Fátima: Igreja recusa privilégios concedidos à CGTP

A excepção feita à Intersindical para poder circular com camionetas de excursão entre concelhos e juntar mais de mil pessoas nas suas festarolas do 1º de Maio, em Lisboa e no Porto, indignou muitos católicos, privados há largas semanas do acesso aos lugares de culto. Mas a hierarquia da Igreja não quer dar maus exemplos e vai mesmo manter a decisão de respeitar as normas de Saúde Pública determinadas pelas autoridades.

0
513

Logo a 6 de Abril, quando foram decretadas as primeiras medidas restritivas de circulação e concentração de pessoas, o Santuário de Fátima fez saber que, dada a emergência pandémica, não iriam realizar-se este ano as tradicionais celebrações de Maio: a Saúde Pública assim o ditava.

Mas com a polémica da benesse extraordinária dada no passado dia 1 de Maio à CGTP (a central sindical afecta ao PCP) ao rubro, a ministra da Saúde, Marta Temido, disse numa entrevista à SIC que as celebrações do 13 de Maio, em Fátima, afinal talvez pudessem realizar-se: “Se essa for a opção de quem organiza as celebrações, de organizar uma celebração do 13 de Maio onde possam estar várias pessoas, desde que sejam respeitadas as regras sanitárias, isso é uma possibilidade”, disse a governante, num Português deplorável mas ainda entendível.

De imediato os responsáveis pelo culto em Fátima reagiram com estupefacção às declarações de Marta Temido, que pareciam apenas destinadas a “contrabalançar” o escândalo do 1º de Maio da Intersindical: “O Santuário foi apanhado de surpresa pelas declarações do Governo” e “está a reunir todos os elementos para tomar uma posição” sobre as celebrações religiosas de 12 e 13 de Maio em Fátima, afirmou uma fonte do gabinete de comunicação da instituição.

Mas a Igreja, ao contrário do Governo, não brinca com coisas sérias. E antes que eventuais peregrinos começassem a deslocar-se a pé até ao santuário, em caminhadas tradicionais por rotas que levam vários dias a percorrer, a hierarquia católica pôs os pontos nos is.

“Opção dolorosa”

“Tendo surgido informações de que o Santuário de Fátima poderia fazer a peregrinação de 12 e 13 de Maio com a presença de peregrinos no recinto de oração”, o bispo de Leiria-Fátima, cardeal António Marto, “esclarece que se mantém a decisão anteriormente anunciada de realizar estas celebrações com o recinto fechado, sem a habitual participação dos peregrinos”, afirmou o prelado em nota oficial, lembrando que se tratará de “uma cerimónia simbólica”.

“A decisão da Igreja Católica de seguir as indicações das autoridades civis, no sentido de suspender as celebrações religiosas comunitárias, decorre da responsabilidade de fazer o que está ao seu alcance para não colocar em perigo a saúde pública, cumprindo também deste modo o mandato evangélico do amor ao próximo”, sublinha o cardeal Dom António, na mesma nota.

“Estamos conscientes de que um aglomerado imprevisível de pessoas na Cova da Iria, a 12 e 13 de Maio, numa altura em que o risco epidémico é elevado, contraria as orientações das autoridades de saúde, que optaram por fazer um desconfinamento gradual e faseado”, refere.

“Respeitamos, por isso, numa atitude de colaboração com as diversas autoridades, as orientações de realizar estas celebrações com uma presença simbólica de participantes: intervenientes na celebração e funcionários do Santuário”, explicita o bispo.

António Marto frisa que, como “estava previsto, em articulação com as autoridades civis, as celebrações dos dias 12 e 13 de Maio, este ano, não podem contar com a presença física dos peregrinos e serão transmitidas pelos órgãos de comunicação social e digital”, acrescenta.

“Por mais que o nosso coração desejasse estar em Fátima, a celebrar comunitariamente no mesmo lugar, como acontece desde 1917, a prudência aconselha-nos a que desta vez não seja assim”, adverte o cardeal António Marto.

“Mantemos esta opção dolorosa na expectativa de, quanto antes, podermos ter neste Santuá-
rio as multidões que, na alegria da fé, se reúnem para celebrar e rezar”, conclui o bispo de Leiria-Fátima.

Pandemia persiste

O cardeal-patriarca de Lisboa veio a público apoiar e reforçar a opção do bispo e do Santuário. Numa nota dirigida ao clero, publicada na página do Patriarcado na internet na passada segunda-feira, Dom Manuel Clemente defendeu que é necessário manter a suspensão das celebrações comunitárias, “a bem da saúde pública”, pois “o fim do estado de emergência não significou o fim da pandemia e do grande perigo de ela alastrar”, se não se mantiver “o cuidado necessário”, afirma o cardeal-patriarca. 

“O Governo não autorizou celebrações religiosas em geral até ao fim deste mês” e “o Santo Padre pediu para todos nós a graça da prudência e da obediência às orientações oficiais, para que a pandemia não regresse”, sublinha Dom Manuel.

“Custa-nos certamente, mas temos de cumprir, a bem da saúde pública. Atentos ao bem de todos e de cada um, com o cuidado que a sua vida nos requer, da saúde do corpo à do espírito, totalmente considerada e respeitada, para ser vida em abundância”, escreve o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Na “Carta aos sacerdotes ao serviço no Patriarcado de Lisboa”, Manuel Clemente refere que o adiamento, para 30 de Maio, do “regresso das celebrações comunitárias da Missa” constitui uma “dificuldade” para si, mas que tem de ser assim, “a bem de todos”, reconhece.

“Como vós, fui formado para acompanhar presencialmente o Povo de Deus, em especial na celebração eucarística e demais sacramentos, cuja administração nos define e realiza. Assim voltará a ser, logo que possível, como o Povo de Deus tanto anseia, e nós com ele”, acrescenta o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

“No que nos cabe, defendemos a saúde dos fiéis e anunciamos a vida ressuscitada de Cristo. Essa mesma que não precisa que lhe abram a porta para se manifestar perto ou longe”, refere ainda Dom Manuel Clemente, que saúda os sacerdotes pela “dedicação demonstrada ao Povo de Deus”.

Especialmente, destaca o cardeal-patriarca, “neste tempo difícil, em que a presença física tem de ser quase substituída pelos meios de comunicação, antigos e novos, ao nosso alcance. Tem sido grande a vossa acção e criatividade neste sentido”. ■