Montenegro ensaia namoro com o Chega

Ainda não é oficial, mas Luís Montenegro já começou a aproximar-se do Chega. Por ele, se chegar viverem juntos sem casamento, está tudo bem. Mas se o Chega for imprescindível a um governo de direita, a matemática é implacável e dita que se terá de somar votos. É inevitável.

Sem as legislativas (ainda) sem horizonte, Luís Montenegro avançou este interregno para tomar para si algumas bandeiras do Chega. O partido de André Ventura esfrega as mãos de contente.

A título de exemplo, diga-se que o presidente do PSD considerou imoral haver trabalhadores no activo a ganharem menos do que desempregados e reiterou as críticas às alterações introduzidas pela Agenda para o Trabalho Digno.

Discursando no encerramento do XV Congresso Nacional dos Trabalhadores Social-Democratas, em Lisboa, Luís Montenegro defendeu que “é imoral uma sociedade onde as pessoas que trabalham chegam ao fim do mês e ganham menos do que pessoas que não trabalham”.

“Independentemente de nós não querermos deixar ninguém para trás, o pior que podemos fazer é desincentivar aqueles que produzem, aqueles que trabalham, aqueles que têm uma oportunidade, que dão o seu esforço e que chegam ao fim do mês e têm menos rendimento do que aqueles outros que não fazem esse esforço”, defendeu o líder social-democrata.

“Dossier” professores

Imediatamente antes, Luís Montenegro deu o exemplo dos professores e referiu que a sua colocação longe de casa “faz com que muitos destes profissionais, entre as despesas de transporte, de alojamento e de alimentação, cheguem ao fim do mês e ganhem zero ou até tenham um saldo negativo”.

Na sua intervenção, o líder social-democrata voltou a criticar a Agenda para o Trabalho Digno, aprovada no Parlamento, com o voto favorável do PS, a abstenção do PSD, Chega, PAN e Livre e votos contra do BE, PCP e IL.

Montenegro considerou que este “é um processo digno da aselhice ou da ligeireza do Governo de Portugal e do PS”.

“Eu fico sinceramente preocupado como é que depois de ter havido a subscrição de um acordo de rendimentos em sede de concertação social, alguns dos seus esteios sejam agora deturpados ou adulterados nesta legislação, em prejuízo muitas vezes dos trabalhadores”, criticou.

O presidente do PSD considerou ainda que esta Agenda para o Trabalho Digno “é digna se ser estudada nos efeitos perversos que vai ter, infelizmente, nos direitos dos trabalhadores”.

Luís Montenegro comentou igualmente que “este é o momento de identificar quem tem fibra para olhar para o futuro, de projectar o futuro, de preparar aqueles que virão a seguir”.

“Este não é o tempo das habilidades, este não é o tempo das artimanhas, este não é o tempo dos arranjos políticos, este não é tempo dos sobreviventes, daqueles que só querem chegar ao dia de amanhã, este é o tempo dos reformistas, daqueles que projectam, daqueles que são verdadeiramente solidários”, salientou.

Ventura satisfeito

Estas declarações deixaram Ventura naturalmente satisfeito. O presidente do Chega apontou uma “aproximação de posições” do PSD ao seu partido, dizendo que, mesmo sem reuniões, Luís Montenegro já deixou cair algumas “linhas vermelhas” na imigração e nos apoios da Segurança Social.

“Se começa a utilizar as bandeiras do Chega e diz aquilo que o presidente do Chega diz, até é melhor. Não quer reunir comigo, mas já diz o que eu digo, imagine depois de reunir comigo, sai de lá a dizer que temos um governo fortíssimo de direita para os próximos anos em Portugal”, afirmou André Ventura.

O líder do Chega foi questionado, em concreto, se declarações recentes de Luís Montenegro sobre imigração e sobre os rendimentos das pessoas com apoios da Segurança Social seriam uma tentativa de esvaziar as bandeiras do Chega.

“A tentar está, mas apenas consegue esvaziar as do PSD. O PSD sempre disse que não podia falar com o Chega porque haveria três ou quatro linhas vermelhas e entre elas estão a imigração ou os apoios da Segurança Social”.

Para André Ventura, “ter o líder do PSD a dizer, de uma forma diferente, o que diz o Chega e o presidente do Chega só pode significar que não há linhas vermelhas”.

“Estamos no bom caminho para formar um Governo, registo este ‘mea culpa’ do dr. Luís Montenegro, este volte face do PSD. Estamos no caminho certo para ter um Governo que fiscalize os desvarios da Segurança Social e de um país que quer receber bem os imigrantes, receber quem pode – o Chega não é contra a imigração, espero que o PSD também não seja – e que, naturalmente, privilegie as comunidades imigrantes que venham para trabalhar e para se integrar”, afirmou.

Questionado sobre a recusa reiterada do presidente do PSD em reunir consigo, André Ventura considerou que se trata de uma “questão pessoal” para colocar a Luís Montenegro, mas desvalorizou esse aspecto.

“É evidente que este PSD é um PSD que está a fazer um esforço para se aproximar porque percebeu que a direita tem estas posições e percebeu que só pode governar à direita”, frisou, dizendo que o partido está a voltar ao caminho que o anterior líder, Rui Rio, impediu que seguisse, o de “um PSD que quer estar à direita”.

“Depois veremos quem lidera a direita, neste momento ainda é o PSD nas sondagens, mas temos esperanças que muito em breve possa ser o Chega. Para já é um sinal muito positivo esta aproximação de posições”, saudou.

Consenso
nos imigrantes

Outro consenso com André Ventura é o “dossier” imigrantes. Depois do líder do Chega a andar solitário a dizer que Portugal não podia deixar entrar no país toda a gente, o presidente do PSD, defendeu que Portugal precisa de “atrair mão-de-obra qualificada” o mais brevemente possível e considerou que os cidadãos estrangeiros devem trazer as suas famílias.

O líder laranja considera que, para o país ter “uma economia competitiva, uma administração pública eficaz e sustentabilidade nos principais sistemas públicos, precisa de atrair mão-de-obra qualificada e de atrair pessoas que venham o mais cedo possível”.

“Eu já tinha a convicção de que uma das formas mais eficazes de podermos cumprir este desidrato era atrair jovens estudantes para as nossas instituições de ensino superior, hoje tenho a convicção de que devemos juntar a isso a atracção de mão-de-obra e das respectivas famílias”, defendeu.

“Quanto mais cedo um cidadão estrangeiro, que pode ser uma criança, chegar a Portugal e se possa integrar nas nossas estruturas, mais fácil será contarmos com essas pessoas no futuro para cobrirmos aquilo que é indesmentível que é uma lacuna de população que vamos ter nas próximas décadas em Portugal”, sustentou.

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