Os erros dos governos pagam-se neste mundo

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Como escrevi antes, as dificuldades do ministro da Economia em se entender com a cultura partidária dominante no Governo era previsível, porque apesar de ter criticado o seu plano inicial de recuperação e resiliência, nunca tive dúvidas de que António Costa Silva seria sempre uma carta fora do baralho. Trata-se de alguém com experiência no funcionamento da economia e não pode concorrer com o grupo de imaturos técnicos de actividades partidárias, para mais habituados a efabular acerca do que pretendem vender aos portugueses. E ainda que em economia a mentira acerca do que se pretende vender raramente dê resultado, o facto é que o PS tem, pelo menos, convencido muitos portugueses.

António Costa Silva está habituado a lidar e a tomar decisões com base na realidade económica, mas os nossos governantes se o fizessem perderiam a próxima eleição, a mentira é a base da sua sobrevivência. O que provavelmente não aconteceria, apesar de tudo, se a balança do Governo tivesse maior peso em profissionais com experiência da actividade empresarial e da economia nacional e internacional. Aliás, na presente discussão sobre o Orçamento do Estado é bem visível a clivagem de opiniões entre os que fazem da política profissão e os que têm ou tiveram uma vida profissional.

Neste contexto, será porventura pedagógico recordar os erros, muito deles óbvios, cometidos pelo Governo do PS de António Costa, mas também a continuação dos erros dos anteriores governos socialistas, erros que qualquer empresário ou dirigente de empresa dificilmente cometeria. Por exemplo:

Energia

Sucessivos governos socialistas apostaram nas energias renováveis quando estas estavam no ponto mais alto do seu custo na curva de desenvolvimento da tecnologia e, não contentes, fizeram isso com prazos contratuais tão longos que ainda hoje estamos a pagar preços que nada têm a ver com os preços de mercado. Como há seca e os preços disparam, a solução foi o erro de fechar as centrais a carvão e passar a importar a electricidade de Espanha. Por coincidência, o ministro da ideia foi para um novo emprego numa firma de advogados, onde pode facturar ao Estado pelo que aprendeu no ministério.

Parcerias público-privadas

Por alguma estranha razão este Governo acabou com as parcerias público-privadas da saúde, que o Tribunal de Contas reconheceu terem sido favoráveis ao interesse público, e manteve, sem discussão, os escandalosos pagamentos das parcerias das auto-estradas.

Modelo económico

A paixão dos governos do PS e também de alguma oposição pelas pequenas e médias empresas é bastante irracional, nomea-
damente quando se trata de uma esmagadora maioria de empresas comerciais, e são em número tão elevado que representam mais de noventa por cento da totalidade das empresas existentes, sendo que praticamente todas concorrerem apenas no mercado interno. A baixa produtividade é evidente, os salários são de miséria e o nível de concorrência é tão brutal que apenas dá para a mera sobrevivência. Trata-se de um modelo económico desastroso, de dimensão excessiva e que não faz qualquer sentido. Ao mesmo tempo é insuficiente o número de grandes empresas industriais e o investimento estrangeiro na indústria praticamente desapareceu. Todavia, não há discurso político que não seja dirigido ao elogio das PMEs, como não há discurso que não implique maiores dificuldades e mais custos para as grandes empresas. Agora, até descobriram que há empresas que têm lucros excessivos, lucros que aparentemente não têm desculpa, mesmo que esses lucros tenham sido obtidos em países estrangeiros. Ou mesmo que o nível de concorrência seja elevado, como é o caso dos supermercados, mas não faz mal, levam com mais um imposto para aprenderem a não terem lucros.

Educação

A paixão do PS pela educação esmera-se principalmente no ensino superior, mesmo que seja evidente que entre os que lá chegam muitos estão insuficientemente preparados, um grande número não tenha o aproveitamento suficiente e que, em qualquer caso, sejam poucos os licenciados em comparação com o que se passa noutros países da União Europeia. Ao mesmo tempo, como prova de dedicação ao ensino superior, os pais que queiram e possam dar uma boa educação aos filhos pagam propinas superiores no ensino pré-escolar do que na universidade. Quanto aos muitos filhos das famílias pobres, esses não têm creches, ou pré-escolar público de qualidade, ficam a ver televisão e chegam aos seis ou sete anos ao ensino obrigatório marginalizados relativamente aos seus colegas mais afortunados. Além disso, há que facilitar a vida das criancinhas evitando a maçada dos exames.

Trabalho

O trabalho para o PS é sacrifício e trabalhar menos é a finalidade que o partido reserva aos trabalhadores portugueses, se possível, para já, trabalhar quatro dias por semana. Trabalhar menos e com melhores salários é para o PS a direcção certa, ainda que a economia portuguesa se recuse a crescer e a providenciar tão nobre fim, culpa dos empresários ignorantes certamente. Uma das primeiras medidas de António Costa, logo que chegou ao poder, foi reduzir o horário dos funcionários públicos e se depois começaram a faltar médicos e professores e a morrer mais portugueses por falta de tratamento nas listas de espera, isso é da vida, como diria o socialista António Guterres. Ou que estejamos cada vez mais dependentes daqueles que trabalham na União Europeia, não é fonte de preocupação e desde que chegue a “bazuca”, António Costa vai ao banco.

Ferrovia

O Governo do PS discorda da ideia de Bruxelas de tornar todo o sistema ferroviário da União Europeia interoperável e prefere que Portugal seja uma ilha ferroviária, porque dessa forma não há concorrência e a empresa “Medway” fica com o monopólio do transporte de mercadorias, em Portugal e no que resta de bitola ibérica em Espanha. A CP, por sua vez, fica com o monopólio dos passageiros e com os resultados que se conhecem. Santa vida, os espanhóis devem ser estúpidos por ao longo de trinta anos terem investido, com a ajuda dos fundos europeus, muitos milhares de milhões de euros numa nova rede de bitola UIC. Que por isso o investimento industrial estrangeiro fique em Espanha, não é coisa que o Governo queira comentar.

Com este receituário de asneiras não surpreenderá que Portugal caminhe apressadamente para a cauda da Europa. Trata-se de asneiras por demais evidentes para qualquer ser pensante, todavia não para o Governo e para muitos dos seus apoiantes. Claro que eu gostaria, como muitos outros portugueses, de debater cada uma destas asneiras, mas sei de certeza certa de que não teremos essa oportunidade. Assim vai a democracia portuguesa.

Nota

A Roménia acaba de assinar um acordo com a União Europeia para financiar em mais de 900 milhões de euros a modernização da sua ligação ferrovia em bitola UIC com a Hungria.