Padre António Vieira: a vacina que faltava?

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A vandalização da estátua do Padre António Vieira em Lisboa poderá ter sido, entre nós, uma vacina (pelo menos, temporária) contra a moda/maré do derrube de estátuas que tem assolado grande parte do mundo. Com efeito, se noutros países os alvos têm sido mais susceptíveis de alguma defesa pública, em Portugal não houve ninguém (relevante) com suficiente descaramento para justificar (em público) essa vandalização.

Saudemos, pois, os nossos “Talibans do Politicamente Correcto” (TPC) por terem escolhido a estátua do Padre António Vieira como o seu primeiro alvo – uma escolha tão ignorante, tão estulta (como já foi mil e uma vezes denunciado), que, pelo menos para já, deixou os TPC indígenas por inteiro paralisados.

Um olhar mais cínico dirá que a escolha da estátua do Padre António Vieira decorreu sobretudo de um critério de facilidade – é que, ao contrário de outras (algumas bem perto, como a de Camões), a estátua do Padre António Vieira foi instalada quase ao nível do solo, sem desnível suficiente que tornasse mais difícil a sua vandalização. O argumento poderá não ser por inteiro absurdo – pensemos, por exemplo, na estátua de Afonso de Albuquerque, em Belém: para a vandalizar, os nossos TPC teriam que recorrer a uma grua…

Não desprezando o argumento da “preguiça” (sempre um argumento a ter em conta para explicar muitos fenómenos a nível antropológico e sociológico), propomos aqui, porém, uma outra explicação para essa escolha – a nosso ver, há algo que irrita particularmente os nossos TPC na figura do Padre António Vieira: e esse “algo” é ele ter sido um Padre, o que de resto a estátua em questão o sublinha, de forma eloquente, ao tê-lo representado empunhando uma cruz.  

Admitindo que tenha sido essa a razão da escolha, isso só reforça, porém, a sua inanidade. Sim, sabemos que não é politicamente correcto dizê-lo hoje em público, mas essa é a verdade histórica: o cristianismo foi a primeira grande mundividência, à escala global, a defender a igual dignidade entre todos os humanos (porque, alegadamente, filhos de um mesmo Deus, criados à sua imagem e semelhança, por isso, ontologicamente irmãos…). Não por acaso, quem, ao longo da história, se afirmou contra essa igualdade ontológica entre os humanos (como, entre muitos exemplos possíveis no plano filosófico, Nietzsche), também se assumiu, de forma coerente e consequente, como anti-cristão. 

Mesmo no plano religioso, o cristianismo entrou muitas vezes em rota de colisão com outras mundividências que, ao contrário, ainda hoje, aceitam e até justificam a não igualdade ontológica entre os humanos. Que, em pleno século XXI, no contexto de uma alegada luta contra o racismo, os nossos TPC tenham escolhido como alvo a figura do Padre António Vieira, eis, com efeito, o que extravasa todos os limites da ignorância e da estultícia. Ainda bem, porém, que a fizeram. Essa poderá ter sido a vacina que faltava para que os portugueses não passem a desprezar por inteiro a nossa história, como pretendem os TPC indígenas. ■