Tirar o socialismo do poder

Tirar o socialismo do poder

Não é tarefa fácil tirar o socialismo do poder, mas surgiu uma janela de oportunidade e esperança quando o primeiro-ministro (PM) António Costa se demitiu “por indecente e má figura”, tentando saltar fora, mas ficar dentro por interposta pessoa. Marcelo, como tinha prometido no acto de posse do PM, aceitou a demissão, dissolveu o Parlamento e convocou eleições antecipadas, infelizmente ao retardador.
O saudoso Professor Martinez dizia neste jornal que era assim em todas as revoluções: dá-se ou promete-se tudo o que se pode e o que não se pode para obter apoio para a causa e depois não há dinheiro, tira-se. O golpe militar corporativo evoluiu rapidamente para o “processo revolucionário em curso” (PREC), que provocou um grande atraso ao país, parcialmente vencido em 25 de Novembro, mas que deixou a imposição constitucional do “caminho para o socialismo”, que marcou, para o bem e para o mal, meio século da vida dos portugueses.
É escusado tentar culpar o Estado Novo por estarmos a crescer poucochinho, até porque quando o golpe militar o derrubou estávamos a crescer, sem ajudas externas e suportando uma guerra em três frentes, a um ritmo que ainda não conseguimos alcançar em democracia, apesar dos muitos milhares de milhões aqui despejados a fundo perdido. Nesse período aproximámo-nos economicamente da Europa.
Gastámos os primeiros dez anos a tentar recuperar do PREC e a construir uma espécie de democracia, demasiado partidarizada que ainda não conseguiu mais que uma “democracia com falhas”, considerada internacionalmente de tipo “eleitoralista” onde, valha a verdade, o socialista Mário Soares teve papel preponderante, afastando a extrema-esquerda do poder, mas ainda teve que gerir duas bancarrotas.
Depois, a AD, dirigida por Sá Carneiro e mais tarde Cavaco Silva, mostrou que havia outro caminho, que teve apoio maioritário dos eleitores e proporcionou o único período da era democrática de verdadeira aproximação económica à Europa rica.
Mas os socialistas voltaram ao poder 20 dos últimos 27 anos em que o país praticamente estagnou economicamente e no período restante a chamada “direita” gastou quatro a tentar recuperar do buracão (terceira bancarrota) em que Sócrates nos colocou e, apesar disso, ainda é considerado o mais reformista dos socialistas.
Os últimos oito anos de António Costa foram desastrosos, apoiados pela extrema-esquerda ou com maioria absoluta, dedicados a manter o poder pelo poder, “esquecendo-se” de governar para o bem comum. A Administração Pública está um caos, na Saúde, Educação, Habitação, Justiça e até na segurança interna e defesa nacional, numa altura de grande instabilidade geopolítica e ameaça de guerra como não se via há mais de setenta anos.
Quase meio século de socialismo estatizante levaram-nos a isto. Basta. A sociedade civil, anestesiada e acomodada, precisa de se libertar dum Estado tentacular que quer intervir em tudo, colonizado e controlado por uma classe política socialista extractiva, conluiada com o poder económico do sistema.
Mudar é possível e urgente. Na pré-campanha eleitoral em curso, curtos debates a dois seguidos de longos comentários, por vezes tendenciosos, pouco esclarecedores. Não se discutem as propostas, mas os cenários pós-eleitorais.
A AD é a aposta certa para a mudança. Algumas vozes sugerindo viabilizar um governo PS, em certas condições em nome do interesse nacional, causam preocupação. Pelo que acima se refere, esse não será certamente o interesse nacional.
Montenegro não terá o meu voto se não afirmar claramente que não viabilizará um governo PS, até porque este não o fará, como não fez no passado e devia. Nesse caso resta-me a abstenção, uma vez que o voto em branco estranhamente não tem qualquer valor em democracia. É uma entorse colocá-lo ao nível do voto nulo ou abstenção. O que não posso aceitar é que o meu voto contribua para a continuação do desastre, para mim evidente.
PS (salvo seja): Compreendo a contestação aos “subsídios de risco” atribuídos à PJ. Entendo que, simplesmente, não devem existir. A tabela de vencimentos deve, entre outros, contemplar esse factor. Confunde-se subsídio de risco com incentivos. Lembro-me que esta polémica existiu no Governo do Engenheiro Guterres e logo circulou um abaixo-assinado dos profissionais da Saúde dizendo que então também queriam. Esta profissão tem riscos diários de saúde e de vida, sobretudo infecciosos. Não quero com isto dizer que estejam bem pagos, bem pelo contrário. É apenas uma questão de princípio.

