Haja respeito pela polícia

A fazer fé nos contos cristãos, consta-se que o Éden era coisa porreira, a lembrar um SPA de alto nível, onde Adão e Eva viviam em paz e com todas as mordomias até que, fosse pela gula ou pela tentação, o homem lá se lembrou de trincar uma maçã ofertada pela serpente. Não fosse Adão vegano e metade dos problemas do mundo estariam resolvidos… Despejado pela falta de pagamento de rendas, o casal lá teve que se fazer à vidinha e passou a arrendar um T2 na margem sul e a andar de transportes públicos.

Talvez Pedro Adão e Silva também fosse um gajo porreiro que cedeu à tentação, à soberba e à pesporrência. Não consta é que, apesar disso, tenha que atravessar a ponte diariamente ou empilhar-se nos sovacos de estranhos nas travessias dos cacilheiros. E, desconhecendo-se a fruta que comeu, certo é que Pedro, de peito inchado e couraça preparada para a batalha, veio a terreiro falar sobre o que não lhe tinha sido perguntado, nem era da sua competência funcional. E Pedro não é um neófito na política nem tão néscio quanto uma perfunctória miragem o possa fazer parecer. É um dos homens do núcleo duro do PS de Costa. Daí que as suas afirmações à Comissão Parlamentar de Inquérito da TAP não possam ser dissociadas do líder. À semelhança do que fez anteriormente com outros ministros e homens de mão, Costa manda os recados através de núncios, não se expondo, não se comprometendo. E só isso justifica que, apesar das críticas, de montante a jusante, incluindo as do seu próprio partido, Pedro tenha mantido o tom e a justificativa. Não se retratou perante Lacerda Sales, os deputados, o Parlamento ou os portugueses. E não o faz por desconhecimento das regras democráticas, da importância ou utilidade das comissões de inquérito ou da dignidade da Assembleia da República. Fá-lo porque o Chefe ficou incomodado e alguém tem que o verbalizar. Desta vez, foi Pedro quem se dispôs a ser a caixa de ressonância.

Mas, neste jardim à beira-mar plantado, que é um verdadeiro Éden para os socialistas e outros “istas” canhestros, também a RTP se lembrou se aderir ao disparate. No intervalo da transmissão de um festival, achou por bem reproduzir um “cartoon” abstruso, de mau gosto, discriminatório e ofensivo para as forças de segurança. Correu – e bem – José Luís Carneiro, a defender as polícias em geral e a PSP em particular, pedindo à RTP que se explicasse e retratasse. Logo veio o “sprinter” do Bloco, Pedro Filipe Soares, acusar o ministro de inadmissível ingerência política. Que o Bloco é sectarista, amnésico e que para eles a democracia e a igualdade são meros verbos de encher, já sabíamos. Mas o despeito, puro, profundo e premeditado pelas narrativas que são do agrado, transformadas em ataques soezes ao normal funcionamento da democracia, não sendo uma estreia, passa a ser uma constante. Pelo meio, a intervenção do Ministério Público na identificação dos autores do “cartoon”, como se o problema fossem eles e o mesmo não estivesse contido na liberdade de expressão, ao invés de procurar e acusar quem, dentro de um serviço público que se quer isento e plural, e é pago com os nossos impostos, achou por bem emitir o mesmo. Com o fogo a aquecer o rabo, os corajosos autores lá trataram de explicar que o opróbrio não era dirigido à PSP, antes à polícia francesa em virtude do caso Nahel. O dislate não soa sequer a desculpa, antes a profunda ignorância, como se a nacionalidade pudesse qualificar ou menorar, quando pretendem que a cor seja o centro da mensagem. A apregoada dualidade da discriminação boa e má só exponencia a frivolidade argumentativa de conceitos e noções.

A morte de Nahel, às mãos da polícia da francesa, fez com que a sua mãe viesse para as redes sociais apelar por justiça, condenando, de preceito, a acção policial. A França saiu à rua, nomeadamente a sua camada mais jovem, sem curar dos comos ou porquês, apenas por uma adesão pueril e acrítica aos apelos das massas e às notícias amplificadas pela comunicação social, antes de qualquer investigação. É assim que funcionam as coisas hoje em dia. Na vertigem. A pretexto de uma indignação, levantou-se um tumulto generalizado, multiplicaram-se as pilhagens, o rasto de destruição e a sublevação, devidamente orquestradas e manipuladas nos bastidores pelos extremismos (de ambos os lados, entenda-se), sem que os fios que sustentam as marionetas alguma vez se tornem visíveis. Aliás, como convém nestes casos… Não foi o tiro ou o facto de Nahel ter 17 anos que levaram à revolta e ao cenário de guerrilha urbana. Antes o facto deste ser de ascendência argelina e marroquina e o polícia que o alvejou ser caucasiano. É que, aos 17 anos, Nahel conduzia uma viatura de mais de 50.000,00 euros, na faixa de bus, esquivou-se à ordem de paragem da polícia, passou um sinal vermelho e apenas foi interceptado porque ficou retido no meio do trânsito. A sua família tem poucas posses e vive de subsídios e a idade legal para conduzir, em França, tal como cá, é aos 18 anos.

Na intercepção policial, o agente abeirou-se do veículo, de arma em punho conforme os procedimentos obrigatórios neste tipo de situações e ordena-lhe que desligue o veículo. Nahel não o faz, arrancando abruptamente na direcção do polícia, que dispara. O veículo imobiliza-se poucos metros à frente e os dois menores que acompanhavam Nahel fogem, sendo que um deles continua em paradeiro desconhecido e o outro veio, dias depois, contar a sua versão dos factos. O que não contou é que polícia que disparou sobre Nahel lhe presta os primeiros socorros no local e que o outro, ao invés de os perseguir ou disparar, accionou imediatamente os meios de socorro. Também se oculta das peças jornalísticas que o polícia é um ex-militar condecorado e que tem uma folha de serviço irrepreensível e com vários louvores, optando-se por divulgar a sua identidade e onde vive, colocando em causa a segurança dos seus familiares.

A mãe de Nahel aparece na televisão em cima de um camião, envergando uma “t-shirt” com os dizeres “Justiça para Nahel”, empunhando uma bomba de fumo e exigindo uma sentença firme e exemplar contra o atirador e garantindo que Nahel era um miúdo exemplar, respeitador e sem antecedentes criminais. Terá sido, seguramente, a comoção que a levou a esquecer-se da dúzia de crimes que constam do seu registo criminal, das dezenas de infracções estradais ou das duas vezes que esteve preso, apesar dos seus 17 anos. A França ouviu o apelo e saiu à rua. Ao que parece os “cartoonistas” cá também o ouviram, bem como os senhores da RTP e o líder parlamentar do Bloco.

Mas convém, nos cestos onde predominam as maçãs podres, perceber-se quem são os verdadeiros criminosos…

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