A oportunidade de Rui Rio

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Fiel ao princípio de aproveitar todas as oportunidades para defender aquilo em que acredito, participei recentemente na conferência do MEL-Movimento Europa e Liberdades e tive a oportunidade de ouvir muitas opiniões com que concordei e outras que nem por isso. Tudo normal.

Todavia, os meios de comunicação não viram o mesmo debate que eu e foi de bater no ceguinho do costume. Bastaria que tivessem assistido à apresentação de Nuno Palma, professor convidado na Universidade de Manchester, ou a de Luís Mira Amaral para terem um pouco mais de respeito pelo trabalho dos outros. Ambos estes oradores, entre outros, puseram a nu o mau estado da Nação, mas isso não interessa e daqui a uns anos teremos estes mesmos jornalistas a dizer que viram tudo e lamentarão que os portugueses não dessem por isso. Já estamos habituados.

Pessoalmente, ao assistir durante dois dias ao que ali se passou tive a oportunidade de compreender que se tratava de uma reunião em que a quase totalidade dos presentes pretendia criar as condições para que o centro-direita da política portuguesa possa vir a substituir o Partido Socialista no poder. Sendo que eram visíveis três correntes principais: o Chega, com o seu líder a chegar ao encontro seguido da sua claque para impressionar a comunicação social, e duas correntes do PSD, que de forma simplificadora podemos dizer serem a corrente Rui Rio e a corrente Passos Coelho. E ainda, de forma menos evidente, algumas pessoas do CDS e do partido Liberal, além de independentes, alguns de esquerda.

O que mais me impressionou durante a reunião, o que tive a oportunidade de referir na minha intervenção, foi o facto de haver unanimidade quanto ao objectivo principal, que se traduz em conquistar democraticamente o poder, mas aparentemente sem a compreensão de que o desafio é relativamente simples, porque havendo acordo quanto ao objectivo principal trata-se apenas de uma questão de liderança daquele espaço político. Ou seja, as tropas existem e estão de acordo quanto ao que querem, mas não encontram quem as guie. Vejamos pormenores:

1 – O Chega – Este partido sabe muito bem o que quer, mas é um perigo para as restantes forças políticas, porque divide a direita e os seus excessos servem de bandeira ao PS e à esquerda, que usa o Chega para amedrontar sectores do eleitorado de direita. Por outro lado, André Ventura coloca condições que sendo de pouca valia para a governação do país, têm enorme importância eleitoral para o Chega como partido do protesto. Mas essas são condições inaceitáveis para uma parte muito relevante do centro-direita e representariam um suicídio político se ignoradas.

2 – O PSD – Sendo o principal partido da oposição, pelo qual passa a questão da liderança de todo o espaço político do centro-direita, está dividido entre dois modelos de liderança, mais do que por duas correntes políticas: a presente liderança de Rui Rio e uma hipotética liderança futura de Passos Coelho. Ou seja, sendo Rui Rio o líder presente, com o poder e a legitimidade de assumir esse encargo, parece, todavia, preferir ajudar o PS a governar melhor, o que para os presentes na sala representa uma missão impossível.

Na minha pequena intervenção tentei, entre outras coisas, dizer o seguinte: (a) o PSD não se pode colocar na posição de aceitar o que de alguma forma é um ultimato contido nas propostas do Chega; (b) Todavia, a questão não pode ser adiada e Rui Rio tem a oportunidade de assumir a liderança de toda a oposição e apresentar rapidamente aos portugueses as suas principais convicções – que não são um programa de governo – mas uma proposta de unidade do centro-direita, além de mobilizadora do País como um todo. Se o Chega não aceitar essas convicções, o problema constituído por este partido ficará ultrapassado, e se aceitar, poderá ser parte da oposição ao PS após as eleições, mas nas condições propostas pelo PSD, o que faz uma enorme diferença. Estamos, portanto, para já, em presença de uma simples questão de liderança e de dar, se possível, algum sentido aos votos do Chega.

Temos agora a questão das dez convicções que, desde logo, devem ser dirigidas a todos os portugueses e não apenas aos eleitores do centro-direita, convicções que terão de ser mobilizadoras para os eleitores de todos quadrantes políticos: (1) desde logo a liberdade, o que compreende a liberdade de iniciativa e de independência das instituições da sociedade; (2) o Estado regulador e a recusa do Estado patrão que temos; (3) a mudança de modelo político a favor da democratização do regime, através da reforma das leis eleitorais e da maior participação livre dos portugueses na vida política; (4) a profunda reforma do modelo educativo, juntando à formação dos conhecimentos a educação dos comportamentos e das competências, através da valorização do papel das creches e do pré-escolar com transporte, assim como a exigência e o mérito, como valores para a vida; (5) o combate sem tréguas à pobreza, através da qualificação dos portugueses, a valorização do factor trabalho e da qualidade do emprego, em vez de meras ajudas ao desemprego; (6) o combate sem tréguas à corrupção e o fornecimento à Justiça dos meios humanos e técnicos necessários; (7) reforma e profissionalização da administração pública, hierarquizada com uma cúpula formada por directores-gerais de profissão, que garantam qualidade, continuidade e memória; (8) uma economia competitiva no plano internacional, que reproduza as três características existentes nos dois períodos da EFTA e do PEDIP/AutoEuropa: investimento estrangeiro, indústria e exportações; (9) Plano de Recuperação e Resiliência transformador da economia portuguesa e a sua compatibilização com um novo modelo económico, que não seja um mero distribuidor de dinheiro aos do costume; (10) valorização das políticas ambientais, no sentido da sua compatibilização com o progresso da economia.

Esta é uma mera sugestão, que pode ser diferente desde que clara, aceitável pelas diferentes forças políticas e mobilizadora dos portugueses. Todavia, Rui Rio não pode perder mais tempo e tem de assumir a liderança do centro-direita, incluindo o Chega, nas condições referidas e esquecendo o Chega se isso não resultar possível. Além de aproveitar a Assembleia da República e os meios de comunicação para fazer uma oposição determinada à geringonça e, naturalmente, ao modelo de governo do Partido Socialista. 

Esta é uma estratégia política que deve ter sucesso para além das próximas eleições autárquicas. É uma estratégia que serve para mobilizar o PSD para a batalha autárquica, mas cujo objectivo principal será convencer os portugueses de que é possível governar melhor e de que com a geringonça e o PS no Governo Portugal perde a oportunidade de fazer crescer a economia e de se aproximar dos níveis de rendimentos da União Europeia. ■