O eleitorado pôs fim a décadas de poder absoluto do PS sobre os Açores, e se há coisa pela qual o PS saliva, é por poder. Reconhecer que a culpa da derrota é inteiramente sua é que já não está ao alcance das individualidades deste partido pois, como diz a sabedoria popular, “cá se fazem, cá se pagam”. Não tivessem sido as artimanhas de António Costa em 2015 e o PSD provavelmente teria viabilizado o Governo do partido mais votado. Nessa altura, nem o velho acordo de cavalheiros segundo o qual o presidente da Assembleia da República viria do partido mais votado (neste caso o PSD) foi respeitado. Naturalmente, o PSD sente-se no pleno direito de formar uma “geringonça” de direita nos Açores, a qual, matematicamente, teria de incluir o partido Chega.
O chefe socialista, naturalmente, ficou desconsolado com um simples acordo parlamentar com vista a viabilizar a governação na Região Autónoma. «Rui Rio ultrapassou uma linha vermelha e deve explicações ao país», disse Costa aos jornalistas, acusando o líder do PSD de organizar um “acordo secreto” e opinando que “o simples facto de haver um acordo é em si mesmo da maior gravidade”.
A esganiçada Ana Catarina Mendes, líder da bancada parlamentar do PS, também não conseguiu esconder o seu desagrado com o facto de o eleitorado açoriano, esse bando de ingratos, ter dado dois deputados ao Chega, e mostrou-se “seriamente preocupada” por o PSD procurar parceiros para acabar com o longo domínio do PS sobre os Açores. Isso, claro, corresponde a uma “normalização política do Chega por parte do PSD”, considerou a senhora deputada.
Aqui está uma preocupação com a democracia que Ana Catarina Mendes, esposa de Paulo Pedroso e deputada no parlamento desde 1995, nunca mostrou quando Sócrates levou Portugal rumo à bancarrota sem que a bancada parlamentar do PS dissesse uma palavra. Mas uma preocupação também muito interessante quando temos em conta que ela esteve entre os deputados do PS que permitiram e promoveram a normalização de dois partidos de extrema-esquerda que apoiam ditaduras cruéis e desumanas. Mas dessas já os socialistas não gostam de falar.
BE e Venezuela
Para conquistar o poder a qualquer custo, António Costa fez o que seria impensável para os pais fundadores do PS: coligou-se com o Bloco de Esquerda (herdeiro dos movimentos radicais do infame PREC) e com o Partido Comunista (que no mesmo PREC pôs em prática um plano de assalto ao poder em todas as instâncias).
Ora, Ana Catarina Mendes e António Costa estão tão preocupados com os dois deputados do Chega nos Açores, e com o deputado único na Assembleia da República, que se esquecem que o seu amigo de geringonça, o Bloco de Esquerda, foi em tempos um defensor acérrimo da ditadura venezuelana, só agora se tendo afastado desse papel com medo de alienar os seus eleitores urbanos. Mas é importante relembrar os dias em que o Bloco de Esquerda dizia que “enquanto que na Europa a democracia está a falhar, na Venezuela a democracia participativa tornou-se um sinal de identidade”. Nessa época os bloquistas ainda promoviam a Venezuela como uma alternativa à “austeridade” da direita, cuja necessidade tinha nascido da má governação do PS.
Hoje, claro, Marisa Matias anuncia vez após vez que “o Bloco de Esquerda não apoia nem nunca apoiou” o actual regime venezuelano. A memória é uma coisa curiosa, e a senhora candidata à Presidência da República claramente não se lembra, ou não quer lembrar-se, de a eurodeputada Alda Sousa, eleita pelo BE, ter proclamado em 2013 que “Hugo Chávez foi um dos rostos que, no continente sul-americano, esteve num vasto movimento que procurou libertar o continente da dependência do FMI e que procurou criar um modelo de desenvolvimento alternativo. Teve, de facto, uma luta muito importante contra o imperialismo”, terminando o seu discurso enaltecendo “a força de combate e vontade de combate” de Hugo Chávez. Se isto não é apoiar…
Hoje, tal como então, era conhecido que a Venezuela é uma ditadura cruel onde Chávez e Maduro oprimem o povo através da fome. Como já tem sido referido neste jornal, para os líderes socialistas a fome é uma arma política. Quando perdeu as eleições legislativas, tal como o PS as perdeu nos Açores, o ditador venezuelano limitou-se a convocar uma Assembleia Constituinte para a substituir, algo completamente ilegal até mesmo segundo a constituição do regime ‘chavista’. Que bela democracia! E apoiada pelo BE. Mas António Costa e Ana Catarina Mendes com isso não estão preocupados.
