João Galamba, o cavaleiro do hidrogénio no Portugal moderno

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É conhecida a relação difícil que o secretário de Estado João Galamba tem com a verdade. Não surpreende, portanto, que numa recente entrevista à SIC, as suas primeiras palavras tenham sido para acusar os quarenta subscritores do “Manifesto para a recuperação da economia” de defensores da energia nuclear. No final da entrevista, ficou-se por acusar que talvez houvesse um defensor da energia nuclear entre nós, porventura um amigo de Chernobil, digo eu.  Mas com a mesma ética republicana usada no PS de António Costa, poder-nos-ia também chamar militantes da extrema-direita, racistas e xenófobos. Está na moda e paga dividendos.

Igualmente e com igual rigor, passámos a ser inimigos das energias renováveis, desde as hídricas de Salazar às eólicas e solares de José Sócrates. Porquê? Não se sabe. De facto, sempre defendemos as energias renováveis e nem no primeiro Manifesto de há anos, nem neste, alguma vez fomos seus adversários, temos até defendido, como poucos, a biomassa. 

Somos, é verdade, contra o que João Galamba e os amigos do PS têm permitido, a mais cara energia da Europa medida em unidades de poder de compra, à custa das empresas, das famílias e da economia portuguesa. Como somos também contra as rendas pagas pelos portugueses através da obrigação de compra de toda a energia produzida a preços de amigo fixados pelos governos socialistas. Há anos, nos tempos de António Guterres, ameaçaram-me por carta com o Tribunal, por ter escrito que o preço fixado para a energia eólica era demasiado elevado, um preço de amigo. Nunca o fizeram, sabiam bem o que tinham cozinhado.  

Aliás, o ex-secretário de Estado de António Costa, Jorge Seguro Sanches, que pretendia mudar o sistema e reduzir o défice tarifário, foi mandado embora rapidamente para dar lugar a João Galamba, devoto defensor dos negócios existentes no sector energético, agora sobre a nova designação de hidrogénio. Foi aliás para isso que António Costa tirou o tapete ao Bloco de Esquerda, na véspera da votação da Assembleia da República da redução de algumas rendas pagas à EDP e que agora estão em tribunal. Diga lá, António Mexia, quem é amigo, quem é?

Na entrevista a João Galamba, o secretário de Estado justificou o devaneio energético com a decisão da União Europeia, o que, não sendo verdade, nem é o mais importante. Mas fica a pergunta: qual a razão para tanta energia no momento exacto em que a economia portuguesa se afunda devido ao COVID-19?  Como resposta, não consigo fugir a recordar os anteriores negócios do PS – La Seda, OI, Vale do Lobo, Químonda, PT e a gestão bancária dos amigos Carlos Santos Ferreira e Armando Vara na Caixa Geral de Depósitos e no BCP. 

Infelizmente, a reconversão à modernidade do PS não deu para João Galamba comentar as propostas do Manifesto sobre o tema do desenvolvimento económico. Compreende-se: depois do lítio, é o hidrogénio que está a dar.

João Galamba parece desconhecer que o seu Governo já mandou às urtigas anteriores decisões da União Europeia, como é o caso do corredor Atlântico na ferrovia, com a perda de milhares de milhões de euros de subsídios europeus e a dependência das exportações portuguesas dos humores dos amigos socialistas espanhóis, interessados em condicionar as mercadorias portuguesas de chegarem, por meios nacionais ou europeus, à Europa, sem a ajuda das plataformas logísticas que construíram ao longo da nossa fronteira. Por alguma razão a Espanha está a ligar a sua rede ferroviária a França através de duas linhas de mercadorias e passageiros em bitola UIC – País Basco e Catalunha, esta já terminada – ao mesmo tempo que electrificam e modernizam as linhas junto à fronteira portuguesa em bitola ibérica.  

Devem ser muito estúpidos estes espanhóis, para já terem gasto mais de vinte mil milhões de euros em novas linhas de bitola UIC e não verem as vantagens da modernidade portuguesa de António Costa, João Galamba e Pedro Nuno Santos, em manter a bitola ibérica. Será este o crime de que João Galamba fala?

Como espero que João Galamba venha a descobrir, tratou-se de uma escolha do seu Governo, modernaça, está bem de ver, e tecnologicamente muito fixe, uma verdadeira ferrovia do século XIX. Diga lá o senhor secretário de Estado, não é verdade que esta ferrovia nem na Amazon se consegue comprar? Será que temos de nos contentar com os comboios da sucata espanhola? Parece que o preço é bom, mas não acha que isso mancha a sua reputação de grande defensor das mais avançadas tecnologias?

Claro que o senhor secretário de Estado é muito amigo do ambiente e detesta o CO2. Eu também sou. Por isso, vamo-nos a eles, senhor secretário de Estado: autocarros, só eléctricos ou a hidrogénio; comboios a diesel, acabe-se com eles, já; vamos todos comprar carros eléctricos – eu não preciso, já tenho – mas o senhor pode ajudar com uma pequena ajuda semelhante aos incentivos dados à EDP e ao Pimentinha. Veja, será um sucesso. 

Finalmente e de uma penada, ao aceitar a versão ferroviária da União Europeia, o senhor retira da estrada, a cada dia que passa, milhares de camiões portugueses, que levam as nossas exportações para a Europa e recebemos um prémio ambiental de consolação, segundo diz o vosso consultor Dr. António Costa Silva,  que é acabar com os voos entre Lisboa e o Porto e entre Lisboa e Madrid/Barcelona. Ele diz que vão ser proibidos, veja lá. No processo, os camionistas portugueses deixam ainda de comprar o combustível em Espanha e o País Basco, onde já estão a afiar a faca para impor taxas aos camionistas portugueses, fica sem a receita prevista.    Além, veja só, quanto CO2 que não será pago.

Veja também que na Europa, ainda sem hidrogénio, portanto bastante atrasada, já há camiões transportados sobre plataformas ferroviárias, que permitem a entrega de mercadorias com grande rapidez, porta a porta, o que dava um jeitão aos exportadores portugueses, dada a maior distância percorrida pelos nossos camiões. Mas deixe lá, eu compreendo que não seja uma solução suficientemente moderna para o seu pensamento estratégico e o senhor prefira que os comboios europeus não possam entrar em Portugal com essa solução, ou qualquer outra. Claro que o monopólio amigo do seu Governo, a MEDWAY, agradece, ainda que os exportadores portugueses fiquem, realmente, a ver navios em Sines e em Leixões.

São tudo coisas do Portugal moderno e muito avançado da dupla António Costa e João Galamba. Mas, sabe uma coisa, senhor secretário de Estado, só não percebo a razão por que, com o seu pensamento moderno e avançado, ainda não pensou em juntar-se aos seus camaradas Fernando Medina e Pedro Nuno Santos na corrida para Primeiro-Ministro, quiçá Presidente da República. Sabe que neste Portugal moderno e avançado em que o senhor habita, tudo é possível. ■