Uma questão de estratégia

HENRIQUE NETO
HENRIQUE NETO
Henrique José de Sousa Neto é um empresário e antigo deputado à Assembleia da República, eleito pelo Partido Socialista.

Na semana passada dediquei este espaço ao tema que será, porventura, o mais determinante no futuro de Portugal e dos portugueses: qual a estratégia que nos pode conduzir ao progresso e ao desenvolvimento. Presentemente, o Partido Socialista tem apenas uma estratégia conhecida: manter o poder até 2026 e tentar ganhar as próximas eleições legislativas. Independentemente da actual e das futuras lideranças, esta é a estratégia de todos os socialistas, independentemente das suas várias tendências, o objectivo é manter a grande família socialista no poder e por excelentes razões: preservar o seu poder sobre a máquina do Estado e sobre os empregos e as mordomias que o Estado comporta.

Que Sistema de Educação, que Sistema Nacional de Saúde, que Sistema de Justiça, que Estratégia para o Território, que Modelo Energético, que Logística, são tudo buracos negros cujas opções ninguém conhece e onde a prática é contraditória. Na economia, se baseada, como agora, em mais de noventa por cento de pequenas empresas, a maioria comerciais e de baixa produtividade, ou uma economia com base em grandes empresas industriais, comerciais ou de serviços, ninguém sabe; se a preferência vai para o investimento nacional ou internacional, é um segredo bem guardado; se a aposta será uma logística nacional ou internacional ao serviço de um mercado interno ou externo, temos apenas a escolha oficial da bitola ibérica na ferrovia que indicia uma política proteccionista, se válida ou não para todo o resto da economia, não sabemos; sabemos, contudo, que o Governo de António Costa aprecia o turismo, mas não sabemos se o aeroporto Humberto Delgado é suficiente ou não, se precisamos ou não de um novo aeroporto e onde; também ninguém sabe o que fazer com os novos hotéis, restaurantes e afins quando chegar uma crise do turismo, ainda que se saiba pela evidência histórica que acabará por acontecer, só não se sabe quando.

A grande evidência nacional em relação a tudo isto é que ainda não pensámos em nada do que aqui descrevo, como sabemos que António Costa e o seu Governo trabalham afanosamente na propaganda de que tudo vai no melhor dos mundos e que o PS nos vai levar ao progresso e ao desenvolvimento, só também não sabemos quando. Que a evidência dos últimos oito anos o negue não tem grande importância, o Governo desdobra-se pelo país inteiro em reuniões, conferências e simpósios a anunciar a boa nova de que no futuro tudo o que não foi feito será agora feito e que os milhões que recebemos da União Europeia vão dar para tudo o que é preciso. Melhor produtividade? Melhores rendimentos para as famílias como na Irlanda, ou nos antigos países da Cortina de Ferro? Não são temas que interessem aos portugueses, preocupados que estão com a inflação e o cabaz de compras. Quando a inflação chegar aos famosos 2%, teremos de encontrar algo mais que entretenha o bom povo.

Justiça seja feita, António Costa não mente. Recentemente interrogado sobre o último processo por corrupção no PS, neste caso do secretário de Estado da Defesa Marco Capitão, afirmou que isso não é matéria que preocupe os portugueses, que têm problemas maiores em que pensar. Por alguma razão também não preocupa o primeiro-ministro a razão por que a tal Comissão da Transparência anda há mais de um ano à procura de casa e por alguma razão José Sócrates e as centenas ou milhares de acusados de corrupção dos últimos vinte anos não vão a julgamento. Acredito que a razão será a mesma, os portugueses, neste caso os juízes, têm mais em que pensar.

Aparentemente, os portugueses também não se preocupam com a dívida do Estado que continua a crescer – 250 mil milhões de euros em Maio de 2018, 280 mil milhões de euros em Maio de 2023 – nem mesmo que estejam a ser enganados com a percentagem da dívida sobre o PIB que desce, esquecendo que o valor a pagar é sempre maior. Ou seja, menos recursos para a Saúde, para a Educação e para os reformados. O exemplo é o de uma pessoa que vê o seu ordenado crescer e, ao mesmo tempo faz mais dívidas. Ou seja, é a história de alguém que espera que depois de morrer os filhos paguem o que, mais tarde ou mais cedo, terá de ser pago.

Esta é há oito anos a filosofia do Partido Socialista e da dupla António Costa/José Sócrates, uma história de contentamento de quem se sente feliz com cada vez maior poder para distribuir pela grande família socialista em mais cargos e mais empregos, com licença para mais casos de corrupção e maior autoridade para evitar os malefícios democráticos das comissões de inquérito da Assembleia da República, ou para limitar as críticas, as quais, em qualquer caso, não alteram a convicção de que isso não é nada que uma boa dose de propaganda não resolva.

Voltando à questão inicial da estratégia, ou mais exactamente à sua inexistência, nada é mais claro que o actual PRR-Plano de Recuperação e Resiliência. Trata-se de um plano de navegação à vista em que o objectivo é o de distribuir dinheiro, muito dinheiro, o mais depressa possível, e depois logo se verá o que acontece. Pessoalmente, desde já posso garantir aos leitores que não acontecerá nada, pelo menos que se pareça com uma mudança de rumo na direcção do desenvolvimento. Infelizmente, também ninguém na oposição anuncia uma qualquer estratégia global e coerente no panorama económico e social português, como ninguém se atreve a procurar medir os efeitos do PRR, o que por si já é uma boa indicação de que nada de relevante irá acontecer.

A definição de uma linha estratégica para o país não existe, apesar dos governantes falarem de estratégia por tudo e por nada. A estratégia para combater a inflação, a estratégia para encontrar mais médicos para o SNS, a estratégia para a água, a estratégia de combate aos fogos, de facto não faltam a António Costa estratégias. O que revela que em Portugal apenas os militares sabem, porque aprenderam como parte da sua formação, do que se fala quando se fala de uma estratégia para Portugal. O resto é ignorância pura e dura.

Aliás, o que não falta aos Governos de António Costa é ignorância, razão para o contínuo dos erros praticados, dos casos e casinhos criados e da evidente inexperiência em tudo o que cheire a organização, medição de resultados, ou previsão sobre o que vai acontecendo. O percurso político nas jotas, os empregos distribuídos pelo Estado aos amigos acabados de sair da universidade e a ausência de critérios de exigência, selecciona para o serviço público quem lá não deveria estar por ausência das qualificações necessárias. Não poucas vezes a falta da mais fundamental das qualificações, a seriedade e a ética.

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