Agostinho da Silva e o Triângulo Lusófono (II)

Adolfo Casais Monteiro, por seu lado, num texto intitulado “Uma Interpretação da Cultura Lusa”, publicado originalmente no “Suplemento Literário” do Jornal O Estado de São Paulo, a 13 de Julho de 1957 – ou seja, no mesmo ano da publicação da obra de Agostinho da Silva –, começa por destacar “a profunda originalidade da tese apresentada, e, mais do que isso, a sua grande importância” – ainda nas suas palavras: “Que se trate de reflexão, vá; mas que seja à margem, e à margem da literatura portuguesa, somente, eis o que de modo algum corresponde ao seu conteúdo que é uma seríssima interpretação da cultura portuguesa, da história, e da própria missão de Portugal no mundo.”.

Se, no Brasil, foi Adolfo Casais Monteiro o primeiro a salientar a importância da obra Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, em Portugal esse mérito coube a António Quadros. Num texto intitulado “Agostinho da Silva – Filósofo português da história”, publicado igualmente no ano de 1957, começa por dizer: “Entre os acontecimentos mais notáveis do ano cultural, figura sem dúvida num dos primeiríssimos lugares, a publicação no Brasil do ensaio de Agostinho da Silva, Reflexão à margem da literatura portuguesa. Como foi já salientado, o título, por motivos que desconhecemos, não corresponde ao conteúdo, que lhe está muito acima. Trata-se, em primeiro lugar, sem sair dos limites da mais rigorosa ortodoxia, de uma interpretação da catolicidade, não diremos completamente inédita, mas pelo menos pouco vulgar.”.

Ainda que redigida quatro antes, em 1955, ano em que ensinou Literatura Portuguesa e Filologia Românica na Universidade de Santa Catarina – Universidade que, de resto, ajudou a fundar –, Agostinho da Silva publica, em 1959, a obra Um Fernando Pessoa. Tal como aconteceu com a sua obra Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa, também esta teve imediato eco. Uma vez mais por Adolfo Casais Monteiro, que, num texto intitulado “‘Um’ Fernando Pessoa”, escreveu: “O livrinho que, sob o título à primeira vista esdrúxulo de Um Fernando Pessoa, acaba de publicar Agostinho da Silva (Cadernos do Rio Grande, Instituto Estadual do Livro, Porto Alegre, 1959), é, nas suas escassas 60 páginas, a coisa mais organizadamente estruturada que até hoje se escreveu sobre o nosso grande poeta.”.

E isto porque, na sua perspectiva, “Agostinho da Silva desenhou, e recorrendo sempre que possível às próprias palavras de Pessoa, os sucessivos-simultâneos retratos de cada figura parcial, Reis, Caeiro, Campos, integrando-os no ‘retrato’ de Pessoa da Mensagem, ou seja: aceitando e compreendendo a veracidade de cada um dos indivíduos autónomos entre quem ele dividiu a sua impossibilidade de viver.”. Eis, a seu ver, o grande mérito agostiniano: “…não se pretende mais inteligente do que Fernando Pessoa, e, aceitando-o, em vez de procurar em cada ‘afirmação’ o contrário do que ela diz, nos ‘faz ver’ Fernando Pessoa como ninguém até hoje o conseguira.”. Para além disso, na perspectiva de Adolfo Casais Monteiro, o mérito da visão agostiniana está em esta ter conseguido constituir-se como uma visão unívoca de toda a obra pessoana, na medida em que a considera à luz de um único eixo, em concreto, da sua Mensagem.

Agenda MIL – 13 de Fevereiro, 21h30, debate on-line sobre Cabo Delgado (para mais informações: www.movimentolusofono.org).

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