Plano para a recuperação económica

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Não compliquemos o que é simples. O plano que preconizo para que Portugal possa sair da crise é simples. Destina-se a simultaneamente poupar os mais pobres da indigência e do desemprego nos próximos meses de grandes dificuldades e, ao mesmo tempo, ser coerente com a estratégia da AIP em que acredito e que aqui publiquei recentemente. Ou seja, é um plano para o curto prazo, mas feito com escolhas estratégicas certas para o crescimento económico futuro.

Vamos viver um período de extrema gravidade, em que as ajudas do Estado devem ser dirigidas em primeiro lugar às pessoas e só em segundo lugar às empresas. As empresas viáveis, que não possam funcionar em pleno por falta de actividade, manterão os trabalhadores que serão pagos pela Segurança Social. Mas o Governo não pode continuar a criar a dependência dos portugueses e das empresas em relação ao Estado e, assim sendo, todos os subsídios do Estado devem ter, mais cedo ou mais tarde, retribuição em trabalho, ou em capital. Acreditem ou não, estamos em tempo de guerra e todos somos responsáveis.

Assim, por exemplo, a crise deve ser aproveitada para reorganizar a propriedade rural e todo o interior, comprando o Estado os terrenos não produtivos para promover o emparcelamento agrícola e a reorganização da floresta. Posteriormente, esses terrenos deverão ser vendidos, ou arrendados, aos agricultores e às empresas que tenham condições de prover ao seu uso económico. Este processo permitirá, no curto prazo, a injecção de dinheiro no mundo rural e às pessoas mais velhas e que não têm condições para rentabilizar o uso da terra. Acabemos com a economia do abandono.

A agricultura tem de ser mais produtiva e melhorar o valor do que produz, com vista à exportação. A floresta não pode continuar a ser para arder, o interior do País não pode ser abandonado, mas a solução não são apenas subsídios. A solução passa pela reorganização da economia do interior, nomeadamente incentivando a produção de energia através dos resíduos florestais. Terá de ser um grande programa que coloque em movimento o mundo rural de forma a permitir-lhe sobreviver sem fome nos próximos anos.  

Entretanto, a grande aposta do Governo e dos portugueses para vencer a crise deve ser na indústria. E porque não há tempo para soluções apenas nacionais, a aposta terá de ser a atracção do investimento estrangeiro de empresas industriais integradoras/exportadoras. O momento é propício, devido à consciência criada da excessiva dependência do Ocidente em relação à China e porque a eficiência logística é hoje determinante na competitividade das empresas e dos países.  

Portugal está no centro do Ocidente, nas rotas do Atlântico e entre os dois maiores mercados mundiais. Nesse sentido é vital oferecer rapidamente aos investidores a construção, financiada pelo Estado e pela União Europeia, de uma linha férrea moderna e interoperável com a Europa, para mercadorias e passageiros, que aproveite a liberalização do mercado promovida pela União Europeia. Podemos não ter imediatamente dinheiro para financiar os meios de transporte em direcção à Europa por uma empresa nacional, mas não perderemos a oportunidade de as empresas portuguesas controlarem as suas exportações, beneficiando, em eficiência e em custo, da nova concorrência nos transportes europeus, que é o factor que melhor pode reduzir o custo da distância. 

Portugal tem o mais sério problema de dualidade económica da União Europeia, devido à falta de qualificação dos recursos humanos, que é a razão principal de os países da antiga cortina de ferro estarem a passar-nos à frente. Apenas a indústria permite formar esses trabalhadores oriundos da parte mais pobre da economia e oferecer melhores remunerações do que as actuais, ao mesmo tempo que cria exportações. O turismo, por necessário e bem-vindo que seja, não concorre para o aumento da produtividade. Os restantes serviços de cariz tecnológico precisam principalmente de recursos humanos qualificados, que não temos em número suficiente, e o comércio que existe tem uma dimensão excessiva na oferta de pequenos negócios sem futuro: restaurantes, bares, cafés, mercados de rua, pequenas lojas, toda uma economia de mera sobrevivência, a que mais vai sofrer. Aliás, é um sector que há muito vive um processo de modernização que deixará para trás muitos milhares de trabalhadores. Apenas a indústria tem a dimensão e as condições para ser o suporte necessário à recuperação e à criação de empregos. 

Para superar o problema da falta de qualificações de metade da nossa força de trabalho, é urgente que os apoios às empresas sejam destinados à reconversão e formação dos trabalhadores. Ainda mais urgente é apostar nas creches e no pré-escolar de qualidade, com alimentação e transporte, no que é o mais importante meio de nos aproximarmos dos padrões europeus, quer económicos quer sociais. A ignorância desenvolve-se no seio das famílias e é necessário quebrar esse círculo vicioso da pobreza e da ignorância.

Três AutoEuropas, foi dito, do mesmo ou de sectores diferentes, mas empresas que tragam consigo mercados de exportação e com a capacidade e a necessidade de desenvolverem novos fornecedores nacionais. É a via para superar a crise e reiniciar a rota de crescimento.

Não há progresso social sem desenvolvimento económico. Devemos recordar que no século XX o nosso grande salto em frente se deu com a EFTA e o investimento industrial estrangeiro e depois com o PEDIP e a AutoEuropa. Em momentos de crise, devemos parar de inventar e seguir o conselho de Michael Porter, de começar por fazer mais daquilo que sabemos fazer melhor. 

Podemos e devemos inovar, a minha vida foi feita disso mesmo, mas vai haver fome e desespero em muitos milhares de lares portugueses; e se não pusermos os pés no chão e começarmos já a trabalhar mais e melhor, não venceremos. Reduzir os horários de trabalho e aumentar o número de trabalhadores, em vez de utilizar a tecnologia e melhorar a organização, é um erro grave. Outro erro grave será apostar em grandes projectos, capital intensivo e de retorno não garantido. 

O Covid-19 e, antes disso, a excessiva dependência dos portugueses do Estado para sobreviverem, têm provocado em muitos portugueses apatia, conformismo, desistência. Existe o equívoco sobre a necessidade de cada pessoa ter de lutar, trabalhar e contribuir para a solução dos seus próprios problemas. No próximo futuro, o Estado não vai poder fazê-lo, ou corre o risco de destruir o que resta da economia, aumentar a dívida e matar a nossa capacidade de recuperação. Idem quanto a todas as facilidades promovidas pelo Estado: seja na imigração, seja na criminalidade de sobrevivência, seja nos incentivos, há indolência, por ausência de uma cultura de exigência em todos os planos da vida nacional.  

Chamo a atenção de que nesta conjuntura os apoios da União Europeia são necessários para que não haja mais fome em Portugal, mas para que Portugal possa vencer a batalha do seu desenvolvimento, isso terá de ser feito pela vontade e determinação dos portugueses, quando orientados pelo exemplo da exigência contra as facilidades.

Nos últimos trinta anos Portugal pediu ajuda externa por três vezes. Podemos sempre repetir a dose, mas a cada vez que o façamos descemos um pouco mais na escala dos países europeus e já não temos muita margem para descer mais. Talvez que o melhor programa para vencer a crise seja falar verdade aos portugueses e dar-lhes as melhores condições formativas para subir na vida. Nenhum Governo pode resolver os problemas do seu povo se esse povo não decidir fazê-lo por si mesmo. ■