Diálogo com Ângelo Alves (II)

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Chegados aqui, não poderemos deixar de enunciar uma primeira crítica a esta perspectiva de Ângelo Alves: desde logo pelo papel que teve Leonardo Coimbra no “Movimento da Renascença Portuguesa” e na Revista “A Águia”, é a nosso ver abusivo inscrever esse “Movimento”, sem mais, numa mesma “corrente idealístico-gnóstica”. 

Se isso pode ser válido – admitimo-lo – em relação a Pascoaes, não nos parece que seja de todo válido em relação a Leonardo. 

Assina-se aqui, a este respeito, subtil, a abissal distância entre Leonardo Coimbra e Sampaio Bruno. Este, em particular na sua “A Ideia de Deus”, desenvolve uma visão profundamente negativa da existência, que o levou, a afirmar, contra Amorim Viana, a “essência real do mal”, tendo ainda chegado a defender que “a felicidade é não ter nascido”, ou, citando Darwin, que “este mundo é um vasto campo de chacina” – visão de tal modo negativa que nesta, segundo o próprio Leonardo, “o melhor dos mundos possíveis de Leibniz não deixa de ser mau”.

Para Leonardo Coimbra, muito diversamente, o mundo não resultou aquele de nenhuma “queda”, de nenhuma “degradação do ser divino”, de nenhuma “fatalidade”. 

Ao contrário de Sampaio Bruno, tem Leonardo uma visão essencialmente positiva da “criação”. O que para o primeiro era motivo de lamento – o facto de este ser um “mundo de distâncias e separações” – é, para o segundo, motivo de assumido regozijo. Daí, desde logo, estas suas palavras, tão eloquentes quanto inequívocas quanto à sua cosmovisão: “Como é belo este mundo de distâncias e separações! Que perda não seria reduzir tudo a uma simples unidade possuindo-se!”.

Daí, de resto, como refere o seu discípulo e hermeneuta José Marinho, toda a diferença do pensamento de Leonardo Coimbra, não só relativamente ao de Sampaio Bruno como ainda ao de Antero de Quental – nas suas palavras, para Leonardo “os seres não se anulam, pois que neles se manifesta Deus, a pluralidade não é imperfeição, como o é em Antero ou Bruno, mas expressão de todas as infinitas virtualidades de ser do absoluto”. 

Daí, em suma, a nossa tese: pelo papel que teve Leonardo Coimbra no “Movimento da Renascença Portuguesa”, é a nosso ver abusivo qualificar esse “Movimento” como uma “corrente idealístico-gnóstica”. ■

Agenda MIL – 17 e 18 de Fevereiro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Colóquio Internacional “Épicas de Expressão Portuguesa”.