Corona vírus: má informação e má decisão

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ranscrevo na íntegra a “deliberação” do suposto Conselho Nacional de Saúde, um órgão consultivo do governo português, para que o leitor possa “apreciar” a total (in)capacidade deste ógão para tomar qualquer deliberação, ou apreciação, que seja. Sem mais comentários, segue a “apreciação”.

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“Apreciação do Conselho Nacional de Saúde sobre a pandemia da COVID-19 – 6 abril 2020.

O Conselho Nacional de Saúde, dentro das suas competências de órgão de consulta do Governo na definição de políticas de saúde de apoio ao Ministério da Saúde, reunido extraordinariamente a 6 de abril de 2020, para analisar a evolução da pandemia COVID-19 e da eventual retoma às atividades no país, considera que:

1. A informação que dispõe é insuficiente para uma proposta fundamentada quanto às melhores opções de resposta à epidemia em Portugal, nomeadamente no que respeita à abertura das escolas; 

2. As autoridades de saúde responsáveis estarão certamente na posse da melhor informação para a tomada de decisão e o Conselho confia que esta será tomada de modo a maximizar os ganhos em saúde;

3. Perante os aspetos objetivos e subjetivos a que pode atender, prevalece o sentimento geral que a situação presente deve ser continuada com particular atenção à população com mais de 60 anos por mais algum tempo, como forma de impedir o aumento descontrolado do número de casos e assegurando a resposta adequada do sistema de saúde; 

4. É essencial reduzir a incerteza da situação presente, ajudando nomeadamente a prevenir o seu efeito na saúde mental dos cidadãos, indicando, logo que possível, e com base em cenários partilhados, um prazo para o potencial alívio das restrições impostas;

5. É fundamental que as instituições preparem seriamente a retoma da atividade com estratégias efetivas de comunicação à população, e o reforço continuado de opções como a telemedicina no Serviço Nacional de Saúde, e o ensino à distância nas escolas públicas em Portugal;

6. Deve também cada um dos cidadãos preparar cuidadosamente o seu plano de progressivo retorno à normalidade, considerando as regras e orientações das autoridades de saúde internacionais, nacionais e locais. 

Portugal, 06 de abril de 2020
O Presidente do Conselho
Nacional da Saúde,

Henrique Barrosao” (sic)

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O comentário que se segue é do autor do artigo. Após uma leitura atenta conseguimos concluir que o comunicado poderia estar redigido nos seguintes termos, exactamente com o mesmo conteúdo, ou talvez mesmo mais, porque se tinha percebido o significado vago do que está escrito acima:

“Hoje é seis de Abril, metemos umas coisas sobre competências e dizemos que esta reunião é extraordinária para começar e encher um bocado da página sobre a retoma (a sério?) às actividades normais do país (isto é mesmo a sério?).

1. O conselho não delibera nada sobre o regresso às aulas porque não sabe nem quer saber. Não sabe qual a resposta à epidemia e não sabe o que fazer. Informação? Talvez haja, mas nós nem queremos perguntar, para não nos chatearmos.

2. Estamos na época da Páscoa, o conselho nacional de saúde aponta como exemplo a seguir o desse grande governante romano, o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos; outros saberão melhor, nós lavamos as mãos.

3. Para encher, resolvemos acrescentar um parágrafo que não diz nada, a não ser manter qualquer coisa sobre os velhos com mais de sessenta anos, ou será cinquenta? Ou será quarenta? Não, metemos 60 e voltamos a lavar as mãos. É preciso que alguém, que não nós, acompanhe a situação, de preferência uma autoridade não consultiva, que com os nossos conselhos o governo há-de ir longe. Pois, e avisar que medidas vagas e não especificadas se mantenham para a coisa não se descontrolar, e agarrem-nos senão damos um conselho a valer.

4. Dêem lá um prazo, vagos responsáveis que nós não mencionamos, que nós não queremos responsabilidades nenhumas no assunto. Damos em malucos, aqui a rapaziada do conselho, sem sabermos quando isto acaba. Queremos marcar as férias, marcar patuscadas com os amigos, isto não se aguenta. Queremos que nos dêem um conselho sobre uma data que isto é muito capaz de dar cabo da nossa saúde mental, espera lá, nós é que somos supostos indicar essa data? Não, é melhor lavar as mãos disso, o Pôncio é que a sabia toda.

5.  Aqui vamos confundir a malta, falamos de estratégias de comunicação, de regressar à actividade, mas metemos umas coisas modernaças de telemedicina e tele-escola, fingimos que isso já existe há cinquenta anos, que são actividades que nada têm a ver com regresso à actividade normal, mas sim continuar na mesma, como a lesma, da quarentena forçada. Damos uma no cravo e outra na ferradura. Aprende com a malta, ó Pôncio!

6. Sem decidir nada, este comunicado está ainda pequeno, achamos que devia encher mais de metade da página, que a técnica do Portas de aumentar o tamanho da letra e reduzir o número de linhas por página está muito vista. Damos uma de esperança sobre um retorno à normalidade que deve ser preparado pelo cidadão. Cidadão, cidadão, prepare cuidadosamente o seu regresso à normalidade, para uma data indicada acima por alguém que não nós e da qual não fazemos a menor ideia. Deve ser progressivo e não abrupto, porque se retornar logo à normalidade pode cansar-se. Vejam o nosso exemplo, que nos cansamos imenso a escrever estes comunicados. Isto cumprindo as orientações das autoridades de saúde de todos os tipos, planetárias, continentais, transcontinentais, nacionais, transfronteiriças, locais, zonais, regionais, camarárias, da Junta de Freguesia e dos regedores de bairro, consulte mesmo todas as autoridades, que este conselho já conseguiu encher a página. 

Agora é que vamos brilhar porque sabemos a data! Será 1 de Abril? Não, estamos a reinar, como desde o início deste comunicado! É 6 de Abril! Ainda sabemos algo, somos uns sábios!

Agora quem assina isto? Era melhor ser o porta-voz, um catedrático de saúde pública, aquele que disse que isto era menos perigoso do que a gripe? Não?! Tem mesmo de ser o presidente? Ora bolas…”

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Nota final do autor – As más notícias é que ainda exista este conselho, as boas notícias é que estamos a atingir o máximo número de casos nesta epidemia, mas esta maratona ainda nem sequer está a meio. É preciso continuar a vigilância e os cuidados, senão será tudo em vão. Falar agora em retoma é um exercício de ficção tonto e irresponsável para alimentar o marketing político de António Costa, que está a usar este Estado de Emergência para aprovar projectos que de outra forma seriam denunciados de forma vigorosa. É muito estranho, nesta fase, aprovar a expansão do Metro, ou adjudicar o projecto da Linha do Oeste, esbanjando dezenas de milhões de euros. É para beneficiar quem? São mais de uma centena de milhões de euros a menos para ajudar as pessoas deste país. Estes são os casos que conhecemos, decisões tomadas já nesta situação de grande crise. Que outros casos não estão escondidos sob o manto da crise do COVID-19? ■