A irrelevância em debate

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Termino aqui a minha contribuição para o esclarecimento possível, neste tempo de campanha eleitoral, tendo usado os factos e os dados retirados do livro recentemente publicado “Porquê o País do Salário de Mil Euros?”, dos professores Luís Valadares Tavares e João César das Neves, que expressam a realidade e não meras opiniões ou simpatias. Infelizmente, opiniões e simpatias é o que temos em excesso dos líderes partidários e dos comentadores nos diversos canais das televisões e o resultado é uma peixeirada do tipo a que assisti no debate entre Pedro Nuno Santos e o líder do Chega. Falavam os dois ao mesmo tempo e nenhum deles teve a inteligência de se calar quando interrompido, porque sendo os tempos cronometrados poderia, no final, exigir o tempo devido. Mas não, a peixeirada é o que motiva os participantes e não a correcta informação a dar aos portugueses.
Desde a fundação do Chega que decidi não escrever ou debater sobre o novo partido, ou acerca do seu líder, porque desde cedo percebi demasiado bem que a promoção do Chega interessava a muita gente e desde logo ao PS que, para se poder manter no poder com o PCP e o Bloco de Esquerda, precisaria do crescimento do Chega para eventualmente superar em votos o PSD. Por outro lado, o fenómeno do Chega já é suficientemente conhecido na Europa e nos Estados Unidos como inimigos da democracia, como aliás o Bloco de Esquerda, mas isso é outra história.
O mais chocante facto que resulta dos debates é a ausência de tratamento dos grandes problemas nacionais, nomeadamente na economia, porque todas as promessas feitas nunca serão realidade sem um crescimento económico superior ao previsto, no mínimo na casa dos 4%, como aconteceu nas fases da EFTA e do Pedip/“Autoeuropa”. Para isso é preciso investimento em grandes empresas industriais destinadas à exportação, nomeadamente investimento estrangeiro, empresas com melhores salários e melhor formação dos trabalhadores.
É espantoso que nenhum dos líderes partidários tenha descoberto que o actual modelo económico, formado em 90 % por muito pequenas empresas, em grande parte comerciais, praticamente todas no mercado interno, que morrem e nascem aos milhares todos os anos, com baixa produtividade e baixos salários, é um modelo insustentável. Que nenhum dos líderes tenha falado deste bloqueio económico mostra até que ponto vai a sua impreparação para, no Governo ou na Assembleia da República, contribuírem para o crescimento da economia, praticamente parada há um quarto de século e ultrapassada por todos os países da antiga “Cortina de Ferro”.
Igualmente ninguém tratou da questão da ilha ferroviária em que o PS e Pedro Nuno Santos transformaram Portugal, nem sobre os milhares de milhões de euros de fundos europeus que estamos a perder por não participarmos no projecto de Bruxelas do Corredor Atlântico, que entraria em Portugal no Norte em direcção a Aveiro, depois rumaria a Lisboa e voltaria a sair para Espanha no Sul, em Badajoz. Uma linha de via dupla de alta velocidade para passageiros e mercadorias que colocaria o porto de Sines em melhor posição de poder concorrer com Algeciras. Que nenhum dos líderes tenha descoberto que esse investimento resultaria na União Europeia contribuir com 70% do custo da obra, a qual representaria mais de metade da linha Lisboa/Porto, que o PS quer construir em bitola ibérica e através de parcerias público-privadas a serem pagas pelo Orçamento do Estado. Só por si, esta questão da ferrovia mostra até que ponto estes líderes partidários não estão preparados para retirar Portugal do atoleiro onde o PS nos meteu.
Igualmente, nenhum destes líderes partidários aparenta saber que na indústria moderna as grandes empresas já não são produtoras, mas apenas montadoras, isto é, procuram para se instalar locais em que existam portos e ferrovias para que possam receber os componentes e serviços de que precisam ao menor custo e possam enviar os seus produtos para todo o mundo por via marítima, mas também terreste e o futuro é a ferrovia, por razões ambientais e de custo. Como aparentemente também não sabem que Portugal é uma das melhores localizações, entre os dois maiores mercados mundiais, Europa e Norte América, que possui um dos melhores portos do mundo para o efeito, localizado no centro das rotas do Atlântico, mas que sem uma ferrovia competitiva para o centro da Europa, perde para Espanha, que possui hoje uma das melhores redes ferroviárias.
Também não sabem que se hoje temos a “AutoEuropa” é porque existiu o então ministro Mira Amaral, que sabia tudo isto e assumiu a decisão de ir à Europa explicá-lo à “Volkswagen”. Mas não só, trouxe para Portugal fornecedores de componentes, criou o PEDIP que financiou muitas das novas empresas portuguesas fornecedoras do sector automóvel, não apenas para Palmela, mas para todo o mundo. As exportações portuguesas dessas empresas então criadas exportam hoje, anualmente, cerca de 13 mil milhões de euros. Mas não só, a equipa de Mira Amaral criou a rede da então nova energia, o gás, encontrou dois fornecedores alternativos, criou os centros tecnológicos que contribuíram para a modernização de vários sectores da indústria, como o calçado e a cerâmica, e trouxe a Portugal o então divulgador dos “clusters” que ajudou muitos empresários portugueses, entre os quais me incluo, a melhorar a sua visão estratégica.
Infelizmente, os líderes partidários que debatem nas televisões o futuro de Portugal não sabem, ou não valorizam, nada disto e preferem falar de tudo, o que, sendo tudo, resulta invariavelmente em nada. No que são bem acompanhados por vários comentadores televisivos, em que também poucos sabem do que falam. Trata-se do mesmo fenómeno do famoso PRR, que dividindo os milhões recebidos da UE para satisfazer todas as clientelas, resulta em muito pouco para uma estratégia mínima para o desenvolvimento da economia portuguesa. Razão por que publiquei um plano alternativo que destinava à educação (creches e pré-escolar) e ao investimento na indústria todo o dinheiro.
Tenho muitas dúvidas sobre o resultado das próximas eleições e parto apenas com duas convicções: (1) que os vinte anos de Governos socialistas conduziram Portugal para uma das piores crises de ausência de futuro da nossa história democrática; (2) que, no actual contexto, o PSD e o CDS são os dois partidos com a menos má cultura económica e empresarial, os partidos com mais quadros capazes de fazer crescer a economia estagnada há mais de vinte anos, sem o que continuaremos o caminho da pobreza e da irrelevância.
Nota: Talvez seja relevante recordar que o debate entre os líderes do PS e da AD foi feito com uma revolta de polícias às portas do Capitólio, resultado de um fim de legislatura sem lei e sem ordem. Mais, terminado o debate, os dois líderes saíram pela porta lateral e talvez valha a pena pensar o que faria Mário Soares em idênticas circunstâncias. ■

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