O último debate
A pré-campanha não estava a correr bem a Pedro Nuno Santos (PNS), novo secretário-geral do PS. O resultado das eleições regionais nos Açores foi um rude golpe e estava perdendo os debates na TV, embora a Comunicação Social do Sistema (CSS) diga o contrário, e as sondagens têm sido contraditórias. Por exemplo, numa delas pedia-se que classificassem os dois principais candidatos a primeiro-ministro segundo certos parâmetros, nomeadamente honestidade, competência, confiabilidade, capacidade de resolver problemas ou formar governo com ministros competentes e Montenegro ganhava folgado em todos os parâmeros, mas depois perdia pela vantagem mínima para PNS como o mais bem preparado para ser primeiro-ministro. E todos nos lembramos que nem para ministro serviu, tendo-se demitido com as trapalhadas da TAP.
Era, pois, importante para PNS tentar ganhar o debate televisivo com Montenegro. A máquina partidária e de imagem do PS vestiu-lhe um novo fato de manequim da rua dos Fanqueiros, outra agressividade de luta pela conquista do voto dos indecisos e não debate de ideias sobre os diferentes temas políticos. Pareceu-me um empate técnico.
Seguiram-se os comentários no canal onde estava sintonizado. A maioria dá a vitória a PNS. Um comparou o debate a um “jogo de futebol” e outro, de nome Costa, salvo erro, disse mesmo que fosse qual fosse a evolução do debate daria sempre um ponto a mais a PNS, porque logo na primeira pergunta/jogada tinha marcado “golo”, salvo seja.
De facto, acabei por ver a analogia. Na primeira jogada o árbitro marcou um livre e, em jogada estudada como acontece no futebol, PNS marcou um golo de belo efeito. O resto do jogo foi muito táctico, jogado a meio-campo procurando não cometer erros graves de ambos os lados. No final do jogo ambos atacaram melhor ou pior.
Antes tinha ouvido na rádio alguém, que tinha ajudado a preparar o debate ao milímetro, dizer que, apesar disso, não sabia qual a primeira pergunta que tinha sido preparada. Mas eis que parte de uma manifestação da polícia, autorizada para o Terreiro do Paço, resolveu “assaltar” o Capitólio (local do debate), qual Trump nos Estados Unidos ou Bolsonaro no Brasil. E essa foi a matéria da primeira pergunta. Montenegro disse que não se tinha sentido incomodado ou condicionado e que trataria do assunto logo que fosse primeiro-ministro. PNS, pelo contrário, achou, e bem, que tinha havido um grave atropelo à ordem pública e aproveitou para cavalgar a defesa da “ordem pública”, que, como se sabe, é uma das bandeiras da chamada direita, e marcou um golo de belo efeito.
O resto do jogo foi de ataques e defesas tentando não correr riscos e o árbitro, em vez de deixar jogar, isto é, permitir que cada um explicasse a sua jogada em cada tema, pelo contrário, interrompia, alegando que o tempo para aquele tema tinha expirado. Não creio que tenha ajudado os indecisos a decidir. No fim o jogo acelerou com os cortes de Passos Coelho aos reformados (um dos nichos do mercado eleitoral do PS). De nada serviu a Montenegro provar que tinha sido Sócrates a iniciar os cortes e que foi a bancarrota deste que obrigou aos cortes de 600 milhões nas pensões mais elevadas. Mais tarde, o Governo de Costa, de que PNS fazia parte, tentou cortar ardilosamente 1.000 milhões nas pensões futuras. PNS afirmou, é verdade, que os reformados sabem que afinal não tinham sofrido cortes. Faltou o “var” rever a jogada e permitir mostrar que não tinha havido os cortes porque o público se apercebeu do “golpe Costa” e este foi obrigado a emendar a mão para não perder este eleitorado que acha seu. O “árbitro” também não esteve bem.
Foi assim que acabei vendo este jogo ou grande debate, se quiserem. ■

 

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