Truques e artimanhas – Manual de campanha

Claudio Fonseca
Claudio Fonseca
Consultor político e podcaster no Podcast Conversa

Como criar uma boa campanha eleitoral

Baseando-se na sua própria experiência como organizador e conselheiro político, o nosso colaborador Cláudio Fonseca veste a pele de um director de campanha eleitoral e deixa aqui os seus conselhos, não isentos de uma saudável ironia…

Dizem os órgãos de comunicação social que na próxima semana é que começa a campanha eleitoral, como se os portugueses não estivessem já em pré-aviso de eleições. Mas se os jornalistas ficam felizes por serem eles a dar o tiro de partido, por mim está tudo bem, levem a medalhinha de participação.
Qual é a definição de “uma boa campanha eleitoral”? É uma campanha que cumpriu objectivos? Que os superou? Que foi divertida e marcante? Qual é a definição? Para mim, uma boa campanha é aquela que cumpriu os resultados propostos, tudo o resto é bónus.
Uma campanha eleitoral tem custos e a gestão tem de ser feita com mão de ferro: dinheiro da campanha é da campanha, não é para pagar gelados aos filhos dos amigos do candidato. Tudo o que não está orçamentado não existe, só com orçamento, que é para não acontecer com as campanhas o que o PS faz, onde o derrape financeiro é garantido. Reparem, se uma campanha não sabe gerir o seu próprio dinheiro, que varia entre 500 mil euros a 2 milhões de euros, como vai gerir esta malta o país? Sempre em défice? Não! Pois o exemplo começa por dentro.
É importante definir qual é a eleição a que nos propomos, pois as eleições não são todas iguais e não têm os mesmos propósitos, e nem todos os partidos podem verdadeiramente tirar resultados. Quando estamos no cenário de eleições legislativas nos distritos do interior, o rácio de distribuição de mandatos só vai dar para dois partidos terem deputados, com alguma sorte uma terceira força política quando vamos a sul. Mas nos círculos fora de Portugal Continental e Ilhas, só um partido faz o pleno ou os deputados são distribuídos em número igual por apenas dois partidos.
Tracemos, então, o cenário para as Eleições Legislativas 2024. Nesta introdução importa dizermos o que temos de base e objectivos. Temos 2 milhões em dinheiro para gastar com a campanha. O nosso objectivo é ganhar as eleições.

Assim, importa definir a nossa estratégia em vários pontos:

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A escolha dos cabeças de lista é essencial. Queremos ter o partido connosco? Ou só vamos premiar aqueles que estiveram em campanha connosco? Este ponto é mesmo importante, pois não queremos estar em campanha com contratorpedeiros a fazerem campanha contra nós; por mais estranho que seja, há sempre quem faça mal ao seu partido só para que as pessoas da lista que venceu a liderança do partido não tenham acesso ao poder, isso acontece hoje em dia com o PSD e Iniciativa Liberal, tal como no passado aconteceu com o PSD e com o CDS-PP (só assim se justifica que tenha desaparecido do Parlamento).
Então, como cada voto conta e cada bala é necessária, pois o Método d’Hondt por vezes castiga, vamos falar com a nossa oposição para nos dar alguns nomes para vincular, tentar unificar ao máximo. Mas os cabeças de lista vão ter de trabalhar, sim, vão ter de trabalhar muito e vão ter de dar o seu conhecimento.
Alguns dos cabeças de lista vão ser ministros, então temos que pôr na estrada os nossos maiores especialistas a falarem sobre as várias temáticas. É fazer pequenas conferências que vão sobretudo dar formação aos militantes de base, para estes espalharem as ideias e propostas concretas; eles vão ser os nossos repetidores de sinal em todo o lado: empresas, grupos de amigos, redes sociais, transportes, tudo!
Os cabeças de lista vão ter de ir a todas as rádios locais, dar uma grande entrevista aos jornais regionais e municipais, “podcasts” que tenham uma dimensão igualmente local, e ir vários cabeças de lista a vários “podcasts” de âmbito nacional; o que interessa é passar uma mensagem clara e terem um guia de resposta a várias perguntas previsíveis.

