A oportunidade do PSD

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Tenho receio de que o PSD aceite discutir com o PS a questão do aeroporto, fora do contexto do futuro modelo de desenvolvimento do país. A questão do aeroporto deve ser decidida como parte de uma logística para o desenvolvimento, o que envolve a ferrovia, com vista à opção a fazer entre a industrialização, como motor do desenvolvimento, ou aceitar a fatalidade desse papel ser representado pelo turismo. Esta é a verdadeira questão que o PSD deve discutir em São Bento.

A minha posição é, há muito, clara: a educação e a industrialização são a base desejável do nosso desenvolvimento no contexto da União Europeia e o turismo uma oportunidade temporal, mas não a base económica do nosso futuro. Ou seja, devemos criar uma logística que possa atrair o investimento industrial de grandes projectos, na linha da AutoEuropa, sem descuidar a oportunidade de haver investimentos nos sectores das novas tecnologias, que não podem ser meros “call centres”, em que Sines e a ligação ferroviária ao centro da Europa em bitola UIC são os factores logísticos determinantes.

Esta visão sofreu o mês passado uma derrota importante, com a preferência anunciada da Volkswagen e da Ford pela Espanha para a realização de investimentos de cerca de vinte mil milhões de euros. A razão foi clara, a Espanha oferece, simultaneamente, bons portos e ligações ferroviárias à Europa, enquanto Portugal tem Sines, mas não tem ferrovia. Esta é a questão, em que a decisão do aeroporto, sendo importante, o é principalmente para o turismo.

Sejamos claros, se Portugal optar pelo turismo faz a opção de um país dos pequeninos, será no futuro o país da mão de obra barata, da baixa produtividade e da perda do investimento industrial estrangeiro. Pior, mais tarde ou mais cedo, perderemos a AutoEuropa que, sem ligações ferroviárias para a Alemanha, não terá grandes razões para permanecer em Portugal. Seguir-se-á a PSA e dificuldades acrescidas para os mil milhões de euros de exportações mensais do nosso importante sector de componentes de automóvel.

Estas são as questões que o PSD terá de debater em São Bento. Debater unicamente o aeroporto comporta já uma opção pelo tal Portugal dos pequeninos, dependente de um turismo de massas e dos altos e baixos da actividade turística e das motivações do turismo internacional.

Quanto ao novo aeroporto, não me recuso a ter uma opinião que, aliás, defendo há muitos anos: não é desejável decidir a localização de um novo aeroporto sem antes decidir qual a vida útil da Portela, ou se devemos investir em alargar este aeroporto às instalações existentes de Figo Maduro e alongar o “taxiway”, além de investir em mais estacionamentos. É uma opção que tem custos ambientais e de segurança, mas que pode ser uma opção virtuosa se fecharmos os ouvidos às exigências megalómanas dos homens do turismo e às preferências da Vinci.

No caso da Portela mais um, nem um tostão para o Montijo, que é a pior de todas as soluções. Mal por mal, antes Alverca e a ida da Ogma para Beja, onde teríamos a oportunidade de desenvolver uma indústria aeronáutica e, quem sabe, espacial.  Mas cuidado, ninguém faz aeroportos para vinte anos e qualquer solução para substituir a Portela nos próximos trinta anos, será a de um novo aeroporto, com a preferência de um local a norte do Tejo, que é onde vivem as pessoas e onde estará a parte mais importante da indústria e da economia nacional. Quanto a mim, o futuro do Alentejo reside em Sines e na atracção do investimento industrial, como de uma possível oportunidade no aeroporto de Beja. Além, naturalmente, da agricultura de qualidade e de algum turismo.

O nó górdio dos investimentos a realizar está na ferrovia, não para mudar toda a bitola da ferrovia nacional, mas, para já, trata-se de garantir uma ligação à Europa de mercadorias e de passageiros. Há muito que prefiro a ligação a Norte, a partir de Aveiro, a pensar nas mercadorias, e de Coimbra, a pensar nos passageiros. Neste caso com ligação a Cáceres, o que implicava ficar com metade da linha de Lisboa ao Porto construída. Como suponho que não teremos a energia política suficiente para convencer os espanhóis e Bruxelas a aceitar esta solução, então que seja a ligação a Badajoz de acordo com o projecto Elos de José Sócrates.

Uma palavra, hoje necessária, sobre o ambiente. O avião é o maior de todos os poluidores e a ferrovia permite acabar com as viagens aéreas até mil quilómetros, mas já existem muitos jovens que preferem o transporte ferroviário em toda a Europa em vez do avião. O futuro do transporte ferroviário de mercadorias reside na colocação dos camiões em plataformas ferroviárias para as grandes distâncias, o que retirará da estrada diariamente milhares de camiões, substituindo o “diesel” pela electricidade.

Ainda no campo do ambiente, somos um pequeno país pobre que herdou uma forte produção de energia hídrica e que pode ainda de forma sensata reduzir a sua pegada ambiental com inteligência e alguma inovação, por exemplo, na utilização da economia industrial circular e dos transportes públicos. Dito isto, teremos de abandonar rapidamente o fundamentalismo ambientalista de governantes a soldo de gabinetes de advogados e de interesses vários, bem como de muita gente contente de que sejamos um país composto de muitos pobres, que afinal são a sua base eleitoral.

A continuação de uma economia portuguesa fortemente dual, com mais de 90% de empresas muito pequenas que actuam no mercado interno, a maioria empresas comerciais, o que inclui o turismo, e um número reduzido de grandes empresas industriais exportadoras, é o caminho para o desastre, com ou sem um novo aeroporto.

A pobreza e a ignorância de muitos milhares de famílias portuguesas reproduzem-se nas famílias e é a base da existência das baixas qualificações no mercado de trabalho nacional e da dualidade da economia. Mudar numa geração é possível, com fez a Dinamarca no século XIX, através de um forte programa de creches e do ensino pré-escolar com alimentação e transporte, além de uma forte preocupação com os comportamentos e a aquisição de competências no desporto, na música e noutras actividades saudáveis.

Acreditem, não será o novo aeroporto que tirará Portugal da cauda da Europa, o que só pode ser feito através de uma nova visão do nosso modelo de desenvolvimento. É isso mesmo que o PSD deve defender junto do primeiro-ministro e dos portugueses. ■