Portugal nunca recuperou da bancarrota de 2011 e os portugueses continuam a ser mais pobres do que antes desse evento catastrófico. Os avisos vindos de fora estão aí: os salários vão desvalorizar-se ainda mais. O sucessor de José Sócrates sorri e promete um futuro dourado aos portugueses. Mas a evidência é inegável: Portugal está à beira de se tornar o país mais pobre da União Europeia.

Os últimos prognósticos da Comissão Europeia são politicamente bons para o Governo e razoáveis para as folhas ‘excel’ da propaganda, mas são sem dúvida más notícias para aqueles a quem mais interessam: os portugueses. Enquanto Costa e Centeno festejam a relativa ordem nas contas e o ténue crescimento da economia, o povo na rua não sentirá qualquer efeito destes factores estatisticamente manipuláveis.

Na realidade, longe de se “virar a página da austeridade”, o que se segue agora é mais uma dose de austeridade sobre os rendimentos dos portugueses comuns, que vai acontecer de forma silenciosa. Em 2017 e 2018 está previsto que o aumento do custo dos bens de consumo será mais elevado do que os aumentos salariais. Após vários anos em que a inflação, um velho inimigo dos ordenados dos portugueses que viveram os anos 70 e 80, esteve quase nula, agora deverá regressar em breve.

No total, os aumentos previstos não são muito elevados: 1,3 por cento em 2017 e 1,4 por cento em 2018. Mas os ordenados crescerão apenas 1,2 por cento no mesmo período. O desemprego, por sua vez, vai-se manter elevado, o que poderá anular ainda mais o reduzido efeito que possa ter um aumento milimétrico no salário mínimo. Reduzido a miúdos, os portugueses vão ganhar mais no papel, mas na prática os seus ordenados vão conseguir comprar ainda menos. Quem esperava um regresso à prosperidade de outrora, pode aguardar sentado.

Apesar de o actual Governo querer passar a ideia de que a bancarrota de 2011 já se encontra no espelho retrovisor, os bolsos dos portugueses nunca recuperaram dessa catástrofe nacional. Mas a crise vem de longe. Desde a adopção do Euro que o poder de compra dos portugueses não aumenta verdadeiramente quando se tem em conta a inflação, isto apesar de a população ter visto os números na folha de pagamentos a aumentar.

Segundo dados da OCDE, em 2009 o ordenado médio de um trabalhador português comprava o mesmo que em 2000, apesar de nominalmente ter aumentado quatro mil euros. Desde a bancarrota, no entanto, o poder de compra do povo tem vindo a cair, tendo cada português perdido em média mais de mil euros desde 2010.

Em comparação, um eslovaco nestes 15 anos viu o seu poder de compra real aumentar quatro mil euros, face a um aumento nominal de sete mil euros. Um esloveno, que tinha o mesmo poder de compra de um português em 2000, hoje supera-o em cinco mil euros. Mas não é só no antigo bloco de Leste que os rendimentos reais crescem: os espanhóis, mesmo com dificuldades económicas, ganharam dois mil euros de rendimento real. Em termos de estagnação de poder de compra, apenas nos comparamos aos italianos que, no entanto, têm um nível de poder de compra mais elevado do que o dos portugueses. Os gregos, mesmo a sofrer uma profunda recessão, ainda têm em média ordenados mais elevado do que o dos portugueses. E estes números não têm em conta o facto, já abordado nas páginas deste jornal, de os bens de consumo em vários destes países serem bastante mais baratos.

Infelizmente, a situação não parece ser reversível, pelo menos enquanto Portugal se mantiver no Euro. Face à baixa produtividade e competitividade nacionais, especialmente face aos ressurgentes países do Leste europeu, Portugal necessitaria de desvalorizar a sua moeda. Segundo o “Índice Mundial de Preços”, citado pela Reuters, o Euro neste momento é um caos que “beneficia” a Alemanha em detrimento dos “parceiros da zona euro”. Citando textualmente o relatório: o Euro é “um desastre para países como a Grécia [e Portugal] que foram prejudicados por um Euro demasiado forte para a sua economia anémica”, concluindo os académicos que o outro lado do sucesso comercial da Alemanha é “crescimento lento e desemprego” no resto da Europa.

Portugal, devido à decisão unilateral da classe política de aderir ao Euro, não pode desvalorizar a sua moeda visto ter abdicado desse elemento de soberania. Aumentar a competitividade nacional já segue demasiado tarde. Graças aos erros de 40 anos de má governação, e mesmo com mundos e fundos a virem de Bruxelas, os portugueses têm hoje dos piores níveis de qualificações da Europa, estando já bastante afastados dos povos do antigo Bloco de Leste ou da restante Europa Ocidental. Os preços da electricidade e da água são elevados, os impostos proibitivos e a infra-estrutura comercial inadequada. Face a todas estas dificuldades, a solução restante é desvalorizar o poder de compra dos portugueses.

Algo que o anterior Governo deu sinais de compreender. Num momento de honestidade com a população — pela qual foi crucificado pelos órgãos de comunicação social e pela esquerda — o antigo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmou que “não vale a pena fazer demagogia sobre isto, nós sabemos que só vamos sair desta situação empobrecendo – em termos relativos, em termos absolutos até”.

Algum do optimismo disfarçado da UE face a Portugal encontra-se nesse facto, escondido no meio das tabelas de análise. Espera-se que os custos reais do trabalho desçam 0,9 por cento em 2017 e 1,1 por cento em 2018, algo que torna a economia efectivamente mais competitiva, especialmente para o turismo, mas que torna os portugueses mais pobres em termos relativos. Infelizmente, para além da austeridade, apenas existe mais austeridade, a única diferença é que esta é camuflada e silenciosa.

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