PCP e Coreia do Norte
Se o BE tem uma relação amorosa secreta com a Venezuela, então o PCP é um amante às claras das ditaduras de índole comunista. Afinal, em celebração do aniversário dos 70 anos da República Popular da China, o PCP anunciou ao mundo que “considera que 1 de Outubro de 1949, data da proclamação da República Popular da China, marca um dos mais importantes acontecimentos revolucionários do Século XX” e desejou os melhores êxitos nas tarefas que o Partido e o Estado chinês se colocam, no caminho de uma sociedade socialista, nomeadamente, a concretização dos importantes objectivos estabelecidos pelo XIX Congresso do PCC”. Ora, esses “objectivos” incluem campos de trabalho forçado para minorias étnicas, um sistema informático ‘orwelliano’ de controlo social e uma perseguição feroz aos cristãos que inclui a elaboração de uma nova “Bíblia”. Talvez ainda venha a incluir “o evangelho segundo Cunhal”, visto que representantes comunistas chineses costumam ser convidados de honra da Festa do Avante.
O facto universalmente conhecido de que a Coreia do Norte é uma ditadura cruel ou uma democracia avançada é, para Jerónimo Sousa, apenas “uma opinião”. Quando se lhe põe a questão, o chefe comunista pergunta abertamente: “Mas o que é a democracia? Primeiro tínhamos de discutir o que é a democracia”. Se qualquer líder de direita dissesse o mesmo, seria crucificado em praça pública.
Bernardino Soares, por sua vez, está convencido da benevolência do regime dos Kims. Ficou célebre a sua afirmação de que tinha “dúvidas de que não haja lá uma democracia”. Sim, há dirigentes comunistas que não duvidam de que um regime onde o cargo de supremo líder é hereditário e onde o povo é doutrinado para pensar nele como um deus na terra é uma democracia. O que não é democrático, parece, é o Chega obter dois deputados e fazer um acordo parlamentar com o PSD.
Que Costa e Mendes não consigam ver estes comportamentos antidemocráticos é surpreendente, visto que acontecem mesmo à frente do seu nariz. Quando foi votada “uma saudação pela atribuição do prémio Sakharov à oposição democrática venezuelana”, algo que na maioria dos parlamentos normais da Europa foi aprovado quase por unanimidade, os dois partidos marxistas apoiantes da ditadura vermelha rejeitaram a proposta.
Verdadeiramente, para as lideranças socialistas, o único extremismo que existe em Portugal é mesmo a formação de um Governo açoriano que não envolve o PS. É preciso ter muita lata…
Extremismo só há um…
Para os “indignados” socialistas, o Chega é um partido extremista e “xenófobo” (embora, pelos vistos, não chegue ao “requinte” do recente líder socialista britânico, Jeremy Corbyn, que não escondeu as suas opções anti-semitas e atacou os judeus com uma virulência digna do III Reich).
Na verdade, o Chega é um partido extremamente aguerrido nas palavras (por alguma coisa ele é populista), mas fez profissão de fé no regime democrático representativo. Pretende aumentar a sua representação parlamentar e através dela influenciar legalmente a governação, no sentido de defender a iniciativa e a propriedade privada e o alinhamento do país com os valores geralmente conhecidos como “ocidentais”.
Já o mesmo não se pode dizer dos partidos com os quais Costa fez a sua “panelinha”: tanto o PCP como o BE radicam na defesa da “ditadura do proletariado”, com ‘nuances’ que vão do estalinismo ao trotskismo, passando pelo maoismo, o leninismo e o spartakismo. São adeptos do primado do Estado sobre a vida política, económica e social (e até sobre a vida doméstica dos cidadãos), desprezam a individualidade humanística e a iniciativa privada e adoptam tácticas e estratégias de conquista do poder absoluto que quase fazem de Mussolini um “menino de coro”. O seu domínio sobre alguns sectores da vida nacional, como o cultural, dá uma pálida ideia do domínio totalitário que eles gostariam de impor a todos os aspectos da vida dos portugueses. E se tiveram de vergar-se ao “jogo democrático” foi apenas porque não tinham outra forma de fazer a abordagem ao poder.
Se António Costa acha que um inócuo acordo de incidência parlamentar entre partidos democráticos com vista a apoiar num parlamento regional uma solução social-democrática de governação é “grave” e requer “explicações ao país”, que dizer então do acordo que ele próprio fez com os mais ferozes inimigos da democracia? ■




