“O turismo deveria figurar entre as principais prioridades do plano de recuperação da UE” que está a ser desenhado pelo Executivo comunitário para traçar a reconstrução da economia europeia – defendeu a secretária de Estado portuguesa do Turismo, Rita Marques, na videoconferência que esta semana reuniu responsáveis governamentais do sector turístico de toda a União Europeia. Em termos práticos, todos defenderam uma intervenção semelhante ao ‘Plano Marshall’ que nos anos 40 e 50 do século passado ajudou à recuperação da Europa do pós-guerra.
Segundo um comunicado divulgado no final do encontro, e “no que respeita ao quadro jurídico para os operadores turísticos, a Comissão Europeia foi convidada a trabalhar prioritariamente no sentido de uma abordagem comum da UE que proporcione flexibilidade e liquidez temporárias e garanta um justo equilíbrio de interesses entre os operadores turísticos e os consumidores”.
Na reunião participou também o comissário europeu responsável pelo Mercado Interno, Thierry Breton, que pediu aos Estados-membros para “utilizarem ao máximo” as medidas já disponibilizadas pelo Executivo comunitário para os vários sectores da economia. “Vamos precisar de acção rápida, pragmatismo e criatividade para recuperar e construir uma indústria do turismo resiliente e sustentável”, declarou Thierry Breton, realçando a necessidade de alocar “fundos sem precedentes para ultrapassar esta crise”.
Com o turismo europeu estagnado devido às medidas restritivas adoptadas pelos Estados-membros da UE para tentar conter a propagação da pandemia, como as limitações nas viagens entre países, este é um dos sectores mais afectados pela paralisação das economias, sendo também um dos que mais pesa no PIB da União (cerca de 10%) e no emprego (12%). É, ainda, responsável por 400 mil milhões de euros de receitas anuais.
Com 16,5% do PIB nacional provenientes directa ou indirectamente do turismo, Portugal está a ser um dos Estados-membros mais afectados pela paragem no sector.
Portugal cai 40 %
De acordo com um estudo da Oxford Economics, Portugal é mesmo um dos países europeus onde o turismo internacional mais cai este ano. O estudo da consultora britânica prevê que em Portugal se deverão registar menos sete milhões de entradas internacionais este ano, em comparação com 2019, o equivalente a uma queda de 40% neste sector.
Em termos percentuais, Portugal é apenas superado na redução dos visitantes por Itália (com uma queda de 49%, menos 31 milhões de visitantes) e por Espanha (recuo de 42%, menos 34 milhões de visitantes), que são desde logo os mais afectados pela pandemia, seja em número de mortes ou de casos.
Já em termos de volume, o Estado-membro com maior recuo nas chegadas turísticas internacionais, segundo a análise da Oxford Economics, é França, com uma queda de também 40%, o equivalente a menos 38 milhões de visitantes face a 2019.
Assumindo que o Covid-19 acabará por afectar o turismo europeu durante oito meses, entre alturas de confinamento e de levantamentos faseados das restrições, esta instituição estima uma queda de 39% nas viagens de turismo para toda a Europa em 2020, comparando com o período homólogo anterior, o equivalente a menos 287 milhões de chegadas internacionais.
A consultora britânica observa nesta análise, a mais recente para o turismo europeu, que, “mesmo nos casos em que o número de [infectados] num país é relativamente baixo, tendem a existir restrições semelhantes em matéria de viagens e de movimentos”, o que justifica estas quedas acentuadas.
Ainda assim, a Oxford Economics nota que “a duração potencial das proibições de viagem é ainda bastante incerta”, pelo que os números poderão alterar-se e até piorar, caso “as restrições de viagens continuem e atinjam o pico da época” turística, isto é, Julho e Agosto.
E, “embora se preveja uma rápida recuperação em 2021, não se espera que os níveis de viagens internacionais registados em 2019 se restabeleçam antes de 2023, uma vez que os efeitos prolongados sobre os rendimentos se repercutem” nos movimentos turísticos, nota esta entidade.
No que toca às viagens domésticas, “também cairão em 2020, mas não mais do que as viagens internacionais”, estima a Oxford Economics, justificando que as restrições aqui aplicadas deverão “ser levantadas mais cedo”.
Para o conjunto da Europa, a redução esperada nos movimentos turísticos domésticos na região este ano é de 23%, sendo mais acentua-
da no Sul da Europa (-24%) e na Europa Ocidental (também -24%) e menos evidente na Europa Central ou Oriental (-20%), conclui a consultora na análise.
Carta aberta
Uma carta aberta com 10 medidas para relançar o turismo no curto e médio/longo prazo foi entretanto enviada ao ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, e ao Primeiro-Ministro, pela eurodeputada Cláudia Aguiar (PSD).
A iniciativa da eurodeputada surge numa altura em que “a fase de preparação para o fim parcial do confinamento e as medidas graduais de retoma estão a ser desenhadas, como um Plano estruturado para o Turismo e Viagens”.
Como medidas de apoio a curto prazo, Cláudia Aguiar propõe a criação de selo europeu de certificação de qualidade sanitária e de orientações para os Estados-membros, de forma a transmitir confiança aos consumidores, e a definição de um plano de repatriamento de turistas em caso de novo surto. ■




