O Estratega”, que foi publicado durante a minha campanha eleitoral de 2015, o leitor encontrará várias cartas desse tempo que revelam a minha incompreensão com o chamado trabalho político levado a cabo no Parlamento.
Esta questão terá a sua importância porque, entretanto, a actividade e o pensamento meramente políticos dominam a actividade partidária e parlamentar com reflexo na comunicação social. A seguir ao 25 de Abril os principais partidos criaram os seus gabinetes de estudo com a intenção, a exemplo de outros países, de debater ideias e de avaliar soluções para os problemas do país, mas foi sol de pouca dura e, pouco a pouco, despareceram. O que existe hoje é um grande falatório sobre a necessidade de reformas, mas sem ideias ou propostas claras para uma estratégia, em primeiro lugar, e para propostas detalhadas para as principais reformas, de seguida.
A luta partidária domina hoje a actividade política entre nós e os debates na comunicação social são uma pura extensão dessa luta partidária. Os partidos políticos tornaram-se ilhas da verdade única, sendo que o partido dominante ao longo dos últimos vinte a cinco anos, o Partido Socialista, concentra em si toda a verdade, sem deixar margem para grandes discussões.
Neste contexto não surpreende que o Governo de António Costa, composto na sua maioria por membros da grande família socialista, em que muitos nunca fizeram outra coisa que política, não apresentem ideias claras, organizadas e coerentes para a gestão dos diversos sectores da governação, como seja a Saúde, a Educação ou a Justiça e se deixem atolar na confusão generalizada e sem sombra de qualquer método. Ou que dificilmente compreendam as empresas e a importância do seu crescimento e a sua geração de lucros, preferindo as pequenas, que são realidades simples, amigáveis e mais facilmente domináveis.
As recentes leis sobre a habitação são a demonstração prática do abismo existente entre a política e a gestão racional de um problema sério que é a oferta de casas ser muito inferior às necessidades dos portugueses. Assim, um problema relativamente simples, que tem a ver com a economia de mercado, mas também com a oferta competitiva do Estado, central e autárquico, foi transformado, por especialistas da confusão legislativa, numa inviabilidade prática que demorará anos a deixar que a realidade da vida assente.
Em Portugal a política é defender tudo o que possa reforçar o poder do partido e enfraquecer os restantes, com total desconhecimento, ou desleixo, em relação ao conhecimento e às práticas de gestão seguidas nos outros países ou na União Europeia. Por exemplo, as críticas feitas ao Banco Central Europeu na questão do combate à inflação desconhecem a prática consolidada na Europa e nos Estados Unidos a favor de afirmações de índole meramente de política caseira. Ou, por exemplo, a defesa da bitola ibérica na ferrovia portuguesa desconhece, por vezes nega, a política consensualizada de todas as restantes nações da União Europeia para a ferrovia. Ou seja, o poder político em Portugal vive à margem de toda a evidência resultante de anos de estudo, de debate e de práticas de gestão, em Portugal e nos outros países.
Esta será uma das razões por que quem estiver atento aos meios de comunicação social verificará que as habituais posições dos profissionais da economia, da gestão ou de simples empresários, mostram sustentadamente posições contrárias às posições do Partido Socialista e do Governo, pela simples razão de que sabem do que falam. Muitos dedicaram as suas vidas a praticar o que escrevem e que isso esteja em rota de colisão com muitas das posições oficiais, não surpreenderá.
Na actual conjuntura política a excepção seria, poderia ser, o ministro da Economia, que trabalhou muitos anos na direcção de uma empresa. Infelizmente, tratava-se de uma empresa muito direccionada e influenciada por opções políticas e que, por isso, acabou também por ser vendida ao estrangeiro. Nestas coisas, na política como nas empresas, não há milagres e tudo tem uma explicação racional.
Em resumo, há um quarto de século que em Portugal as decisões políticas estão nas mãos e nas cabeças da grande Família Socialista e bastará olhar para o currículo de todos os membros das suas actuais hierarquias para compreender que na sua esmagadora maioria não sabem do que andam a fazer. ■
Política e gestão – ou a ignorância do poder




