Clarice Lispector e Vilém Flusser (I)

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Nasceram em 1920 dois dos mais improváveis amantes da língua portuguesa: Clarice Lispector e Vilém Flusser. Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, numa pequena aldeia chamada Tchechelnik; Vilém Flusser, em Praga, na capital da actual República Checa. Ambos foram vítimas da sua condição judaica, ambos saíram da Europa, com as suas famílias, para o Brasil – Clarice Lispector, ainda criança, em 1922, com os seus pais e as suas duas irmãs; Vilém Flusser, já durante a II Guerra Mundial, no início da década de quarenta.

No Brasil, seguiram caminhos muito diferentes entre si: Clarice Lispector mais na área da Literatura, Vilém Flusser mais na área da Filosofia. Em comum, porém, desenvolveram um crescente e assumido amor pela língua portuguesa e pelas suas potencialidades – quer literárias, quer filosóficas –, muito incomum entre os lusófonos de nascença, (quase) sempre mais predispostos a desprezar a nossa língua.

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Comecemos por Clarice Lispector. Na sua obra A Descoberta do Mundo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984), em jeito de diário, partilha connosco algumas passagens que expressam bem o modo como se tornou uma amante da língua portuguesa. Atentemos, por exemplo, no que escreveu a 14 de Novembro de 1970:

“Esclarecimentos – explicação de uma vez por todas

Recebo de vez em quando carta perguntando-me se sou russa ou brasileira, e me rodeiam de mitos.

Vou esclarecer de uma vez por todas: não há simplesmente mistério que justifique mitos, lamento muito. E a história é a seguinte: nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa pequena aldeia chamada Tchechelnik, que não figura no mapa de tão pequena e insignificante.

Quando minha mãe estava grávida de mim, meus já estavam se encaminhando para os Estados Unidos ou Brasil, ainda não haviam decidido: pararam em Tchechelnik para eu nascer, e prosseguiram viagem. Cheguei ao Brasil com apenas dois meses de idade.

Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata.

Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife e acho que viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira que lá, no interior, não recebe influência de costumes de outros países. Minhas crendices foram aprendidas em Pernambuco, as comidas que mais gosto são pernambucanas. E através de empregadas, aprendi o rico folclore de lá.

Somente na puberdade vim para o Rio com minha família: era a cidade grande e cosmopolita que, no entanto, em breve se tornava para mim brasileira-carioca.” ■