Entre a Renascença e a Presença (IV)

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Num texto integrado na obra A Poesia de Fernando Pessoa (INCM, 1999, 2ª ed., p. 167), escreveu Adolfo Casais Monteiro o seguinte: “Eu sempre disse ao meu querido José Marinho que ele não entendia nada de poesia; mas, como insiste, di-lo-ei desta vez em letra de forma. Acontece muitas vezes aos que só vêm na poesia o alimento que ela fornece às suas meditações filosóficas (…).” No seguimento desta passagem mordaz, chega ainda a ironizar com a “diatribe [de José Marinho] contra a poesia ‘subjectiva’”, concluindo, em ironia final: “até parece um colaborador da Vértice!”.

Partindo da posição de que parte Adolfo Casais Monteiro, compreende-se esta sua crítica mordaz. No entanto, a posição de que parte José Marinho é, de facto, assaz diferente, infinitamente diferente… Com efeito, no retorno à nossa mais originária tradição filosófica, propõe-nos José Marinho um caminho outro – um caminho de requalificação do fenómeno estético. Para tanto, procura, desde logo, reabilitar o conceito de “belo”. Não já, contudo, enquanto mero conceito estético – pois que, para Marinho, “o belo” não era apenas um fenómeno estético, mas, mais profundamente, a expressão de um processo ontológico: do processo de realização do ser, mais propriamente, daquele que mais verdadeiramente é em todo o ser, em cada um de nós. 

Designou Marinho esse processo como o processo de realização do próprio “espírito”. Daí a sua tese, sintetizadora de todo o seu pensamento estético: “Nada iguala em beleza o fluir espontâneo e perfeito de um espírito.”. É a luz de tal assunção do fenómeno estético que José Marinho considera também o fenómeno artístico – em síntese, poderíamos enunciar a sua tese do seguinte modo: a arte, em todas as suas formas, será expressão do espírito, do seu processo de realização, ou não será. Daí que, no seu entender, o fenómeno artístico, mais propriamente considerado, se consubstanciasse muito mais na pessoa do artista do que na sua obra, na obra de arte.

Nessa medida, não devemos pois procurar a “essência da arte” nas obras mas sim, antes, no processo que lhes subjaz, ou seja, no processo da sua criação. Eis, em suma, o regressivo caminho que José Marinho nos propõe. Porque regressivo, é esse um caminho de desconstrução – de desconstrução da obra de arte enquanto obra. Importa pois, por isso, desconstruí-la, esventrá-la, em busca da seiva, do sangue, que ocultamente a anima – mais profundamente ainda, em busca da mais originária fonte em que todo o processo de criação se inicia. Eis, com efeito, o oculto alcance, o oculto cais, desse regressivo caminho que José Marinho nos prefigura… ■

Agenda MIL – 28 de Julho, 17h30, no Palácio da Independência: Homenagem a Adriano Moreira, no início das comemorações do seu 100.º aniversário.