É sina nossa?

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A história recente de Portugal tem revelado que tivemos (e temos) um grupo de pessoas cujo perfil não aconselharia a estar próximo de qualquer tipo de poder. E, não só isso aconteceu, como se manteve (e poder-se-á dizer que ainda se mantém) um grupo de aficionados que lhes dedica uma devoção nada razoável. Relembremos o caso mais incrível, o senhor José Sócrates Pinto de Sousa. Aquando da segunda eleição era já evidente que o cavalheiro não era companhia desejável, muito antes pelo contrário. Ainda assim teve o incrível resultado que lhe permitiu formar um governo. E o delírio continuou até ser constituído arguido. E ainda nesse tempo mantinha um exército de devotos seguidores. Percebemos todos que deixou o país de rastos, arruinado e, quiçá, condenado a “trabalhos forçados” por uma geração.  E ainda assim o coro de apoiantes subsiste. Aconteceu e está amplamente comentado e seguro por factos. 

Temos hoje um primeiro-ministro mais discreto, menos desabrido, menos truculento, mas igualmente não qualificado para exercer o cargo de gestor do Estado português. Lembra um simpático trabalho de faiança que rapidamente se declara um deplorável exemplar da ‘loiça das caldas’ no seu esplendor. E quando tal sucede, a tendência é para esboçar um sorriso ou para aquelas frases – “um homem não é de ferro”, “o que lhe devem ter dito para ele reagir assim”, “está cansado”, etc, etc. Tudo serve para não se ver a evidência. Não tem, nem nunca teve fibra para o cargo. Pode a oposição ser o que é, ser pior, menos má, ou o que for, mas isto é que não se pode aceitar. Vamos ter de esperar um acidente irrecuperável para que a mole humana que o segura se convença que tem de mudar. Por mais que esteja habituada a “estes”, tal não pode ser mantido. É, mais uma vez, o grupo que o mantém, o idolatra, o segura.

Outro momento que ilustra este tipo de atitude é o caso do BES. Era do conhecimento geral que aquele banco era, não uma empresa, mas um grupo de interesses e jogos de favores que serviam uns tantos (mais que tantos, dir-se-ia). Era o banco do regime. Apesar de todos os dirigentes afirmarem a pés juntos e com a solenidade que se impõe que desconheciam, que não faziam ideia, que era impossível tal, o certo é que os avisos já eram estridentes em muitos meios. Contudo, o apoio mantinha-se, a cobertura, o disfarce, a ocultação, etc, etc. E acredito que ainda haja por aí gente que ache o Senhor Ricardo Salgado um exemplo de gestão, uma figura ímpar na história da banca portuguesa.

É mais fácil deixar “correr o marfim” e ver para onde a coisa vai do que tomar medidas certas e antecipadas. Tudo “correu bem” até ao fim de 2019. Este ano, tudo ruiu e não há forma ou modo de mascarar a evidência. 

Aceitamos receber para ficarmos parados e deixamos que a turba acéfala mantenha o apoio do costume para que o “clube” continue a ganhar o campeonato. 

Quando aceitamos esta realidade, temos a noção do que estamos a desenvolver? Temos a noção da herança que estamos a criar? ■