Há precisamente um ano, em 30 de Agosto de 2022, Marta Temido apresentou a sua demissão, por entender que deixou de ter condições para se manter no cargo. A saída da responsável política pela má gestão da pandemia abriu uma porta de esperança para a mudança. Na verdade, a decisão recorrente de canalizar todos os recursos para tratar doentes Covid, descorando todos os outros doentes, levou a um aumento das listas de espera para consultas e para cirurgia para valores nunca antes vistos e, pela primeira vez em vinte anos, a esperança média de vida dos portugueses diminuiu.
O novo e aguardado ministro tomou posse num clima de grandes e fundadas esperanças. Era difícil fazer pior.
Mas após os primeiros tempos de estado de graça, o Ministério da Saúde pouco mais fez do que criar a Direcção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (e esta sem estatutos, quase um ano após a sua formação). Um ano volvido, nenhuma alteração verdadeiramente estrutural foi levada a cabo. Nenhum problema foi resolvido. O acesso aos cuidados de saúde não melhorou. As listas de espera não diminuíram. A qualidade dos centros de saúde e dos hospitais não melhorou. O problema das urgências continua…
Mas, mais grave, numa atitude normal para este Governo, quando não se consegue resolver um problema, arranja-se um bode expiatório; e o pessoal de saúde é continuamente destratado, desconsiderado e desprezado:
– Os meses de negociação sucedem-se, sem que haja nenhum sinal de boa vontade por parte do Ministério. No entanto, os médicos do SNS são o grupo profissional português que viu a maior erosão dos seus rendimentos, com uma brutal perda do poder de compra nos últimos anos e uma diferença cada vez maior para os seus colegas europeus.
– A meio desta negociação, a notícia da contratação de médicos cubanos, com ordenados muito superiores aos que são pagos aos médicos portugueses, e sem o domínio da língua e da cultura portugueses para que possam assegurar o mesmo nível de cuidados de saúde.
– Outra medida inacreditável é o pagamento de honorários em função das altas clínicas, em vez de avaliar o desempenho médico pelo bem-estar do doente e pelos resultados em saúde, imiscuindo assim uma medida de cariz mercantilista num dos processos mais delicados da medicina;
– A pressão para que os médicos façam horas extraordinárias para além das 150 horas aumenta. Cento e cinquenta horas é tanto quanto se trabalha em um mês nos dias normais e no horário normal de trabalho. Como é possível trabalhar mais de 150 horas extraordinárias, e ainda mais, e manter tempo para estudo, formação, actualização, descanso, repouso e recuperação, para poder depois exercer medicina de qualidade e evitar erros médicos?
– As greves sucedem-se, com taxas de adesão que são verdadeiramente esmagadoras, com a preocupação sempre presente de assegurar os serviços mínimos, mas com um prejuízo que é sempre sentido pelos mesmos: os que não podem pagar a medicina privada e que vêem as consultas e as cirurgias que tinham marcadas, e pelas quais esperaram meses, serem adiadas.
– Assistimos à primeira greve nacional dos médicos internos. Os médicos internos são aqueles que iniciaram a sua formação após a conclusão dos seus estudos universitários. São aqueles que asseguram uma grande parte da rotina dos serviços médicos nos Centros de Saúde e nos hospitais: a avaliação diária dos doentes, o pedido e a análise dos exames auxiliares de diagnóstico, a orientação terapêutica. Mas, mais que tudo isto, são aqueles que têm uma óptima formação universitária e são assediados para irem trabalhar noutros países.
O que queremos? Qual é a orientação na Saúde? A sangria de médicos para o sistema privado é uma realidade há anos. Vamos assistir em seguida, impávidos e serenos, à fuga de jovens médicos para o estrangeiro? ■
Um triste ano sem Temido




