Entre Eduardo Lourenço, José Marinho e Agostinho da Silva (III)

Crítico impiedoso deste tipo de perspectivas foi Eduardo Lourenço. Daí, a título de exemplo, a sua reiterada denúncia do “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, “irrealismo” esse que, alegadamente, se consubstancia nos diversos “mitos compensadores da nossa frustração de antigo povo glorioso, como o de um Quinto Império, que terá em Fernando Pessoa a sua expressão mais acabada”, consubstanciação essa que o nosso pensador explica desta forma “psicanalítica”: “Portugal tem uma hiperidentidade porque tem um défice de identidade real. Como tem um défice de identidade, compensa-a no plano imaginário.”. Ainda assim, não deixou o autor d’ O Labirinto da Saudade de antever nesse nosso tão proclamado “atraso” um alcance outro, capaz inclusivamente de fazer com que a Europa se reencontre consigo própria, acto através do qual Portugal, alegadamente, se reconciliaria, enfim, consigo mesmo.

Se, para Eduardo Lourenço, as circunstâncias que explicam o nosso “atraso” são também aquelas que “nos tornaram imunes, ou mais imunes que outros, à tentação niilista”, para Miguel Real, analogamente, esse é um “atraso”, um “defeito”, com virtualidades positivas – daí, a título de exemplo, estas suas palavras: “A virtude deste ‘defeito’ poderá ser actualmente postulada como diferença positiva, não enquanto uma barreira ao imperialismo da world culture americana do fast food e da fast live, mas como uma alternativa humanística, generosa, tolerante (a famosa ‘Espanha das Três Religiões’), como se pudéssemos oferecer ao mundo uma forma de vida baseada numa lenteur, que se adapta aos ritmos e tessituras ambientais e que secundariza o progresso técnico em nome de um estado de vida ocioso. À vitesse americana e japonesa como padrão universal de comportamento, a nossa diferença permite-nos saborear a vida como uma lenteur espessa (…), que, aspirando ao melhor que a Europa tem (qualidade de vida), não suga dela o industrialismo sem sentido esgotador de recursos e esbanjador de mercadorias.”.

Tal como estes dois pensadores, também José Marinho anteviu nesse nosso “atraso” um alcance outro, que não só nos tornou “mais imunes à tentação niilista”, como, cumulativamente, nos abriu um outro Horizonte. Como nos adverte, nada está, porém garantido – “tudo depende de filosofarmos”: “A situação de Portugal se afigura pior num sentido e noutro sentido melhor que a dos povos de além-Pirinéus. Pior, porque nos faltou e falta o processo de desenvolvimento científico com tudo quanto o acompanhou, com a experiência e gradual reflexão que lhes foi própria, dos povos nossos irmãos mais próximos dos quais nos distanciámos. Melhor porque, justamente por nos ter mantido na obstinada fidelidade ao que foi, se torna possível, com a cisão extrema para todo o passado, na floresta de maravilhas e terrores a que a Europa veio e para a qual arrasta o mundo, uma perspectiva diversa e complementar, e talvez não menos funda, ou não menos lúcida que a deles. Tudo depende evidentemente de filosofarmos e das condições de filosofarmos.”. Estaremos, contudo, de facto disponíveis para isso?, para nos pensamos na nossa “situação”?

Agenda MIL – 12 de Junho, 21h30, via zoom: mais um Debate Público do GT PASC “Lusofonia e Relações Internacionais” (para mais informações: www.pasc.pt)

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