O documento de estratégia do Dr. António Costa Silva

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Tenho à minha frente o texto do Dr. António Costa Silva, encomendado pelo Primeiro-Ministro e intitulado “Visão estratégica para o plano de recuperação económica e social de Portugal 2020-2030”.

Como aqui previ anteriormente, o Dr. António Costa Silva, que não conheço, deve ser uma pessoa como uma excepcional cultura e a leitura do seu trabalho confirma-o. Trabalho que, pela sua vastidão, pela cobertura que faz da esmagadora maioria das questões em debate nas sociedades do nosso tempo, me parece de extraordinária importância, para qualquer governo, universidade e instituição pública ou privada, que pretenda discutir o futuro de Portugal e do planeta. Já agora, faria também um belo e instrutivo programa de Governo se feitas algumas escolhas. Um palavra para dizer que a maior crítica que já li acerca deste trabalho, de que o texto não apresenta números, não tem razão de ser. Não apresenta, nem o devia fazer num texto que se apresenta como uma visão estratégica e não é um plano de execução.

Infelizmente, também não é uma estratégia, podendo ser apenas uma visão. Não é ainda o que Portugal precisa para minimizar os seus enormes problemas económicos e sociais que teremos de enfrentar no final da presente pandemia. E não é seguramente útil como estratégia para o País, dado que qualquer estratégia implica a escolha de um caminho entre muitos caminhos diversos. Ora escolhas é o que não existe neste texto de 118 páginas, onde há ideias para todos os gostos. 

Não acredito que o Dr. António Costa Silva não saiba o que é estratégia, tema que já aqui tratei várias vezes, na tentativa de explicar a importância da estratégia para uma empresa ou para uma Nação. Já aqui defendi o valor excepcional da proposta de estratégia para Portugal, incluída na Carta Magna da Competitividade da AIP, publicada em 2003. Que aqui republiquei, pelo que será conhecida dos leitores. Também já aqui falei de algumas outras experiências estratégicas, em particular do Japão.

Devo dizer que não conheço nenhum outro momento na história dos povos tão trágico e tão relevante para olhar o futuro, como o Japão em 1946, e tão admirável a estratégia definida para o futuro de uma Nação. Em 1946, o Japão tinha perdido a guerra, tinha vivido a experiência da total destruição de duas das sua principais cidades com explosões nucleares, morreram milhões de japoneses, a sua economia estava destruída, a fome e a desgraça via-se a olho nu nas ruas do Japão. Foi o tempo em que milhares de japoneses preferiram suicidar-se a voltar a viver. Pior de tudo para a cultura japonesa, o Japão tinha perdido a honra. Felizmente, Portugal de 2020 não é nada disto, apesar da enorme crise que temos à porta.

No Japão, nesse tempo de desespero, houve um pequeno grupo de japoneses admiráveis, que se juntaram no Ministério da Indústria para discutir o futuro do Japão e que ao fim de alguns meses de debate publicaram o seguinte: “No futuro a tecnologia representará o papel principal na economia japonesa”. “O sentido principal da reconstrução da economia japonesa é na direcção da democratização da economia e na elevação dos níveis tecnológicos”. 

Estou certo que nenhum japonês ficou sem saber qual seria a direcção proposta para a recuperação do Japão. Tenho dúvida de que isso possa acontecer com a dissertação do Dr. António Costa Silva, 

Dez anos mais tarde, em 1956, os mesmos japoneses voltaram a reunir, e depois de muito debate – um exemplo desse debate era se o Japão deveria ter ou não uma indústria automóvel – voltaram a publicar o seguinte: “O período do após guerra terminou”. “O aumento do investimento através da inovação tecnológica será o elemento principal do crescimento económico”.

Dez anos passados, adicionaram uma palavra ao exercício anterior, e que palavra: “inovação”. Em dez anos tinham aprendido a importância da tecnologia norte-americana que ganhara a guerra, estavam agradecidos pelas transferências de tecnologia que receberam dos Estados Unidos, mas souberam definir que a partir daí a tecnologia seria japonesa. 

Sei que existem importantes diferenças culturais entre Portugal e o Japão, mas também sei da inutilidade do documento do Dr. António Costa e Silva para unir os portugueses e a economia ao redor de uma ideia força para superar a crise. Na melhor das hipóteses, o documento será debatido, criticado, abençoado e coisas tais, para depois morrer nas gavetas dos vários ministérios deste, ou de qualquer outro governo. Como diria António Guterres, é da vida, mas ainda bem, porque que direcção tomar entre tantas as direcções propostas? 

Também não vou deixar passar que o documento está cheio de contradições; e espero que não, mas vejo lá muitos favores ao pensamento dominante do actual Governo. Digo isto porque respeito suficientemente o Dr. António Costa e Silva para aceitar que muitas das contradições e dos jeitos sejam da sua lavra. Por exemplo, escolho apenas o caso da ferrovia, em cujo debate tenho participado. Como é possível fazer propostas para a ferrovia e fugir a falar da bitola? Ou como é possível propor a modernização da linha de Lisboa ao Porto em alta velocidade sem definir o que isso quer dizer tecnologicamente? Ou como é possível desconhecer que a linha anda em modernização há vinte anos, esquecer o dinheiro já lá consumido com as obras numa linha férrea em pleno funcionamento? Ou como é possível não exercer a comparação com uma linha nova, quer em termos tecnológicos quer económicos? Como é possível falar dos planos europeus para o Corredor Atlântico, cujo objectivo, como sabemos, é a interoperabilidade e a liberalização do mercado ferroviário em toda a Europa, sem apoiar, ou discutir, a opção dos governos portugueses de manter a bitola ibérica, isto é, fazer de Portugal uma ilha ferroviária? 

Para ser franco, não me parece muito sério que o Dr. António Costa Silva deixe na sua obra amontoar todos estes equívocos sem os enfrentar, ou sem explicar como compatibilizar as diferentes opções em presença. Porque se existem, devem ser expressas e enfrentadas. Há, claro, uma alternativa conhecida, mas então que seja expressa. Trata-se da entrega, em território espanhol, aos operadores espanhóis e, eventualmente, europeus, das exportações portuguesas para a Europa. Se é isso, pelo menos tenha a coragem de o dizer, afim de passarmos todos a uma outra fase de discutir as implicações nacionais dessa opção.

As contradições do texto do Dr. António Costa Silva não se ficam pela ferrovia, estão bem distribuídas ao longo das 118 páginas do documento, mas preciso de mais tempo e de mais espaço e a isso voltaremos. Entretanto, no meu próximo artigo, apresentarei a minha própria versão de visão estratégica para a recuperação económica e social. Menos erudita certamente, mais curta de única página, sem dúvida, mas mais consequente, posso afirmar. Espero que o Dr. António Costa Silva queira fazer a comparação. Em debate público. ■