Otelo em perspectiva histórica

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Quem foi “o Otelo” da Revolução de 5 de Outubro de 1910? Ou da Revolução de 28 de Maio de 1926? Alguém hoje sabe? Provavelmente, ninguém. E, decerto, também essas revoluções – independentemente do juízo que cada um de nós faça sobre elas – tiveram o seu “Otelo”. 

Elas não aconteceram, certamente, por geração espontânea – por mais que se alegue que a Revolução de 1910 era inevitável face à decadência do regime monárquico e que a Revolução de 1926 foi igualmente inevitável face à decadência da I República, tal como em geral se alega a respeito da decadência do Estado Novo e da inevitabilidade da Revolução que, em 1974, lhe pôs por fim cobro.

Daqui a cem anos, ousamos adivinhar que também já ninguém saberá quem foi “o Otelo” da Revolução de 25 de Abril de 1974. Não por uma qualquer “conspiração historiográfica” – apenas pela simples mas suficiente razão de que quanto maior é o distanciamento histórico, mais se valoriza o nível “macro” e menos o “micro”, o mais imediato, o mais próximo.

Como não temos ainda, manifestamente, esse distanciamento, a figura de Otelo Saraiva de Carvalho ainda desperta as maiores paixões. Daqui a cem anos, ousamos adivinhar que isso já não acontecerá, de todo. E isto porque, a nível “macro”, “o Otelo” da Revolução de 25 de Abril de 1974 aparecerá, quanto muito, numa nota de rodapé. Ou nem sequer isso. Daqui a um século, a História que se fará da Revolução de 25 de Abril de 1974 atentará apenas naquilo que então esteve essencialmente em causa.

Provavelmente, nesse nível “macro”, a Revolução de 25 de Abril de 1974 aparecerá apenas como mais um efeito colateral da “Guerra Fria” que opunha as duas grandes super-potências da época: EUA e URSS. Não particularmente por causa de Portugal mas, sobretudo, por causa da África Lusófona. A própria União Soviética sabia bem que não era geopoliticamente possível que Portugal tivesse um regime comunista – provavelmente, seria ocupado de imediato por Espanha, com o apoio dos EUA, como fez a Indonésia em Timor-Leste.

O nosso Otelo bem se pode ter entusiasmado, como ele próprio confessou, com o exemplo cubano de Fidel Castro mas isso nunca esteve, verdadeiramente, no guião desta peça histórica. A União Soviética, realisticamente, quis apenas levar para a sua esfera de influência os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Por isso, quando o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagindo ao falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho, considerou, em nota oficial, ser ainda “cedo” para a “História o apreciar com a devida distância”, foi tão-só, a nosso ver, benevolente. Tido como o grande encenador do jogo de xadrez da Revolução de Abril, o nosso Otelo foi, nesta peça história, a nível “macro”, um mero peão. ■