Um livro curioso foi lançado há anos sobre personalidades que, em paralelo às suas actividades profissionais, dedicam tempo e recursos a iniciativas e entidades culturais, procurando oferecer à população oportunidades de conhecer a arte, o belo, despertando valores inerentes a uma sociedade minimamente culta.
Com o sugestivo título de “Amigos das Artes”, a obra é apresentada por José Luiz Alquéres. Homem de cultura, pesquisador, ele fez uma das mais vitoriosas carreiras no sector eléctrico brasileiro, tanto no público como no privado. Ao retirar-se, deu espaço à paixão pela cultura e as artes. Tem sido um precioso apoiante do Museu Imperial, o mais visitado do Brasil, criou uma editora de qualidade, promove palestras que incentivam a responsabilidade do sector privado em apoiar e valorizar a cultura.
Estes homens agem por ideal, por amor, sendo, portanto, pouco conhecidos, apesar da extensa folha de serviços prestados. A vaidade, comum aos vitoriosos, não transita neles.
João Maurício Araujo Pinho, de família tradicional e ligada à nobreza do segundo Império, é um advogado de relevância, exemplo de uma educação permanente e uma rica contribuição. Ele mesmo é coleccionador de qualidade. Para se ter uma ideia do activismo na área deste homem, vale a pena enumerar algumas de suas funções, como as de presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, da Casa França-Brasil e do Museu Histórico Nacional. Ainda criou e dirigiu associações de amigos de referência no Rio, como a da Casa de Rui Barbosa e do Museu do Pontal.
João Mauricio foi parceiro de duas mulheres decisivas na cultura do Rio. Curiosamente, ambas de Roberto Marinho. Estela Marinho, de uma imensa sensibilidade pragmática para iniciativas culturais, a primeira esposa e mãe dos filhos do fundador e dono das organizações Globo, e Lilly Marinho, a última mulher. Com elas promoveu eventos de importância para o Rio que repercutem até hoje. Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, também presidiu o MAM do Rio.
Outro parceiro foi Gilberto Chateaubriand, que reuniu a maior colecção de quadros do Brasil, com mais de mil obras doadas ao Museu de Arte Moderna. Curiosa é a presença de donos de jornais até ao final do século na vida cultural. O Museu de Arte Moderna foi obra de Niomar Muniz Sodré, mulher de Paulo Bittencourt, dono do “Correio da Manhã”, assim como Assis Chateaubriand, que fundou o Museu de Arte de São Paulo, considerado um dos três mais importantes da América Latina, que leva seu nome. Adolpho Bloch, da “Manchete”, tinha uma boa colecção aberta ao público na sede da empresa. Hoje estas iniciativas estão entregues à burocracia de algumas grandes instituições, especialmente bancos, mas sem um líder que empreste o seu prestígio e atenção. Apoiar a cultura tornou-se uma fria acção do “marketing” de empresas. Herdeiros há que, pelo menos, respeitam os seus maiores, fundadores, como o caso da Casa de Cultura Roberto Marinho, que fica na residência em que ele viveu por mais de 60 anos. O grande empresário, com significativa colecção, assim como o Instituto Moreira Salles, do grupo do mesmo nome e Itaú Cultural, cuja accionista que promovia o sector cultural teve de se afastar por motivo de saúde.
Estes homens, em todo mundo, é que movimentaram no pós-guerra os avanços culturais via mecenato, como Portugal teve em Manuel Vinhas e Jorge de Brito. Restam os EUA, onde é forte e sempre foi a ligação com o mecenato. Na Europa não se percebe nada de novo fora das empresas, sendo raras as aberturas ao público de colecções, como foi o caso do Museu Thyssen, de Madrid, hoje com problemas com a viúva do barão coleccionador e mecenas.
O voluntariado para a cultura, como para a acção social, não chegou às novas gerações. Mas ficam os exemplos, aguardando um render da guarda de gerações para ver se ressurge este sentimento nobre nos homens realizados nas suas actividades. ■