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O futuro é dos jovens! Temos uma juventude partidária, então vamos usar esses jovens no activo e não apenas para ficarem sentados como pano de fundo quando o supremo líder discursar. Estes jovens têm a energia necessária para se percorrer mais e melhor cada canto, então vão estar connosco na caravana. Mas vamos filtrar: queremos jovens que sejam capazes de nos acompanhar, que não nos criem problemas e que percebam a seriedade do momento. Já antes expulsei jovens de campanhas porque criavam problemas com outras caravanas partidárias, ou porque não sabiam estar; amigos, não vos queremos. Vamos potencializar aqueles que estão connosco, podemos durante a campanha estar a criar os próximos “grandes quadros” partidários. Vamos fazer com que estes jovens participem, mas, sobretudo, que tenham a real sensação de que estão a ser ouvidos, isso é o que eles querem e o que os motiva. Incluir e potenciar os jovens.

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Bons brindes. Ah! Sim, os brindes! Quantas não são as pessoas que coleccionam lápis e canetas? Quantos não são os professores universitários que nos fazem assinar a folha de presença na faculdade com as suas canetas ideológicas? Já tive professores a fazerem-me assinar a presença com uma caneta azul e branca do CDS-PP e vermelha e branca do PS. Os brindes têm de ser úteis! Um panfleto ninguém quer verdadeiramente, é do dinheiro mais malgasto. A esperança média de vida de um panfleto é até a pessoa encontrar um caixote do lixo. Façam brindes que as pessoas usem e de que gostem. Numa visita a um mercado municipal não dá jeito aos comerciantes receberem um bloco e uma caneta? Muito, então com o nosso partido impresso em todos as páginas, melhor. Quem se lembra dos baralhos de cartas da campanha de José Sócrates?! Ainda hoje conheço quem jogue com eles e diga: corta esta, Salgado! Ou: toma lá este, Magalhães! Há quem queira “t-shirts”, muito bem! Então essa pessoa vai vestir a “t-shirt” connosco e vai distribuir, no fim fica com a camisola. As crianças gostam de bandeirinhas e de balões, vamos dar para agitarem. É a táctica “Coca-Cola”, esta empresa não vende verdadeiramente bebida, vende momentos de felicidade, essa é a ideia, então vamos ligar a nossa ideia política a uma ideia de felicidade, de futuro risonho, foi isso que se fez com a impressão de camisolas de Che Guevara, banalizou-se e até se achou piada a um ditador sanguinário, mas que aos dias de hoje ainda é “cool”.

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Arruadas com ele! O candidato tem de se desfazer em arruadas. Em média, um candidato ao fim de uma campanha eleitoral engorda entre 10 a 15 kg, porque tem os almoços-comícios e jantares-comícios todos os dias. Isso é algo que desgasta imenso, mas que contribui para um inchar gradual. Assim fica mais um motivo para se fazerem arruadas e passeios junto da comunidade; as arruadas são o momento oportuno para que as pessoas não partidárias estejam em contacto com os políticos, em que possam sempre dizer o que as preocupa e o que gostavam que fosse alterado. Deixem estas pessoas falar, há tempo para ouvir, não tenham pressa de ir para os jantares-comícios, isso é falar para convertidos, esses já têm o seu voto garantido, temos de garantir os outros, para que essas pessoas digam: “ele ouviu-me”. Esta é uma excelente forma de criar compromisso, como Marcelo Rebelo de Sousa o faz muito bem: “daqui a um ano venho cá para vermos o que mudou”, e damos a essa pessoa um dos nossos blocos de notas; no futuro, como ganhámos as eleições, vamos ouvir aquelas pessoas e as suas listas no bloco de notas e levamos o Presidente de Câmara e de Junta, não importa se são das nossas cores, se forem do oposto melhor ainda, e vamos lá fazer também trabalho autárquico. Isto é do que eu mais gosto e aprendi com os franceses: reciclar eleições.
Portanto, os políticos têm de andar nas ruas, nos transportes, mostrar que são do povo, só assim ganham o respeito do povo. Quem disse que a campanha eleitoral são apenas duas semanas? Ninguém! A campanha eleitoral deve demorar aquilo que os candidatos acharem que precisam para visitar as terras como deve ser. E aquilo que o líder partidário não faz tem de ser feito pelo cabeça de lista local, ele é o embaixador naquele momento. Outro ponto importante é alimentar as hostes, então estrategicamente, com as objectivas a apontarem para nós a ouvirmos o comerciante, vamos comprar uns artigos, comida ainda é melhor porque podemos distribuir pela caravana, alimentar os espíritos e dar alento. Tudo isto tem de ser executado com as concelhias partidárias e com as distritais/federações que melhor conhecem os terrenos.

