No próximo dia 22, coincidindo com a data definida como da chegada de Pedro Álvares Cabral a terras de Santa Cruz, Brasil, completaria 120 anos uma das mais marcantes personagens da política brasileira do século XX.
Adhemar de Barros, um paulista aristocrata, formado em medicina no Rio de Janeiro, com mestrado na Alemanha e residência médica em França, no final dos anos 1920. Em 1934, entrou para a política e, quatro anos depois, recebeu, muito jovem para a época, o convite de Getúlio Vargas para ser o Interventor Federal (ministro de Estado) em São Paulo.
Foi o primeiro grande empreendedor do Brasil. Ousado, construiu as duas primeiras autoestradas brasileiras, ligando São Paulo a Santos (via Anchieta) e São Paulo a Campinas (via Anhanguera), depois a Castelo Branco, que levou o progresso à região de Sorocaba. Fundou a Vasp, empresa aérea que durante 60 anos marcou presença na aviação brasileira; incentivou a construção de aeroportos por todo o interior paulista; construiu o então mais alto edifício da América Latina, sede do banco estadual, Banespa; doou o terreno onde está o Masp, o mais importante museu de arte da América Latina; ampliou a mais importante escola de agronomia do Brasil, em Piracicaba, onde nasceu. Lançou as bases da moderna agricultura paulista, até então limitada ao café e à pecuária.
Depois de interventor com tantas realizações, na redemocratização, em 1946, foi eleito governador. Mais tarde, depois de duas tentativas frustradas de voltar ao governo de São Paulo e à Presidência da República, foi eleito prefeito de São Paulo, onde recuperou as finanças com auxílio de Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Voltou para um terceiro mandato, em 1962, durante o qual foi um dos principais organizadores e apoiantes da Revolução de 64, com a qual rompeu dois anos depois e teve seus direitos políticos suspensos. Foi um líder popular ímpar na história republicana.
No entanto, é o médico que hoje não pode deixar de ser lembrado e consagrado. Foram obras suas: o Hospital das Clínicas, até hoje, 70 anos depois, o maior da América Latina e referência no combate à pandemia; o Hospital Emílio Ribas, centro de pesquisas, de estudos e de atendimento à pandemia; o Instituto Adolfo Lutz, de pesquisas também. Deu ao Butantan – onde estão sendo fabricadas a vacina Coronavac, em uso neste momento – a sua sede e ampliou-a para ser o que é no mundo científico mundial. Até o Estádio do Pacaembu, onde se construiu hospital de campanha neste estado de emergência, foi do seu tempo. Um gigante de visão e acção.
Adhemar, entretanto, foi alvo da inveja de seus frustrados adversários, acusado que foi de promover uma “caixinha eleitoral” e, diante da impossibilidade de se negar a sua contribuição em grandes obras, foi definido como o “rouba, mas faz”. Mas, ao morrer, deixou menos do que tinha ao entrar na política. O seu grupo empresarial, que sobreviveu nas mãos do genro, João Saad, foi o complexo de comunicação liderado pela TV Bandeirantes.
Foi líder de um partido que chegou a ser o quarto maior do Brasil e que vivia do seu prestígio, onde os candidatos se apresentavam apenas como “com Adhemar”, o que garantia a eleição. Como era mais homem de acção do que de articulação política, foi traído, de um lado, e atropelado pelo destino, por outro, pois seria o candidato de Vargas, em 1955, não fosse o trágico suicídio do líder trabalhista, em Agosto de 1954. Teve na campanha, como seu vice-presidente, o deputado Danton Coelho, o mais leal dos getulistas, e o apoio do General Caiado de Castro, senador pelo Rio, que foi Chefe da Casa Militar Vargas. Na eleição presidencial de 55 , teve um milhão de votos em São Paulo, contra setecentos mil do Marechal Juarez Távora e os modestos duzentos e trinta mil de Juscelino, que ganhou as eleições nacionais.
Gostava tanto de Portugal e dos portugueses que, nas campanhas presidenciais, prometia que, se eleito, “o português, ao desembarcar na Praça Mauá, no Rio, receberia logo o título de cidadão brasileiro”. Nunca escondeu sua admiração por Franco e por Salazar.
Morreu aos 66 anos, em Lourdes, na França, que frequentava como católico fervoroso que era. Mas quem faz não é nunca esquecido. ■




