Políticas ambientais inteligentes e não a morte da economia

0
191

O futuro de Portugal, porventura mais do que o de outros países, está a ser muito influenciado pelas questões ambientais, o que se deve a interesses económicos e financeiros estabelecidos no país e a uma filosofia fortemente ambientalista da União Europeia, que impôs aos Estados-membros valores mínimos da bazuca para gastar em projectos ambientais. Depois das asneiras portuguesas dos últimos vinte anos, temos agora as asneiras europeias. 

Estou longe de ser um especialista da matéria, mas tenho há muito uma posição clara: apesar de não estar cientificamente demonstrada a existência de todos os perigos que dizem existir para o planeta resultantes da acção do homem, resolvi dever assumir uma posição de prudência e fazer o possível para minimizar os riscos racionalmente demonstráveis. 

Por isso adoptei com naturalidade todos os procedimentos possíveis de um ambientalista responsável, desde comprar um carro eléctrico a separar os lixos para reciclagem. Além disso, publiquei ideias sobre formas de proteger o planeta, que, infelizmente, ninguém quis, ou quer, ouvir. Por exemplo: chamei a atenção do absurdo que é permitir que o crude lançado ao mar não seja ali recolhido e se o deixe chegar a terra, o que seria tecnologicamente fácil de evitar; como empresário, apresentei a algumas empresas clientes ideias de electrodomésticos para as nossas cozinhas, ou máquinas para as garagens dos prédios, equipamentos destinados a recuperar os resíduos de plástico, vidro e metal, moídos e prontos para reutilização como matéria-prima. Seria fácil, mas não se faz.

Há anos apresentei no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, uma comunicação, explicando porque não é feito, acreditando ter demonstrado que é a incapacidade de inovação dos governos que impede a solução de muitos problemas ambientais, que não são resolvidos apenas porque as empresas, grandes ou pequenas, não têm o poder de organizar todo o sistema, organização que depende do poder político. Dei exemplos: a recolha do crude no mar; a existência nas garagens dos novos prédios de equipamentos de recolha e reaproveitamento dos lixos sólidos; a ferrovia e os transportes colectivos, que só parcialmente utilizam energia eléctrica; a substituição do avião pela ferrovia em distâncias até mil quilómetros; a inexistência nas grandes cidades de sistemas eficientes de transporte colectivo, em que o Metro deve assumir a liderança; a ausência de transporte escolar para as crianças e para os jovens, de forma a poupar energia e a retirar essa função cansativa e cara a milhões de famílias; ou, porque não, tornar obrigatória a reciclagem dos automóveis em fim de vida pelas empresas que os produzem, em fábricas criadas para o efeito. 

Os exemplos não têm fim, existem soluções científica e tecnologicamente possíveis, mas que os governos desconhecem e não fazem nem deixam fazer. Infelizmente, a política é a arte da sobrevivência no poder e não da inovação e da mudança. Nos governos raramente existe o desejo, ou a competência, de organizar as ideias e os recursos existentes. 

De facto, muitos dos problemas que preocupam os ambientalistas não são resolvidos, apesar de haver disponíveis as tecnologias necessárias, porque os governos não organizam a sociedade no sentido de transformar ideias e iniciativas em realidade, porque o poder reside nos governos, mas o conhecimento está nas empresas. 

Para explicar esta realidade fiz a demostração através de um texto a que chamei as “Três Fases da Inovação”: (1) fase da Vinci, onde a inovação não foi realizada porque havendo financiadores e havendo inovadores não estavam disponíveis as tecnologias necessárias; (2) fase Edison, quando quase tudo que foi pensado foi realizado, porque havia inovadores e financiadores, mas então, também, as tecnologias necessárias, o que permitiu um período de ouro no progresso humano e a chamada revolução industrial, que mudou o mundo; (3) finalmente, a fase contemporânea, em que continua a haver inovadores e empresas financiadoras, além de todo o tipo de tecnologias disponíveis, mas apenas aproveitadas para a inovação empresarial e não pelos governos. Quando essas realizações ultrapassam o poder das empresas e dependem do Estado ou de um conjunto de Estados, nada feito e é aqui que reside o principal problema ambiental.  

Em Portugal, o fundamentalismo ambientalista e ignorante, além de, não poucas vezes, corrupto, tem ajudado a empobrecer o país e nada realiza de inteligente para defender o meio ambiente. Verifica-se na energia, nos transportes, nos rios, na floresta, na ausência de reciclagem, no investimento inútil, no fecho de empresas necessárias à economia, no desaproveitamento da capacidade científica do país. Não admira, basta ouvir o discurso pretensioso e ignorante do actual ministro do Ambiente para compreender a falência da governação neste domínio. O projecto governamental do hidrogénio fala por si, uma decisão que vai empobrecer ainda mais os portugueses que já pagam uma das energias mais caras do mundo.

Há anos, no tempo dos governos de António Guterres, escrevi em texto em que acusava um secretário de Estado de favorecer os amigos, ao fixar um preço e um prazo absurdo de vigência dos contractos para a produção da energia eólica. Escreveu-me uma carta a ameaçar que me colocaria um processo se não recuasse na acusação. Respondi-lhe que teria muito gosto em discutir o assunto em tribunal e até hoje, nem resposta nem processo, o que não evitou que os tais amigos tenham enriquecido e o Governo de António Costa os continue a enriquecer através de uma insustentável e absurda política energética.

No actual Governo ninguém se preocupa – os que se preocupavam foram despedidos – que o custo da energia retire competitividade às empresas, reduza exportações, mate o emprego, ajude a política de baixos salários e deixe as famílias portuguesas a tiritar de frio nas suas casas. A chinesa EDP e os Pimentinhas que por aí andam agradecem a amabilidade. Fecham-se as centrais a carvão porque sim, ainda que a Espanha nos venda a electricidade das centrais a carvão de Marrocos, a Polónia decida manter as suas muitas instalações por mais trinta anos e a Alemanha acabe de inaugurar uma central destas, novinha em folha. 

Se o Governo de António Costa se desse ao trabalho de pensar, saberia que a pobreza é o maior inimigo do ambiente, porque é nos países mais pobres do globo que a população cresce a um ritmo insustentável e que esse crescimento causa inúmeros problemas à gestão mundial do ambiente. Como não sabe, ou não procede como tal, que o empobrecimento dos portugueses, num país que contribui apenas com 0,15% da poluição mundial, não vai resolver o problema global. Ou seja, ninguém defende que não nos preocupemos com os problemas do ambiente, mas apenas que usemos a cabeça para aquilo que ela serve, para que entre factores contraditórios se encontrarem as melhores soluções para não afectarem a economia e o nível de vida dos povos. Também, de preferência, sem o favorecimento dos amigos e sem fundamentalismos ideológicos. ■