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Ser amigo dos jornalistas. Todos sabem o quanto eu desprezo os jornalistas, porque não fazem um bom trabalho e são preguiçosos. Mas na campanha eleitoral temos de tratá-los bem, porque é visível quando um jornalista está contrariado a fazer reportagem ou quando até se diverte. Por isso, é importante tratar bem os jornalistas, pagar um café de tempos a tempos, outro mimo, que fica sempre bem e alegra o espírito. Pensem o chato que é, malta que só está habituada a trabalho de escritório e no ar condicionado, de repente, ter de ir para arruadas. Aiii! Que horror! Então vamos dando algumas dicas e exclusivos, que é disso que eles querem, ou permitir momentos de reportagens específicos, como se fosse uma mini-série, quanto melhor lhes dermos conteúdos mais vão gostar e vão ter de ser mais simpáticos quando passam a mensagem; é assim que funcionam, é assim que os tratamos. Fazer um “briefing” do dia, logo pela manhã, mas também ao final do dia, antes mesmo do encerramento do dia no jantar-comício.

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Nem 8 nem 800. Não importa ter um programa infindável e depois não sermos capazes de o explicar, nem tão pouco vamos debitar as coisas todas. Não vamos ser frugais como o Chega, que tinha apenas nove páginas de programa, mas também não vamos ser faustosos como a Iniciativa Liberal, com um manual de mais de 600 páginas. Podemos querer doutrinar as nossas bases, é verdade, mas não vamos fazer o mesmo com o cidadão-comum. Vamos escolher seis ideias-chave, que vão marcar a campanha; esqueçam o clássico: aumentar salários e baixar impostos. Fazer promessas reais e reformas que realmente vão melhorar Portugal como um todo e mostrar que todos, fazendo um esforço, vamos ter um país melhor e não ser como é actualmente. Por exemplo: anda um país inteiro a suportar passes grátis ou preço reduzido dos que estão em Lisboa e no Porto, isso não é justo.

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“Slogan” forte e que fique na cabeça; não vamos outra vez a frases feitas, ou repetidas do passado, vamos inovar! Assim como vamos inovar nas canções de campanha e nos cânticos. Porque é disso que as pessoas também se vão lembrar, e que vai passar nos programas de supostos comediantes que sacam piadas enlatadas e combinadas.

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Tudo é campanha e as actualizações têm de estar a acontecer ao minuto, o candidato dorme durante as viagens, para descansar; e quando acorda tem de ter tudo resumido e saber tudo o que está a acontecer nas outras campanhas, tem de haver uma equipa a monitorizar tudo o que é dito sobre a campanha, para irmos afinando, claro, porque imprevistos acontecem e, por mais delineado que tenhamos tudo, nunca se sabe o que acontece numa feira, num encontro com trabalhadores, com empresários, tudo são pessoas e, como tal, tudo é imprevisível.

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As redes sociais e as sms automáticas. As redes sociais aproximam-nos da realidade e permitem alcançar uma rua que não alcançámos, então é importante produzir conteúdo por esta via, partilhando ideias-chave e momentos da campanha. Importa criar conteúdos específicos para as redes sociais. Criar um conteúdo de conexão directa com o eleitorado, criar exemplos práticos do dia-a-dia e pedir para quem está a assistir que se junte à causa. O partido deve igualmente, tendo por base as bases de dados existentes, enviar mensagens diárias aos militantes sobre actividades e pontos da caravana e um apelo diário à mobilização, com um slogan que desperte esse mesmo interesse.
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São 9 pontos que definem aquilo que deve ser um esqueleto de uma boa campanha. Outros analistas terão as suas, mas com estes pontos já ganhei campanhas. Volto a dizer: o Director de campanha tem de ser mão-de-ferro e dizer que um serviço contratado tem de ser entregue, porque se o serviço não foi entregue como proposto, então depois não há lugar a reclamações. E na altura do campeonato em que estamos, as acções já foram tomadas.
Caso para dizer: “alea jacta est”. ■

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