Será sempre lembrado pelos portugueses

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Será cedo para traçar, nos moldes devidos, uma biografia de Joaquim Serrão, assim como uma análise autorizada e cuidada da sua extensa e muito valiosa obra. Nem será essa tarefa que possa caber-me a mim, um dos mais humildes dos seus admiradores, embora um dos mais fiéis dos seus amigos, qualidade da qual nunca abdiquei, mesmo nos momentos mais difíceis, quando, para conservá-la, havia que discordar da opinião dele. E, neste momento, lembrando tempos passados, mas não remotos, durante os quais dele só acumulei gratas manifestações de muito afecto, possivelmente imerecidas, sem qualquer agravo que pudesse turvá-las, privado, há anos, do seu agradável convívio, nas academias e nos almoços semanais, das quartas-feiras, do grupo dos “não vencidos da vida”, na saudade do amigo e na sentida privação do seu trato, pouco saberei dizer. Contudo, receando que se esqueçam definitivamente alguns traços da sua vida e do seu carácter, numa época de desvairamento integral em que, sem temor da verdade e da justiça, se ousa rasgar e arrancar o nome de Portugal das páginas da sua História, receando que nem um autor escrupulosamente sério e rigoroso, como foi Serrão, escape, por omissão, às clamorosas injustiças, alguma coisa direi.

Ouvira o nome dele por ocasião do seu concurso para professor na Faculdade de Letras de Lisboa. Conheci-o algum tempo depois, quando ele foi nomeado Reitor da Universidade de Lisboa e eu dirigia a minha Faculdade. Eram tempos muito turbulentos que se viviam, sobretudo, ao nível do ensino superior, sob governos que não sabiam, não queriam, ou não podiam, definir rumos, nem manter coerência mínima. Essas mesmas circunstâncias me permitiram reconhecer, rapidamente, que o novo Reitor era um homem de bem e de verdade. Aceitara jubilosamente a honra, mas estava firmemente disposto a suportar todos os encargos emergentes. Tendo vivido bastantes anos em França, como leitor de português em Montpellier e, depois, como director da Gulbenkian, em Paris, vivia alheado das pequenas políticas nacionais, mas tivera uma conversa, em viagem ferroviária, em encontro ajustado com Marcello Caetano, que o convidara para Reitor. Isso o impressionara especialmente, porque nunca tivera qualquer ligação ao Estado Novo e a sua formação política era de base esquerdista, embora afastada de fantasias inerentes e bastante atenuada pela experiência que tivera, em Montpellier, onde assistira à revolta estudantil.     

A amizade entre ele e eu, já iniciada com trato anterior, ficou bem firmada, segundo julgo, naquela reunião do Senado Universitário, do dia 26 de Abril de 1974. Não me recordo se faltaram alguns membros daquele Senado, mas ainda apareceram bastantes, ao começo, até que, pouco a pouco, todos se esgueiraram, com desculpas várias, enquanto ia engrossando a multidão de manifestantes, na Praça da Universidade, talvez discretamente controlada pela Polícia, cujo oficial já mantinha diálogo, parecendo amigável, com os mais destacados manifestantes. Ficámos ele e eu. Ele insistindo em que também me fosse embora, eu teimando em continuar, enquanto o meu Reitor não se retirasse. Acabámos por iniciar uma conversa, interrompida por uma chamada do representante do Conselho da Revolução no Ministério da Educação Nacional, a ordenar-nos que abandonássemos a Reitoria, a Faculdade e as funções. Foi então que nos separámos, já com afecto, só voltando a ver-nos dois anos mais tarde, após o meu exílio, onde procurei o pão quotidiano de cada dia, que, na Pátria, me fora negado.

Através de frequente convívio, conheci melhor o homem e comecei a conhecer o historiador. Coincidindo a primeira leitura de algumas das suas obras com a minha regência de “História Diplomática” na Universidade Livre, aí se iniciaram as minhas audácias de incursão no domínio da História, que me levariam para a Academia da História, sob a presidência de Serrão, ao qual mais ligado fiquei. Reli atentamente as suas dissertações universitárias, ainda do tempo em que eram muito exigentes as provas de doutoramento e de concurso, apreciei o grande esforço de investigação que lhe permitira dissertar doutamente sobre o Prior do Crato, mas que estava nas sólidas bases da sua “História de Portugal”, que atingiria os 19 volumes, depois de penetrar profundamente, por vezes quase em pormenor, na análise e no relato do Estado Novo, acerca do qual uma atenta consulta da documentação pertinente, desfez muitos equívocos precipitados. Mesmo privada, já pela doença do autor, do seu previsto remate, a “História de Portugal” de Joa-
quim Serrão constitui exemplo único, entre nós, e não sei se fora de portas, de obra semelhante, sóbria, séria, objectiva, inteira, até porque completa pela bem escolhida bibliografia e pelas notas de pé de página, cuja investigação e cuja exposição couberam a um só homem, através de toda uma vida de trabalho, de amorosa dedicação à sua própria obra e de independência. Naquela “História” destacam-se, pelo nível talvez inexcedível, as páginas dedicadas aos séculos XVI e XVII, possivelmente por reflectirem as investigações universitárias em torno do Prior do Crato.   

A extensíssima e valiosa bibliografia de Serrão, espalhada por numerosos volumes, revistas, jornais e fascículos, merece ser lida pelos estudiosos para julgarem do saber e da capacidade do seu trabalho, extraordinário também pela disponibilidade e pela boa vontade, em relação a quem fizesse apelo ao seu talento e à sua palavra, quer escrita quer oral. Assim, não usava da sua intensa actividade apenas como instrumento do seu proveito, mas também como meio de bem servir. E até para ajudar os outros a bem servirem também. Essas suas atitudes haviam de derivar da solidez da sua fé, não apenas no transcendente mas também no imanente. 

Joaquim Serrão era um sentimental. No melhor sentido, porque acreditava na solidez dos sentimentos. Amava intensamente a sua terra natal, Santarém, onde nasceu e onde morreu, ao ponto de servir-lhe de referência para centro das suas investigações para efeitos de doutoramento, posto que Santarém foi a terra onde o Prior do Crato foi aclamado Rei de Portugal. Havia em Serrão também sempre um particular carinho relativamente aos que tinham sido seus companheiros no Liceu de Santarém. Também dali lhe vinham as intensas lembranças da Mãe, que perdera cedo, mas que, segundo dizia, por sua intervenção milagrosa, ou pelas suas orações piedosas, sempre fora poupado aos maiores perigos que o tinham ameaçado. E quando, entre amigos, se faziam referências a monárquicos, recordava, com muita admiração, o Padrinho, Júlio da Costa Pinto, oficial do Exército que, por monárquico, perdera a carreira e fora um dos heróis, gravemente feridos, recolhidos de Monsanto. Em Portugal, concluiria Serrão, há sempre um padrinho monárquico, ou um padrinho republicano.

Joaquim Veríssimo Serrão, com todo o seu talento e as suas muitas virtudes, tinha feitio difícil, mas naquele seu grande coração cabiam sempre todos os amigos, recebidos com afago e com grandeza. E talvez coubessem os inimigos também. Que repouse na paz do Senhor. ■