Mudar de vida na Europa frugal

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Os países da Europa frugal, ricos porque bem governados ética e tecnicamente, vão emergir ainda mais fortes desta crise pós-pandémica. Isto enquanto os países esbanjadores, pobres porque mal governados, sem ética nem competência técnica, vão ficar ainda mais debilitados.

A fraqueza sistémica de uma economia como a portuguesa, baseada em ilusionismo, dívida e turismo, já não vai poder ser escondida com cosmética financeira e anúncios comprados por milhões na televisão nacional que elogia tudo sem questionar nada.

Se nem com a pandemia o governo de Portugal mudar de vida, vamos ter ainda mais emigração, desemprego em massa, queda das pensões e uma economia em queda livre irreversível, enquanto as cunhas políticas se sobrepuserem ao mérito profissional e capacidade de obter resultados. 

A Europa rica e frugal já foi muito generosa no passado connosco quando, por exemplo, pagou o doutoramento de milhares de portugueses para tentarem ajudar o nosso país a elevar-se aos padrões éticos e técnicos deles, que levam à prosperidade sustentável. A culpa não é desses países se depois desperdiçamos e empurramos esses técnicos altamente competentes para fora de Portugal, em vez de os usarmos para tornarmos o país bem gerido, rico e forte financeiramente perante crises, como a Holanda é.   

De forma suicidária, em vez de portugueses qualificados tecnicamente, este governo tem colocado milhares de políticos sem competências em todos os cargos técnicos de responsabilidade. Para quem não sabe gerir nem entende a área que gere, nunca haverá dinheiro que resista à incompetência.  

Derrotado e só levando metade do dinheiro que pedia, o incorrigível primeiro-ministro português António Costa lamentou-se na recente cimeira Europeia de que “há visões profundamente distintas do que é a União Europeia” e que está a desaparecer “o espírito que tem de animar a União”.   Para aparentar nobreza em vez de mendicidade, Costa invocou este domínio espiritual, mas o que pretendia era só material, como sempre. Queria que a Europa frugal continuasse a dar dinheiro ao governo de Portugal cada vez que há uma crise, sem nunca pedir nada em troca, nem mesmo escrutinar que o dinheiro seja bem gerido, criteriosamente aplicado ou que haja uma visão estratégica bem definida para o investir.  

Vencedor e poupando milhares de milhões em descontos nas contribuições que faz para sustentar o governo de Portugal, o primeiro-ministro holandês Mark Rutte está farto dessa visão do nosso governo. Nos países frugais que ele representa, suspeitam que o muito dinheiro que para cá enviam há décadas pode estar a ser esbanjado sem critérios eficazes pelas mesmas caras que estão sempre a ver nos governos e na Assembleia da República. Isto porque nunca vêem resultados, a não ser o governo de Portugal sempre a pedir-lhes mais dinheiro. Desta vez, perante uma crise económica pós-pandémica gigantesca, Portugal ficou só com cerca de 15 milhares de milhões, sendo que metade são empréstimos, como se já não bastasse a muita dívida e juros que pagamos. 

Portanto, não funcionou para o nosso governo insistir em que as suspeitas desses países frugais sobre esbanjamento de fundos são infundadas. Os países ricos, porque frugais, sabem bem que temos o maior governo de sempre. Suspeitam também que os milhares de nomeações de cargos técnicos vitais para a economia ou saúde de Portugal foram atribuídos por esse governo ligando bem mais a cunhas políticas do que a qualificações técnicas. Os países frugais interrogam-se ainda porque é que cá há milhares de milhões de euros “investidos” há décadas nos mesmos negócios privados sempre falidos, geralmente administrados por políticos em vez de técnicos. Perguntam-se porque é que Portugal não investe, como esses países frugais fazem, com base no mérito e na qualificação técnica para tornar as empresas sustentáveis e competitivas. 

A verba que agora nos foi doada e emprestada não vai ser suficiente para a nossa economia. Vai ser necessário persuadir as ricas Áustria, Holanda, Dinamarca, Suécia ou Finlândia a ajudarem mais Portugal. No entanto, essa solidariedade adicional só tem alguma possibilidade de acontecer em maior escala do que a pequena que foi conseguida na recente cimeira, desde que em contrapartida o governo de  Portugal dê garantias reais e concretas de que, se os países  ricos nos derem mais uma vez generosamente dinheiro, desta vez, ao contrário do que aconteceu com muitos dos  fundos e investimentos europeus em Portugal das últimas quatro décadas, vamos ter tolerância zero ao desperdício de tal dinheiro e fazer todas as reformas necessárias para a sua boa gestão. 

Agora que precisamos de muito  dinheiro deles para manter a economia viva e os empregos nesta crise Covid-19, temos de nos comprometer a nunca mais tolerar  irresponsabilidades, como por exemplo continuar no actual orçamento de 2019/2020 a irresponsável saga dos 20 mil milhões de euros públicos dados numa década a bancos privados de amigos de sucessivos Presidentes da República, sem a Justiça ou o Executivo agirem, investigarem ou irem buscar o crédito mal-parado ilegalmente concedido.  

Se não tivermos essa humildade e capacidade para compromissos e reformas, os países ricos não nos vão querer dar mais dinheiro. É que, do ponto de vista deles, continuam a pensar em 2020 o que pensaram em 2008-2014 e invocaram explicitamente nessa altura:  “a cigarra e a formiga” é uma fábula que nunca falha, não só multicentenária de La Fontaine, mas também multimilenar, pois vem de Esopo no mundo clássico. É mais do que certo que esse paradigma está inculcado na mente puritana, espartana e calvinista desses países e dos seus cidadãos. Para os europeus do Norte, quem trabalha bem no governo e poupa tem dinheiro nos momentos de crise, sejam financeiras sejam de saúde pública. Pensam eles nos países ricos do Norte: ao menos que as cigarras sejam humildes e negoceiem compromissos e reformas, se aflitas no Inverno das crises financeiras ou pandémicas que a todos tocam, quando precisam do dinheiro que as formigas pouparam no Verão.

Do ponto de vista desses países ricos que se vêem como formigas, ficam estupefactos e ainda menos generosos quando acham que as cigarras, que só sabem cantar alegremente, ainda por cima  nos momentos e Invernos da crise, em vez de garantirem mudar de vida, continuam a ver os políticos dos países pobres, sempre que vem uma crise, a exigirem-lhes as suas poupanças sem quererem dar nenhuma garantia em troca nem propor nenhum compromisso ou reformas profundas contra o esbanjamento. 

Concluindo, para obter dinheiro, em vez de só pedir, é necessário garantir à Holanda, Áustria, Suécia, Dinamarca e Finlândia que a ajuda que nos for concedida nos anos 2020s não poderá ser “gerida” como foi nos anos 1990s ou 2000s. O dinheiro terá que passar a ser usado rigorosamente, sendo gerido por governantes competentes, éticos e com mérito, escolhidos pela população que avalie os resultados de deputados e ministros individualmente em ciclos unipessoais eleitorais, em que tudo se saiba e se questione sobre as capacidades técnicas e éticas de cada governante. Para que não mais sejam escolhidos governantes por familiares também governantes, compadrio ou por um grupo restrito de gente que lucra com Portugal pobre. 

Só uma democracia saudável pode fazer face a emergências económicas com a robustez da boa gestão ética e técnica.  ■