Terminando António Quadros este seu lapidar texto sobre Couto Viana com a alusão a um “novo despertar”: “Em No Signo da Restauração há um apelo ao novo despertar: A nossa pátria jaz em mão fechada e alheia!/ É já dela o tractor e o chão arado,/ A moeda, a oficina, o pão da ceia!…/ Pra não termos futuro, esmagou o passado!// Vem com teu ceptro justo, punitivo e clemente!/ Vem ser manhã na noite sepulcral!/ Vem expulsar de nós a névoa do presente/ E acorda Portugal!
No Signo do Cárcere, a quinta parte do livro, inclui os poemas mais memorialistas e mais intimistas, pois António Manuel Couto Viana revive experiências dolorosas, desilusões e quebras de ânimo: Porque é que a pátria envelhece?/ Prenderam a mocidade:/ Seiva, sol que fortalece/ A idade// Porque choras, Portugal?/ — Prenderam o meu futuro:/ Jamais terei ideal/ Mais puro.
Noutro poema: A luta heróica pela pátria ideal/ Arrasta umas grilhetas:/ Só vive livre Portugal/ No coração dos seus poetas.
Em poucos líricos, como em Couto Viana, é tão pungente a dor por algo que se perdeu, menos do nosso passado, do que do nosso futuro. Mas os poetas acreditam na força regeneradora e mágica do seu verbo! Por isso se lhe vai esvaindo o desolador pessimismo com que principiara o seu livro…
Dois ou três anos depois, efectivamente, é já expectante, senão confiante o ânimo do poeta no magnífico tríptico de Sonetos a que deu o anagógico título de Contemplário.
Leiam-se os dois tercetos do primeiro: Sigo solene como um ritual,/ A caminho da pátria prometida/ (Sempre dentro de mim, de Portugal).// Pedaços e pedaços reunida,/ Do sangue celebrado no Graal/ Da vida gloriosa além da vida.
Também os do seguinte Soneto: Cristo das Cinco Chagas da Vitória,/ Destrói toda a palavra transitória,/ Ergue em nosso futuro o Teu sinal.// Traze da ilha onde se oculta, a nave./ E, nela, o Mestre esclarecido e grave./ E, nele, um só e imenso Portugal.
E enfim o belíssimo e «espiritual» remate metanóico do terceiro Soneto: Pela nave, ou aeronave ou astronave,/ Avé, o meu Senhor em forma de ave,/ Sempre mais perto quanto mais distante.// O início sacral, guia do mundo,/ Verbo sobre a cabeça do profundo,/ É Portugal a língua flamejante!”. ■
Agenda MIL: 1 de Julho, às 18h, na Associação Agostinho da Silva, mais uma sessão de Apresentação da NOVA ÁGUIA nº 31; 4 de Julho, às 21h30, via zoom, mais um Debate Público do GT PASC “Transição Climática e Energética, Mar e Território” (para mais informações: www.movimentolusofono.org).




