Sondagens: essa ilha de incertezas…
Dos poderes que fomos emprestando aos derrotados e da crescente importância com que fomos normalizando que estes sustentassem ou derrubassem governos a seu bel-prazer, lá foram os Açores a nova corrida eleitoral. Bolieiro, recandidato, contra Vasco Cordeiro, ex-presidente do governo regional durante oito anos. Apontava a sondagem para vitória clara do socialista com quase 40% das intenções de voto. No arquipélago, porém, a Páscoa veio tempera e o cordeiro foi servido em lume brando, mais de seis pontos percentuais atrás do rival. Ninguém se responsabilizou, ninguém veio pedir desculpa e, muito menos, justificar o erro. Passou incólume, como passam os resultados de todas as outras sondagens.
Cá pelo bairro, resolvi fazer tantas outras, só pelo gozo. Na zona operária ganha o PCP com larga maioria, ainda que nenhum deles tenha ouvido falar no Paulo Raimundo, na Comunidade Europeia e todos achem que Estaline foi o melhor avançado de todos os tempos da URSS. Metros à frente, no quarteirão das artes, são todos bloquistas, ainda que a maioria deles não estivesse em condições de acertar com a cruz no boletim de voto. Todos, sem excepção, “faziam” a Mariana, seja lá o que isso for, mas que não me pareceu na asserção cristã das aparições. Nas filas dos barbeiros, de onde saíam rapados, o Chega levava confortável vantagem. No distrito financeiro venciam os liberais, mas quase 80% não iria votar porque no fim-de-semana das eleições estaria na casa de campo ou em viagens ao estrangeiro. Aqui e ali os votos iam-se repartindo, mas não me deixaram entrar na cadeia, pelo que os votos nos partidos reinantes são, cá pelo bairro, residuais. Votarão antecipadamente, garantiram-me. Face a resultados tão díspares, quer-me parecer que os inquiridos nas sondagens é pessoal que está em domiciliária e nos gabinetes ministeriais. Os tipos ligam para um Ministério e perguntam: em quem é que o senhor vai votar? Vai daí, publicam os resultados como se aquilo fosse pesquisa científica e lavam as suas mãos. À cautela, vão acertando aquilo semana após semana, como quem lança as conchas ou lê folhas de chá, salvaguardando outras hipóteses.
Conta-me a minha mãe que, há anos largos, um ginecologista com muitos anos de prática, e ainda que as técnicas não fossem muito avançadas, encontrou a fórmula mágica para acertar sempre no sexo do bebé. Dizia aos pais que o rebento ia ser macho e escrevia na ficha da grávida “menina”. Quando confrontado, mostrava a ficha para atestar o acerto da opinião e garantir que a confusão se devia a alterações hormonais…
As sondagens têm, pois, menos credibilidade que as aparições de Fátima, as quais foram vistas, pelo menos, por três jovens. Fosse a fome, as sopas de cavalos ou cogumelos mágicos que tivessem comido pelo caminho (os mesmos que os tipos do bloco, lá no meu bairro), certo é que viram a senhora e falaram com ela por três vezes. A versão tem alguma credibilidade, porquanto todos nós já falamos a determinada altura com uma senhora vestida de branco que nos disse algumas coisas que pouco sentido faziam… Já as sondagens gozam de pouca ou nenhuma! Ninguém conhece alguém que tem um primo que em 1991 foi contactado por uma empresa de sondagens. Na altura em que a maior parte de nós nem de casa saía, o raio do telefone só tocava a meio da tarde para pregar partidas infantis… Sondagens népias! Hoje, há telemóveis, “call centres”, bases de dados, reencaminhamento de chamadas e os únicos tipos que ligam são os gajos da “Vodafone” e da “Endesa” a oferecer pacotes de serviços apelativos. Nas milhares de escutas feitas ao Sócrates, ao Galamba ou ao Pedro Calado não consta uma única chamada das empresas de sondagens. Digam lá que isto não vos cheira a esturro?
Certo é que as empresas de sondagens pululam. Certo é que ninguém as controla ou responsabiliza. E, mais certo ainda, é que não têm qualquer efeito útil, senão condicionar previamente resultados. O dito “voto útil” só tem escoro nas sondagens publicadas. Ou seja, são uma forma, legalmente aceite, de manipular intenções de voto. Ao antever um determinado (possível) resultado, o cidadão indeciso, pode ser levado a votar, não por convicção, mas para evitar a vitória de outro. Como ninguém controla este exercício, os resultados podem ser tão manipulados quanto o objectivo que se pretende alcançar. Basta lembrar que foi pelas sondagens publicadas que Costa obteve a maioria absoluta, que ameaçavam empates técnicos e um crescimento anormal da direita, à pala do Chega…
Três perguntas são pertinentes:
a) Qual o real interesse de saber se a dois meses das eleições o PS tem vantagem de quatro pontos sobre a AD?
b) Quais as consequências dos falhanços das previsões para as próprias empresas?
c) A quem verdadeiramente interessa isto?
A resposta à primeira é fácil: nenhum. Quer pelo tempo que distam da eleição, quer – e sobretudo – pela volatilidade dos acontecimentos políticos. No voto não está em causa a política defendida por um determinado partido. O que está verdadeiramente em causa é a empatia que temos pelos seus líderes, pelo que qualquer acontecimento que dite um assassinato de carácter terá repercussões eleitorais. Basta lembrar que Soares vence Freitas do Amaral, na corrida às presidenciais de 86, pelos acontecimentos na Marinha Grande…
A resposta à segunda é, igualmente, de caras: absolutamente nada. Ao contrário da maior parte dos profissionais que são responsabilizados pelas informações que prestam – alguns deles com repercussões pessoais, profissionais e patrimoniais de monta – as empresas de sondagens e os seus responsáveis, nada têm a temer. Nem um mero período de nojo, que as impeça de perorar nas eleições seguintes.
Os grandes interessados são aqueles que melhor julgam poder manipular as massas, nas teias do obscurantismo. Não têm caras, não têm nomes, apenas o mesmo beneficiário efectivo… É assim há anos e será assim enquanto o permitirmos.
Resultam, porém, algumas estranhezas, difíceis de explicar. A mesma sondagem que dava uma vitória confortável aos socialistas há cerca de uma semana, colocava Montenegro como mais honesto, mais competente, mais capaz do que Pedro Nuno Santos. Ganhava, e por larga maioria, em oito dos nove pontos do questionário, apenas perdendo quanto à experiência governativa (e apenas por um ponto). Assim, a vitória do PS será, uma vez mais, como o milagre de Fátima… Ninguém sabe ao certo explicar como é que aquilo aconteceu…
Entretanto, enquanto aguardamos que o circo acabe, abra-se lá um queijinho das ilhas… ■




