A mediocridade previsível

“Os portugueses estão hoje, como muitas vezes no seu passado, a ser puxados para a irrelevância e para a mediocridade. E por mais que queira, não vejo à minha volta a energia necessária para a mudança e para a construção do futuro”

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

O centenário Henry Kissinger acaba de publicar um livro “Liderança”, que aconselho vivamente a lerem, onde surge um conjunto de perguntas simples, de que destaco a seguinte: “E, em última análise, a sociedade em questão terá vitalidade e confiança bastantes para tolerar sacrifícios como etapa para um futuro melhor?”.
A resposta a esta pergunta é essencial para os governantes do nosso tempo ajustarem as suas decisões e as suas políticas com vista ao futuro. Por exemplo: será o povo ucraniano capaz de resistir à tragédia da agressão russa, à morte diária no campo de batalha e nas cidades de muitos ucranianos, como uma necessidade desse mesmo povo de construir um futuro mais feliz, mais democrático e mais livre? Ou, pelo contrário, deverá negociar, perder parte ou a totalidade do seu território, comprometer, porventura por muitos anos, a sua liberdade e sobreviver sem glória sob o jugo russo?
Não sou suficientemente sábio e não conheço suficientemente a Ucrânia e o povo ucraniano para assumir a responsabilidade de responder a esta pergunta. Todavia, até agora e ao longo de mais de um ano, o povo e os dirigentes da Ucrânia têm respondido de forma positiva e heróica, dia após dia, hora após hora, olhando de frente a morte ao seu redor. O mesmo se pode perguntar aos povos e aos dirigentes do Ocidente, terão os povos da Europa, das Américas, como outros, a visão e a “endurance” de sustentarem uma guerra que é também parte da nossa sobrevivência como povos livres e democráticos?
Apenas a história responderá a todas estas questões e até lá cada de um de nós responderá à sua maneira, mas sem deixar de pensar que ao fazê-lo está a colocar o seu nome na história do nosso tempo. Estamos a apoiar a heroicidade do povo ucraniano ou a promover a sua derrota, a ajudar à sua resistência ou a facilitar o avanço russo? São estas as questões com que hoje somos confrontados sem escapadela possível.
Mas não só. Como portugueses, a viver um período triste da nossa história recente e a ficar no pelotão traseiro da União Europeia, teremos como povo a vitalidade e a confiança bastantes para defender a democracia e iniciar uma nova fase de desenvolvimento e de afirmação nacional?
Não pretendo enganar ninguém dando a resposta que gostaria de dar e a história portuguesa recente também não ajuda. Vivemos como povo quase meio século em ditadura, na esmagadora maioria conformados com a nossa grandeza passada e com a mediocridade previsível do nosso futuro. Não satisfeitos, iniciámos, em 25 de Abril de 1974, outro meio século a estragar o pouco de bom que tinha sido feito antes e a descurar o muito de bom que tínhamos pela frente e, pouco a pouco, estarmos a empalidecer o nosso futuro que, se deixarmos, será cada vez menos democrático e mais medíocre.
Sabemos todos que no século XV, graças a uma ilustre geração de dirigentes, soubemos sair dos campos e da irrelevância para afrontar os mares e dar novos mundos ao mundo. É verdade, mas uma verdade de pouca dura, porque rapidamente fomos conquistados pelos holofotes da fama de Roma e pela corrupção que, como doença má, nos levou ao ouro do Brasil. Pouco mais fizemos e o fogacho da visão desenvolvimentista do Marquês de Pombal foi rapidamente submerso pela beatice e pelo contentamento de dirigentes tão incapazes como ignorantes.
É verdade que, tal como hoje, sempre tivemos homens ilustres, sábios empreendedores e políticos corajosos, faz parte da nossa história. Mas será que depois de 1383 mais alguma vez o povo miúdo saiu à rua disposto a morrer por Portugal? Será que hoje estamos mais decididos e preocupados com o futuro dos nossos filhos e netos e com o país que eles se apressam a abandonar? Será que temos a plena consciência do que se passa quanto somos enganados pelas modernas máquinas de propaganda e pelas prometidas bem-aventuranças conquistadas sem esforço e sem trabalho?
Não pretendo ser o Velho do Restelo do século XXI, nem me está no sangue a acomodação e a desistência, mas reconheço a realidade e a verdade quando a encontro. Os portugueses estão hoje, como muitas vezes no seu passado, a ser puxados para a irrelevância e para a mediocridade. E por mais que queira, talvez os anos sejam os culpados, não vejo à minha volta a energia necessária para a mudança e para a construção do futuro.
O conformismo domina hoje o panorama humano da nossa sociedade e os políticos do nosso tempo mostram ser suficientemente perspicazes para alimentarem com subsídios os mais fracos e com mordomias os mais corruptos, em sentido literal, mas também no pensamento muito popular da Maria que vai com as outras. Muitas universidades, empresas e instituições relevantes da sociedade parece terem desistido das suas próprias ideias e dos seus valores para serem oportunistas colaborantes do fecho das fronteiras portuguesas à modernidade e ao progresso, aquele progresso que é feito de esforço e de trabalho.
Peço desculpa aos leitores de estar hoje num mau dia. É que um general na televisão, o beijo de um espanhol mais ou menos irrelevante, uma lei imbecil de “mais habitação”, a potencial tolerância da União Europeia com a bitola ibérica, as rábulas de vários advogados sobre a violência da Justiça exercida sobre os corruptos e a mudança de vida do juiz Carlos Alexandre deixaram-me hoje particularmente maldisposto. ■

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