Como aqui previ anteriormente, Paulo Rangel perdeu o seu tempo e algum prestígio na sua candidatura à liderança do PSD, quando poderia ter ajudado a unir o partido nesta fase determinante da tarefa de salvar Portugal do Partido Socialista. A unidade das diversas correntes existentes no PSD deveria ter sido a tarefa principal do partido, como aqui também defendi, razão que me leva a lamentar a frequência com que muitos políticos e comentadores portugueses não vêem o óbvio.
Agora, com vista às eleições de 30 de Janeiro, há que juntar o que ainda possa ser junto para uma oposição credível ao PS, o que nem sequer é difícil. De facto, nem é preciso evocar o passado, desde a incompetência que esteve na origem dos fogos de 2017, o passado dos governos de José Sócrates, a estagnação económica de mais de vinte anos ou a ultrapassagem que nos é feita pelo desenvolvimento dos países da antiga “Cortina de Ferro”, agora libertos das lendas que estiveram na base das ideias do PCP e do Bloco de Esquerda.
Para debater os diferentes projectos em presença e para ambicionar ganhar as eleições, basta olhar para o presente: (1) a corrupção existente que irrompe por todo o lado, protegida pelas políticas amigas e pelas amizades pessoais do PS; (2) o desastre da política energética e a correspondente subida dos preço sem a redução dos impostos; (3) os interesses ilegítimos que estão por detrás da ideia desastrada de uma ferrovia de bitola ibérica; (4) a ignorância funcional do Governo e do ministro Pedro Nuno Santos na gestão do caso TAP, a braços com a necessidade de financiamentos astronómicos mais ou menos permanentes e com uma União Europeia que, por filosofia e por necessidade prática, nunca aceitará pagar o custo da empresa; (5) o fecho das centrais de Sines e do Pego no momento exacto da grave crise energética que enfrentamos e quando a EDP reabre, a pedido do governo espanhol, a central a carvão de Cádis; (6) a recusa do PS em alterar as leis eleitorais, que permitam a democratização do regime e o voto livre de todos os portugueses; (7) a necessidade de investimento, nacional e internacional, com vista ao crescimento económico e à criação de empregos, investimento até aqui impedido pelas políticas fiscais e pelo desconforto do PS para com as empresas; (8) um Serviço Nacional de Saúde tornado incapaz de responder às necessidades de saúde dos portugueses pelas políticas atrabiliárias do PS, incapaz de se tornar numa organização moderna e satisfatória para utentes e profissionais; (9) o papel negativo do Estado no processo de desenvolvimento económico e na liberdade e responsabilidade de iniciativa da sociedade.
Estamos a cerca de 60 dias do voto dos portugueses, tempo que julgo suficiente para que Rui Rio possa colocar no debate político propostas claras sobre estes diferentes temas e sobretudo o que o PSD se propõe fazer para fomentar o crescimento económico. Pessoalmente, considero ser urgente que o futuro governo leve em conta a existência de duas economias, uma economia moderna e relativamente competitiva nos mercados internacionais e uma segunda economia constituída por muito pequenas empresas que sobrevivem no mercado interno, cuja função é mais social do que económica. Esta segunda economia emprega trabalhadores com muito fracas qualificações, cujo futuro não é risonho tal como existe, sendo urgente a redução da sua dimensão e a qualificação dos seus trabalhadores de forma a permitir a sua transferência para a primeira economia, no sentido de melhorar os salários e aumentar as exportações. Segue-se que nenhum país da nossa dimensão pode sobreviver economicamente com um nível de exportações inferiores a 60%, (a Irlanda exporta mais de 100%) quando Portugal não passa dos 40%.
No texto que escrevi recentemente como alternativa ao PRR, defendi que a política portuguesa se deve concentrar em poucos objectivos estratégicos, em vez de dispersar os investimentos, como faz o documento do Governo. Nesse sentido, concentrei as minhas propostas apenas em três temas principais: educação, industrialização e crescimento das exportações. Não foi um acaso, são os sectores que estiveram na base dos dois mais bem-sucedidos períodos da nossa história económica do século XX: adesão à EFTA e o PEDIP/AutoEuropa. Dois períodos que tiveram a sua origem nos mesmos factores: investimento estrangeiro destinado à indústria e direccionado para o mercado externo.
Uma nota para recordar que a indústria é o sector da economia cujo crescimento permite criar mais empregos para os trabalhadores menos qualificados da nossa segunda economia, através de muitas tarefas repetitivas e de mais fácil e mais rápida formação. Quanto à educação, a principal prioridade que defendo reside nas creches e no pré-escolar, porque é aqui, nos primeiros anos de vida das nossas crianças, que podemos interromper de vez o círculo vicioso da pobreza e da ignorância que sobrevive nas famílias mais marginalizadas da nossa sociedade. Ou seja, é um investimento que só se faz uma vez, numa geração, a partir daí são as famílias, libertas da pobreza e da ignorância, que terão as condições de tratar da educação dos seus filhos.
Qualquer que seja o novo Governo que resulte das eleições de 30 de Janeiro, defendo que deva concentrar o investimento nos objectivos estratégicos que melhor possam contribuir para a mudança do paradigma de crescimento económico. Sabemos todos que as carências nacionais são muitas e profundas, mas deveremos ter a consciência de que, por isso mesmo, não temos tempo para dispersar esforços e investimentos.
É esta também a razão porque há muitos anos defendo a vantagem de se definir uma síntese estratégica, que com base em poucas palavras qualquer pessoa possa compreender a principal direcção assumida pelo país. Em Portugal é frequente a queixa, a meu ver verdadeira, de que estamos a caminhar sem Norte e que isso faz com que não saibamos para onde vamos, ou, pelo menos, que a generalidade dos portugueses não saiba. Por exemplo, muitos dos investimentos feitos nas últimas duas décadas foram contraditórios entre si, investimos massivamente na rodovia quando teria sido mais acertado apostar na ferrovia, fizemos uma aposta excessiva na energia eólica, quando teria sido mais acertado apostar na solar, etc.. Precisamos de um sentido de direcção claro, para evitar que estejamos permanentemente atrasados em relação aos acontecimentos futuros que não previmos. Será uma sorte que o novo Governo que saia das eleições de Janeiro próximo leve isso em conta, o que só por si teria efeitos determinantes no melhor uso dos nossos recursos.
Em resumo, justifica-se a esperança que os eleitores portugueses votem massivamente e o façam com a compreensão que já perdemos vinte anos de desenvolvimento económico e social devido à má governação e não podemos continuar na mesma direcção a desperdiçar os recursos nacionais. ■




