O fascínio da nobreza

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Em países europeus republicanos, é comum a manutenção dos títulos de nobreza na identificação de famílias. Casos da Itália e França, por exemplo. Já em Portugal a prática está em certo desuso, embora o espírito monárquico continue vivo. No Brasil, acabou de vez, não se tendo notícias de pessoas vivas em função dos títulos de seus maiores. Restou apenas a Família Imperial e a presença na história de referências do Império, como o Duque de Caxias, único título de duque concedido por Pedro II, que é o Patrono do Exército, e o Marquês de Tamandaré, Patrono da Marinha do Brasil. A princesa Isabel mais de uma vez foi escolhida por júris populares como “a maior das brasileiras”.

Entre os anos de 1815 e 1822, quando existia o reino de Portugal, Brasil e Algarves, os títulos dados por D. João VI, quando no Rio de Janeiro, foram poucos, quase todos confirmados por Pedro I depois. Entre estes títulos, estão os de Conde da Palma, de 1810, Barão do Rio Seco, depois elevado a Visconde e promovido por Pedro I a Marquês de Jundiaí. Casos curiosos envolvendo mulheres foram os da Baronesa de São Salvador de Campos, que recebeu o título ao ficar viúva, e do Visconde de Mirandela, por ter se casado com a viúva do antigo visconde.

Os duques eram sempre membros da Família Imperial, inclusive a Duquesa de Goiás, filha do Imperador com a Marquesa de Santos. Pedro II, como já referido, só concedeu fora da família o título a Duque de Caxias.

Nos 67 anos de Monarquia no Brasil, de 1822 a 1889, foram concedidos títulos de nobreza a 986 pessoas, raros casos em mais de uma geração, mas muitos filhos de titulares falecidos ou não. Caso único de natural que não fosse de Portugal ou do Brasil foi o do Almirante Lorde Cochrane, criador da Armada do Brasil, Marquês do Maranhão, que tinha também título escocês. O almirante foi o responsável pela esquadra que D. João VI constituiu para a tomada da Guiana Francesa. 

Os títulos eram conferidos por diversos motivos, como em reconhecimento a serviços de militares, diplomatas, artistas, comerciantes, donos de propriedades rurais, servidores do Estado. Incluiu mais de um com ancestrais africanos, filhos de escravos alforriados, negros ou mestiços. E estes tinham escravos.

Não foram poucos os antigos ministros e titulares do Império a servirem a governos republicanos, sendo que pelo menos um deles não abriu mão do título e nesta condição foi ministro dos negócios estrangeiros por dez anos republicanos. Trata-se do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira.

A presença do período monárquico na vida brasileira é imensa, pela quantidade de logradouros públicos com denominações de titulados do Império, e o uso dos títulos de “rei”, “rainha”, “imperador” e “imperatriz” pelas escolas de samba e restaurantes especializados, assim como a denominação de “príncipe” para designar homem elegante, educado, culto.

O impacto da ausência de títulos com o advento da República foi tão grande que perdurou durante décadas a nostalgia dos tempos passados, sendo que muitos brasileiros, entre 1910 e 1929, receberam títulos de conde, da Santa Sé. Entre eles, o filho do Visconde de Ouro Preto, último primeiro-ministro do império, Conde de Afonso Celso, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Ernesto Pereira Carneiro, que foi o dono por quase 40 anos do Jornal do Brasil, do Rio, o Conde Cândido Mendes, educador, e o comerciante português Modesto Leal. Nos anos 1930, muitos italianos que enriqueceram em São Paulo obtiveram títulos italianos, concedidos pelo Rei Vittorio Emanuele, por indicação do Duce, pelas vultosas doações para a construção de hospitais e escolas na reconstrução italiana daqueles anos. Foram por exemplo as famílias Matarazzo e Crespi, cada um com três títulos. ■