A recuperação económica

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A crise económica e financeira que se seguirá à pandemia do Covid-19 será trágica para a grande maioria dos portugueses. Prometer que não haverá austeridade é uma irresponsabilidade que se inscreve numa longa lista de promessas com que o poder político tem enganado os portugueses. Recordo Cavaco Silva a garantir que o dinheiro no BES estava garantido, de Pedro Passos Coelho a prometer que a separação do banco mau do banco bom resolveria os problemas do mesmo BES e as promessas de António Costa a afirmar que a venda do Novo Banco a um fundo norte americano não precisaria do dinheiro dos portugueses. Para já não falar das mentiras de José Sócrates e do seu Ministro das Finanças aquando da nacionalização do BPN.

Claro que António Costa reza aos deuses dos agnósticos para que a União Europeia lhe resolva o problema para os próximos anos, já que depois o problema ficará para o PSD resolver. Porque se não fosse essa a ideia, o Governo não dependeria tanto do dinheiro a chegar da União Europeia e já estaria a trabalhar e a colocar no terreno um plano de sobrevivência nacional. Desde logo, incentivando as empresas a iniciarem as suas actividades (nunca compreenderei porque parou a AutoEuropa) produzindo para o mercado, ou para stock, mas produzindo. Ou teria parado a construção da Linha circular do Metro, o aeroporto do Montijo e a ferrovia em via única de bitola ibérica de ligação a Badajoz. Substituindo esses investimentos por outros que garantam aos investidores empresariais, nacionais e estrangeiros, uma logística moderna de exportação. Fazendo rapidamente os projectos que deveriam existir, mas que há feitos apenas para o Sul – ELOS – apressando os que faltam para apresentar ao financiamento da União Europeia. Para já, podem apresentar, se é que não foi já feito, o ELOS e iniciar as obras.

Os grandes investimentos devem ser essencialmente dois: o novo cais Vasco da Gama em Sines e o ferroviário constituído pelo corredor do Atlântico proposto pela União Europeia, com a entrada em Portugal a Norte e a saída a Sul, em via dupla e bitola UIC (europeia). São investimentos volumosos, mas aqueles cujo financiamento foi previsto por Bruxelas. Em complemento e num segundo plano, investir nos Metros do Porto e de Lisboa, neste segundo caso na Linha Vermelha até Alcântara.  

Portugal vai precisar de investimento público como de pão para a boca nos próximos tempos, promovendo o crescimento da economia e o emprego e dando à União Europeia um bom exemplo de investimentos com rentabilidade assegurada e promotores das exportações nacionais, por terra para a Europa e por mar para todo o mundo. Ou seja, transformar a imagem europeia de um Portugal de mão estendida, pela realidade de um País a lutar pela sua sobrevivência, com ideias e projectos que façam sentido.

Mas não basta o investimento do Estado, vamos precisar do investimento privado, nacional e, principalmente, internacional, preferentemente na indústria transformadora. Acontece que a oportunidade é única para um país que, como Portugal, possa apresentar a melhor logística do Ocidente para combater a logística do Oriente, no momento exacto em que os países e as empresas do Ocidente vão ter de pensar na sua actual dependência da China e encontrar os melhores locais para investir com esse objectivo.

Esta é, em resumo, a única estratégia que conheço para dar um futuro à economia portuguesa. Uma estratégia que pretende acabar com a ideia do mercado interno e demostrar que o crescimento das exportações portuguesas, até ao nível dos outros países da nossa dimensão, é a única via para o progresso nacional. Demonstrar que o turismo vai levar algum tempo a retomar com a dimensão que já teve e que, em qualquer caso, serve no curto prazo, mas não reside no turismo a transformação necessária da economia portuguesa. Nesse sentido não precisamos de mais, mas de melhor turismo, e devemos desde já mudar a agulha neste domínio: formação, formação e formação. Entretanto, projecte-se, com tempo, um aeroporto em Alcochete e um túnel sob o rio, em direcção a Lisboa. Aeroporto de que só precisaremos daqui a bastantes anos. 

Há outros investimentos possíveis. Permita-se à actividade privada a construção de uma ou duas torres no espaço da antiga Lisnave e a renovação da beira-rio em Almada, com baixa volumetria de reconstrução. Planeie-se no Seixal um pequeno paraíso para a náutica de recreio, aproveitando os espaços de manutenção que lá existem. Faça-se do Tejo e de Lisboa um centro de turismo de qualidade para Congressos e Conferências internacionais, para paquetes de luxo, e concentrem em Sines a actividade comercial, com caminho de ferro em direcção a Norte. Aliás, Sines será o local de eleição para a instalação de empresas internacionais integradoras, isto é, empresas que, como a AutoEuropa, recebem componentes e sistemas de todo o mundo e exportam os seus produtos finais para todo o mundo. Sobre isto, recordo o que aconteceu com a vinda para Portugal da AutoEuropa: no início as exportações de componentes não passavam de uns poucos milhões de euros, mas em 2019 ultrapassaram os oito mil milhões. 

Sempre fui contra a venda da EDP, da PT, da REN e da ANA, por estarem ligadas ao espaço nacional e terem importância estratégica. Já não vejo nenhuma vantagem na posse pelo Estado dos transportes urbanos das cidades ou do caminho de ferro para o transporte de passageiros e de carga, desde que esteja garantida a posse das linhas e exista concorrência. A linha de Cascais seria a primeira. Concordo que a TAP tem importância estratégica, mas não é nada que, na actual conjuntura, não se possa conseguir com um bom acordo de venda que garanta o hub de Lisboa e a permanência dos voos agora existentes para o Brasil, América do Norte e países das antigas colónias portuguesas. Razões que representam uma vantagem vender a uma das empresas dos Estados Unidos e não a uma empresa chinesa ou europeia. Neste domínio, ainda não percebi para que serve uma empresa aérea açoriana. 

Peço desculpa de centrar a minha ideia de investimentos em Lisboa, o que acontece por duas razões: porque conheço melhor a região e porque tenho grande confiança nos empresários e nos autarcas do Norte e do Centro, para resolverem os seus próprios problemas e desenvolverem as suas próprias ideias, desde que o Estado não lhes complique a vida. Veja-se o que disse sobre a AutoEuropa. 

O que o Norte e o Centro precisam é de uma via férrea para as suas exportações para a Europa, já que por via marítima estão bem servidos e temos Sines. Precisam também de valorizar algumas das suas produções, a exemplo do que aconteceu com o calçado, além de reduzir a sua dependência da parte pobre da economia dual, que não tem futuro. Para isso é preciso criar mais empregos na parte mais rica da economia.

Penso que deixo aqui um resumo para uma estratégia de sobrevivência da economia portuguesa, uma estratégia que organize e garanta o seu futuro crescimento e rentabilidade. Se me perguntarem se tenho alguma esperança que seja adoptada, ou até só debatida pelo Governo, direi que não. Limito-me a escrever para a história.

Nota: aqui fechado, também ainda não percebi qual a razão por que empresas portuguesas não estão ainda a inundar os mercados internacionais de testes, batas, calças, calçado, viseiras, cotonetes, óculos e máscaras da mais elevada qualidade. Qual é o problema? ■