Cinema: sugestão de verão

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PEDRO JACOB MORAIS

O Verão chega com as suas promessas de renovação, promessas estivais de um astro forte, a pique, do nascer ao fim do dia. Traz consigo um manto grande de praias, florestas em vigia, precipícios empedernidos e quedas de água em altura. Mergulhos de anzol. Mais porta um gigantesco túnel de horas por preencher, quando as aulas acabam e os miúdos estão livres, tão livres que cansa, dá sono, aborrece. Tão livres que tudo parece deserto, sem gente, campainhas, contínuos, agitação de folhas, cadernos a arder no último dia. Tão livres que é de mais. Como de mais são as horas do dia, a rua de alcatrão a derreter, até lá ao fundo, à curva, ao limite do controlo parental.

Ficam os sitiados, pelo Verão e pelo sol a pique. Ficam as aventuras urbanas, limitadas ao espaço conhecido. E, ao ficar tudo isto, abre-se o grande mistério do desconhecido. O mistério do outro lado da rua, com as suas casas devolutas, as vedações cortadas e entrecortadas, as pequenas matas que conduzem a lugar nenhum, os tanques de pedra cheios de uma água muito verde, tão verde que é já azul-petróleo, o lixo amontoado, as piscinas municipais quentes como cal. O Verão traz tudo isto e muito mais, uma resma de projectos, expectativas e intuições por realizar e irrealizáveis, fora do alcance da criançada. Tudo isto e o olhar que se abre à descoberta.

O recente “It” (2017), adaptação do romance de Stephen King que havia já dado origem a uma minissérie de dois episódios em 1990, centra-se no imaginário infantil, nesse escondedouro ou arca de todos os sonhos que as férias grandes representam. Há um palhaço maléfico, um palhaço que afinal é um fantasma disfarçado de palhaço, um fantasma de um palhaço finado ou qualquer coisa do género e que assusta criancinhas quando estão acordadas, quando estão a dormir, quando estão a passear. Vive dentro de uma casa em ruínas e gosta de atrair os miúdos que por lá passam de bicicleta. Os caminhos de bicicleta da nossa infância têm sempre casas assombradas, mansões na orla do mundo, a atrair olhos curiosos, exploradores, aventureiros, adeptos de churrascos.

As casas assombradas erguem-se como uma descontinuidade na paisagem civilizada, um ponto de ruptura na urbe, a inexplicável morte parcelar da cidade. Perante os edifícios abandonados perguntamo-nos como é possível que existam, que ali estejam, ao alto, a desafiar a ordem política. Com que conivência se erguem? Mais atestam a nossa exemplar aversão ao caos, à ausência de ordem, o desconforto da perda da familiaridade quotidiana. Nas casas abandonadas tudo pode acontecer porque ninguém quer saber da sua existência, porque lhes permitiram continuar erguidas em confronto com o resto da cidade. Surgem em desafio e ocultam perigos mortais.

Um desses perigos é o palhaço Pennywise, o habitante da casa assombrada, o senhor da casa que assombra. Neste sentido, perfila-se também como o mestre do caos, o assediador, o bicho papão, o lobo mau ou qualquer outra declinação que assusta a miudagem. Pennywise transporta um duplo grau de quebra da realidade. Por um lado, a descontinuidade na paisagem urbana que a casa devoluta assinala, o estranhamento da rua, o desapossamento da segurança das brincadeiras quotidianas. Por outro lado, a possibilidade da perda familiar, da separação dos pais, o mais tenebroso medo das crianças. É esta a proposta que Pennywise encerra, a da perda sucessiva da rua e da família, emoldurada pela grande desestabilização quotidiana que as férias grandes convocam.