Provavelmente ainda um pouco entusiasmado com as caipirinhas de fim de tarde e com a presença de Marques Mendes na primeira fila (o que se percebe, pois um pouco mais atrás e não veria o palco), Luís Montenegro, em arranque eleitoral no Pontal, lá tratou de apelidar – e bem! – o PS como o campeão dos impostos e apresentar um pacote/reforma dos mesmos, com vista à sua redução e introdução de um tecto máximo de 15% para os jovens até aos 35 anos, com vista a fixar os mesmos cá.
Provavelmente fruto de alguma insolação ainda mal curada, veio Porfírio Silva às televisões tentar mortais atrás e outras acrobacias de género, negando a carga fiscal e justificando o acréscimo da receita fiscal com a inflação e mais emprego, tentando aproveitar o calor do Verão para nos pôr a todos a comer gelados com a testa.
Provavelmente fruto da escassez de “Memofante”, ou de a cassete ter encravado no leitor e passar repetidamente a mesma lengalenga, Mariana e Raimundo (digam lá se não parece o nome de um duo sertanejo?) lembraram a governação de Passos, como se esta não tivesse contexto e não resultasse de imposições de quem nos emprestou dinheiro…
Provavelmente por ter engolido uns pirolitos a mais e o sal da água afectar o raciocínio, Marcelo, que não comenta “rentrées” políticas, mas é incapaz de se conter à frente de um microfone, perorou durante largos minutos, sem nada dizer de concreto, excepto que vai estar atento, enquanto dá um pulo à “Santini” para emborcar mais um gelado…
À parte da medida – que mereceu comentários favoráveis da IL e do Chega – convém olhar para alguns números que sustentam o “status quo” orçamental.
É inegável que Portugal vive hoje do turismo. O consumo turístico (directo e indirecto) representa entre 15,8% e 19,1% (dados de 2022 e conforme os itens considerados pelos analistas), tornando-o, assim, o 5º maior país do mundo em receita turística face ao PIB e o 2º na Europa, apenas atrás da Grécia. Isto é um feito extraordinário, considerando, por um lado, a dimensão do país e, por outro, o número de residentes, o peso da indústria, serviços e volume de exportações.
E se o turismo parece ir de vento em popa (de uma forma geral verifica-se um aumento de perto de um terço face a 2019 – o melhor ano de sempre), há, porém, alguns dados preocupantes, como seja a quebra de 7,5% do turismo no Algarve. Isto deve-se a diversos factores, quer a nível do sector, quer a nível governamental. A nível do sector, para lá de uma gritante escalada de preços, não acompanhada pelos salários, mas, sobretudo, pela falta de qualidade do serviço. Os empresários algarvios acharam que a sazonalidade e a inflação se deviam combater com aumentos do preço das dormidas, restauração e serviços estivais, como se não houvesse amanhã e fossem a última bolacha do pacote. A acrescer, a falta de formação, simpatia e cuidado para com os turistas que, ano após ano, levam a ponto de saturação. Esquecem-se, igualmente, que hoje qualquer pessoa com conhecimentos básicos de “internet” consegue pesquisar e comparar, optando por alternativas mais baratas e que oferecem mais garantias (quanto mais não seja a da novidade e o carimbo no passaporte para poder postar no “Facebook” ou no “Instagram”). Mas o Estado pouco ou nada contribui para a melhoria da situação. São taxas e taxinhas em tudo o que mexe, que se repercutem, directa ou indirectamente, no consumidor. É o combustível a preços proibitivos, a falta de postos de carregamento para os eléctricos que tanto dizem apoiar, pórticos e portagens a custarem os olhos da cara…
Ir do Porto a Tavira e regressar custa, em portagens, perto de 100 euros (classe 1), fora o que se gasta lá em pórticos e no estacionamento na praia. A ida e volta, se não tirar o carro da garagem durante a estadia, representa mais centena e meia (se não se esticar na velocidade). Um tolde e duas cadeiras rondam os 25 euros/dia (exceptuando Gigis e outros, cujo valor semanal rivaliza com as rendas dos T2 em muitas cidades médias)…
Ora, à distância de um clique estão Cabo Verde, Tunísia, Egipto, Grécia e até Espanha, em que faz a festa pelo mesmo, ou até por preço inferior e com tudo incluído. Ir da Corunha a Múrcia (quase 1000km, ou seja, quase o dobro da distância Porto Algarve), custa, “apenas” 32,30 euros em portagens, sendo que o combustível em Espanha é cerca de 20 cêntimos mais barato por litro (gasóleo) e o salário mínimo é superior ao nosso em 300,00 euros…
Outro dado ainda mais preocupante é que o volume de negócios no sector do turismo (ou relacionado com este) apresenta uma queda de quase 40% face ao primeiro semestre de 2022. Ora, se há factores financeiros que justificam esta quebra acentuada, nomeadamente o aumento das taxas de juro, em Portugal, o grosso da mesma justifica-se com o fim dos “vistos gold”, determinado por decreto governamental, e diversos entraves de natureza administrativa na concessão de licenças, nas capacidades construtivas e nas entidades que têm que dar parecer favorável a empreendimentos turísticos.
Portugal não tem excesso de turistas. Tem-nos, quando muito, excessivamente concentrados em poucas zonas, por falta de investimento sério e estratégico noutros locais que não o Porto, Lisboa, Algarve e Madeira. Tanto se poderia (e deveria!) fazer do ponto de vista político se houvesse competência e uma visão integrada do sector a nível nacional e das suas diversas valências (desde o turismo religioso, ao turismo termal, de rotas históricas e de monumentos, entre outros). Mas não: o que importa é continuar a taxar até matar a galinha dos ovos de ouro!!!
Já agora – e quase a título de nota de rodapé: Lisboa levou com mais de um milhão e meio de pessoas durante uma semana, estimando-se que cerca de 300 mil lá tenham chegado por via aérea. Não consta em lado algum que o aeroporto tenha colapsado… Por isso, parem lá de fazer de nós estúpidos e comecem a discutir coisas sérias… ■
Preços de luxo, serviço de lixo




