Governo Venezuelano forçado a negociar

Augusto Santos Silva apostou no trabalho diplomático para desdramatizar a crise nas relações com a Venezuela. Nem outro poderia ser o caminho, atendendo à enorme comunidade portuguesa e luso-descendente a viver no país de Nicolás Maduro – e de Juan Guaidó...

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Era uma oportunidade que Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), não podia perder: estando em Genebra para participar na 43.ª Sessão Ordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o governante dispôs-se a sentar-se à mesa das negociações, no início da semana, com o seu homólogo venezuelano, Jorge Arreaza, que ali participava também na cimeira. 

A simples realização do encontro era já, em si mesma, um passo no sentido da normalização das relações diplomáticas com um país onde reside meio milhão de portugueses e luso-descendentes – a segunda maior concentração de portugueses na América Latina, depois do Brasil. Nada do que se passa na Venezuela é estranho a Portugal.

A reunião – disse-se depois nos círculos diplomáticos – correu bem. Em cima da mesa, à primeira vista, estava apenas o diferendo entre Portugal e a Venezuela sobre o polémico voo da TAP que culminou com a prisão, à chegada a Caracas, de um tio do líder oposicionista Juan Guaidó (alegadamente por transportar “materiais perigosos”) e acusações do Governo venezuelano de que Portugal consentira várias irregularidades nesse voo. 

Evidentemente, nas entrelinhas ficava o ressentimento de Caracas por Portugal ter alinhado com a União Europeia no apoio aos apelos de Juan Guaidó no sentido da democratização do regime “bolivariano” de Maduro. À superfície, as alegadas “irregularidades” no voo da TAP teriam sido apenas um pretexto para o Governo de Caracas verbalizar acusações políticas indirectas a Portugal. Percebendo isso, e tendo a comunidade portuguesa na Venezuela em mente, Santos Silva apostou num apaziguamento, reduzindo assim o incidente a proporções manuseáveis pela diplomacia.

Nada vai mudar

À saída da reunião com Jorge Arreaza, Augusto Santos Silva reiterou que Portugal “só tem um interesse, que é o bem-estar da comunidade portuguesa e luso-venezuelana, e um objectivo, que é contribuir para haver uma solução pacífica e política para a crise que a nosso ver se vive na Venezuela”. O MNE referiu que durante o encontro com o seu homólogo apresentou o resultado do inquérito da Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) “sobre as alegadas falhas de segurança no voo da TAP”, tendo-lhe comunicado o resultado de que “não se verificou nenhuma espécie de falha de segurança”. “Por seu turno, o ministro da Venezuela deu-me informações que tem da parte venezuelana que não coincidem com as nossas”, explicou o Ministro, garantindo que foi “útil ter tido ocasião para discutir o assunto presencialmente”.

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