Turbulências à vista em Havana

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O governo cubano entrará o novo ano cercado de dúvidas e com uma reforma cambial de consequências imprevisíveis na vida do cidadão já sofrido com racionamento de alimentos e serviços básicos há 60 anos. Não é só a falta de liberdade, a repressão policial ao direito de opinião e reunião, o confinamento obrigatório que mantém sua população presa, sem poder sair do país, que tornam condenável a ditadura imposta por Fidel Castro, ainda vigente sob protecção policial severa. A crise na economia é muito mais grave.

No campo político, as manifestações recentes de intelectuais e artistas, pedindo um mínimo de liberdade, é o facto mais relevante desde a morte de Fidel. O governo reagiu acusando os artistas de estarem a serviço dos EUA, primeiro passo para as prisões que se tornaram rotina no país. E sob o silêncio reverencial da classe artística de todo o mundo.

Janeiro marca curiosa reforma cambial. O país vive com duas taxas cambiais atreladas ao dólar americano: a oficial, de um para um, e a para o cidadão comum, que vale 24 vezes menos. Igualar o risco inflaccionário é grande, pois o salário-mínimo e as pensões devem ser corrigidos em 500%. Abertura de algum sector para o livre mercado, por menor que seja, nem pensar. Cuba tem visto sua situação se agravar desde o fim da URSS e da recente crise na Venezuela, que com Chávez fornecia petróleo a preços especiais. No mais, a COVID eliminou o turismo ideológico, que dava divisas preciosas.

O país era conhecido pelo turismo e pelo açúcar. Este viu sua produção nas últimas décadas cair à metade do que era antes do comunismo. Tudo escondido do grande público, pois o regime conta com forte apoio nos círculos esquerdistas do mundo ocidental. Segundo relato de funcionário que trabalhou directamente com Fidel Castro, Garcia Márquez era das poucas pessoas a terem livre acesso à ilha particular do ditador e seu fabuloso iate, confiscado de um americano e restaurado na Holanda por três milhões de euros, nos anos 1990.

No governo Obama, os EUA aliviaram as restrições económicas a Cuba, chegando a abrir um escritório na capital. Agora, com Biden, não será surpresa um “auxílio-humanitário” em alimentos.

Uma radiografia do que se passa em termos económicos, sociais e de liberdade democrática nos países de governança esquerdista seria pauta num quadro mais plural dos ‘Media’ internacionais.

Países como Venezuela, Cuba, Nicarágua e Argentina oferecem o retrato destes regimes em termos de resultados em benefício da população. E, nos países em que o capitalismo e a liberdade ainda se fazem presentes, não é comum surgirem vozes em defesa destes povos em processo de sofrimento e decadência.

É a mesma cortina que oculta o que a omissão do Ocidente fez com a pérola do Oriente Médio, que foi o Líbano, democrata, cristão e rico, se tornasse refúgio de terroristas, radicalismo religioso e desorganização económica. E em país que até há bem pouco oferecia ainda excelente nível de educação ao seu povo. 

Talvez pior do que a pandemia seja este alheamento dos conservadores para o que acontece em países de referência no Ocidente, em que a Espanha e a Argentina são casos mais actuais e lamentáveis. É a velha história dos que esperam ver suas portas arrombadas para se defenderem. Nem sempre dá certo…  ■