Nos 100 anos da Teoria do Nacionalismo Galego, de Vicente Risco (II)

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Obra de evidente cariz sistemático e doutrinário, a Teoria do Nacionalismo Galego, publicada em 1920, começa por dissertar sobre o “nacionalismo galego”, que, segundo Vicente Risco, deve ser entendido com “a doutrina que enforma o movimento de reivindicação da personalidade da Galiza frente à sorção [no original está: ‘sorbencia’] do centralismo espanhol”, sendo que Vicente Risco equipara expressamente o nacionalismo galego, ou “galeguismo”, ao nacionalismo basco e ao nacionalismo catalão, ainda que ressalve: “O nosso nacionalismo, para ser algo, tem que ser um galeguismo, e não um euskarismo ou um catalanismo traduzidos na nossa fala” (p. 3).

Salvaguardado que, na sua visão, o nacionalismo galego não é, ou não deve ser, “separatista”, Vicente Risco descreve depois o processo de “desgalização” da Galiza: como “perda das nossas tradições, dos nossos costumes, da nossa fala, da nossa liberdade”, “cheia de vergonha de si mesma (p. 5). Face a isso, expressamente propõe-se “trabalhar na reconstituição espiritual, social e económica da Galiza” (p. 6) – e saliente-se aqui a hierarquia, decerto não arbitrária: primeiro o plano espiritual, depois o plano social (ou político) e económico. Daí acrescentar que “precisamos de autonomia nas três ordens”.

Por “reconstituição espiritual” deve entender-se, nas palavras do próprio Vicente Risco, “a criação e conservação da civilização galega na Fala, na Arte e nos Costumes”; por “reconstituição política”, a “autonomia integral” e o “acomodamento do Direito às leis, às necessidades e aos costumes jurídicos da Galiza”; por “reconstituição económica”, “o levar a nossa terra à máxima produção” e a uma “justa e equitativa distribuição da riqueza”, o que só acontecerá quando todos os galegos tiverem – citamos do original – “pan, vestido, casa y-aforros” (pp. 6-7). Eis, em suma, o horizonte de pensamento – e, não menos importante, de acção – que Vicente Risco propõe a todos os galegos nesta sua obra. Na visão de Vicente Risco, o pensamento leva necessariamente à acção.

Depois, no segundo capítulo da obra, Vicente Risco oferece-nos uma panorâmica das “lutas nacionalistas” do seu tempo (pp. 7-8), dissertando ainda sobre os fenómenos do “federalismo” (pp. 8-9), do “centralismo” (pp. 9-11), centrando-se depois no “nacionalismo em Espanha” (pp. 11-13) e na “ineficácia do Estado espanhol” (p. 13-14). Tudo isto para, de novo, fazer a apologia do “nacionalismo na Galiza”, a partir de uma reconstituição das suas raízes históricas (pp. 14-16). Apesar dessas raízes histórias, faltava, na visão de Vicente Risco, uma “doutrina integral do nacionalismo”. Daí toda a importância histórica das “Irmandades da Fala”, como expressamente refere (p. 16), desde logo, como é sabido, na reabilitação do galego como língua principal da Galiza. ■

Agenda MIL: Em virtude da propagação do COVID-19, a sessão agendada para dia 18 de Abril das novas “Tertúlias de Cultura Portuguesa”, no Palacete Viscondes de Balsemão, foi igualmente desmarcada. Esperamos retomar este Ciclo no dia 30 de Maio.